Sábios e ignorantes
Olhos e cabelos pretos, de um negro brilhante, penetrante, como se aquele ser arrastasse consigo a força do Mundo, num saber antigo, afinal tão simples, de que o trucidar da natureza crucifica o Homem num calvário certo.
Marcos viu seu pai, Chicão, morrer, ceifado na estrada por emboscada de autoria oficialmente anónima, mas que os ventos sussurram ter tido assinatura óbvia; fazendeiros "cheios" daquele índio franzino que, de dia para dia, se ia agigantando na defesa do povo Xucurú.
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Os deserdados de uma terra que durante milénios confundiu em sombras únicas, aqueles homens, mulheres e meninos, de peles de veludo escuro e o verde do arvoredo. O mergulho mágico do beija-flor.
Pela morte de seu pai, Marcos recebeu, muito antes de tempo, ainda menino, o toucado de cacique dos Xucurús, esse povo do nordeste brasileiro, onde os colonos originais se bateram pelo madeirame de cedro e os actuais ainda insistem que Índio é animal selvagem.
Espécie apoucada, por insistir na conciliação de Homem e natureza, como se isso tivesse qualquer importância ou não fosse, a segunda, destinada a, pelo primeiro, ser domada.
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"Os brancos pensam tudo opondo uma coisa à outra e separando estas de algum tipo de todo, de que são parte e lhes dá sentido" - analisa Marcos. "Por exemplo, entre os brancos diz-se "a minha casa" por oposição às de todos os outros de um mesmo bairro".
"Ou então se diz " cidade" e a imagem é a de alguma coisa que o Homem fez e separou dos rios, das matas e das cordilheiras. Os brancos separam tudo de tudo e dão enorme importância em saber o que é de quem".
"Os índios – contrapõe – pensam as mesmas coisas mas ao contrário. A casa só pode ser pensada junto com as outras, na aldeia. E as aldeias todas juntas são o lugar de um povo. E não se separam do Mundo à volta delas. A nossa existência individual é um círculo dentro de outros círculos".
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"Os brancos parece que só se sentem vivendo no que possuem e, por isso, ser dono, é tão importante. Não é que eles sejam ambiciosos. Eles são muito inseguros e sofrem por isso. O Deus deles está muito longe nos céus que é o oposto da Terra. Alguns deles dizem que têm Deus dentro dos corações mas eu acho que eles, pelo menos a maioria, não acredita nisso, porque senão não seriam tão amedrontados, mesmo quando parecem ser tão poderosos".
"Para nós, Deus está por aí, pelos montes e em toda a parte à nossa volta.
A própria terra é a nossa mãe, viva, e, por isso, é fecunda e nos alimenta".
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Marcos olha na parede da sala um "poster" representando seu pai, com as paramentas tradicionais de cabique (líder) Xucurú. Toucado de penas longas, multicolores, a cara, braços e peito pintados com sumos da natureza e os olhos negros embaciam-se por segundos na saudade.
Há exactamente 20 anos que viajo pelo mundo como jornalista. Não como visitante passageiro, na periferia de qualquer VIP ou cobertura de megaeventos, mas em permanência e empenho bastantes para me tentar acrescentar noutros olhares. Mas depois, ao regressar "a casa", o abraço é o oposto do esperável de um país que se contamina e contaminou no Mundo, através das navegações e do verter emigrante.
Em cada desembarque na Portela, a certeza soma-se, cada vez mais, que o nosso útero telúrico não pode ser um rectângulo de tacanhez cada vez mais paroquial. Onde o que é diferente é insano. "Desfasado das realidades".
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Estou a ver um jornal televisivo. Não interessa de que estação, ou sequer de que país. Pouco diferem, na sua maioria dos casos, uns dos outros.
Alinhando uma versão noticiosa que reproduz e alimenta uma sociedade cada vez mais umbiguista, vazia e primária.
Deixando de lado, por escolha voluntária, o espaço de "dissonância", de divergência inteligente e corajosa da manada.
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Não me trás os Marcos desse Mundo, essas janelas de esperança, para os filhos – os meus e os seus (a si que me lê) – que nos povoam os sonhos. Esse reordenamento do nosso estar no Mundo, na vida e na aldeia global.
E eu, num gesto cada vez mais frequente, desligo o botão do monitor, com uma sensação de enfado, de desperdício de oportunidade, de meios e de recursos.
Prefiro as notas de viagem, onde regresso, em espírito, ao cacique Xucurú; "Por isso, para o Índio, não é difícil, pensar que ele mora ao mesmo tempo, numa choupana, numa aldeia, em algum lugar alto do planalto, nos montes, nos rios. Na terra inteira, no Universo e nas estrelas".
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Bendita "ignorância" de quem, afinal, tanto sabe.
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