Proibir a IA? Já tentámos isso com a calculadora
O impacto da Inteligência Artificial tem sido amplamente debatido em diferentes “fora” sob múltiplas perspetivas. O evento ocorrido no passado dia 13 de janeiro, no ISEG, sob o título “Leader’s Agenda 2026 — Transformar o Trabalho, IA, Liderança e o Futuro do Trabalho Humano” e promovido pelo Conselho Estratégico de Liderança da Associação de Antigos Alunos do ISEG (Alumni Económicas) trouxe para o centro do debate uma questão incontornável na agenda dos líderes: como preparar as organizações para um mundo em que a Inteligência Artificial (IA) automatiza e redefine não só processos, mas também as suas funções e competências? Porque esta não é apenas uma questão de natureza tecnológica, foi tempo para uma reflexão estratégica e filosófica sobre o futuro da sociedade, da economia e da educação.
Tendo em conta os desafios de curto-médio prazo, a intervenção da sra. ministra do Trabalho e da Solidariedade Social, a professora Maria do Rosário Palma Ramalho, enfatizou, ao abrir da sessão, que a discussão sobre IA não pode estar dissociada das questões laborais. Sublinhou que, a médio prazo, a IA traz oportunidades, mas também riscos, exigindo a requalificação das pessoas e um quadro regulatório que tenha em conta as implicações da IA nas relações de trabalho. Realçou ainda a importância da dimensão ética e da supervisão humana sobre os modelos de IA de modo a garantir os direitos do trabalhador.
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Por sua vez, o professor Paulo Soeiro de Carvalho, reforçou a ideia de que teremos carreiras cada vez mais fluidas e compostas por uma sucessão de projetos. Esta tendência, acelerada pela IA e pela digitalização, exige uma mudança profunda na forma como encaramos o trabalho. Prevê que as profissões deixarão de ser formadas por percursos lineares, onde a capacidade de adaptação, o pensamento crítico e a aprendizagem ao longo da vida são essenciais.
Por fim, a mesa-redonda que se seguiu, complementou esta visão ao sublinhar-se que a liderança do futuro será mais humanizada, colaborativa, inclusiva e orientada para o propósito. Tudo indica que não basta dominar tecnologia; é necessário conhecer os seus riscos e criar culturas organizacionais que promovam confiança, diversidade e inovação.
Mas há, ainda, uma questão adicional mais inquietante: o que sucederá quando grande parte das pessoas não precisar de trabalhar para garantir a sua subsistência? Se o trabalho deixar de ser uma necessidade, como viveremos sem ele?
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Durante séculos, o trabalho foi sinónimo de identidade, status e propósito de vida. Mas num mundo onde a automação e a inteligência artificial podem vir a assumir quase todas as tarefas, surgem perguntas inquietantes tais como: como é que as pessoas ocuparão o seu tempo? Como encontrarão sentido numa vida sem obrigação produtiva? E, sobretudo, como será feito o controlo e a distribuição da riqueza?
Estas questões exigem uma reflexão profunda, pois corremos o risco de criar uma sociedade dividida entre uma elite tecnológica e uma massa desocupada, não por escolha, mas por falta de alternativas.
É, por isso, igualmente fundamental que as universidades adaptem currículos, promovam a aprendizagem ao longo da vida, estimulem a curiosidade para aprender coisas novas, desenvolvam o sentido ético e a interdisciplinaridade. A liderança quer-se mais humanizada, com capacidade de visionar o futuro num contexto cada vez mais complexo, instável e imprevisível, e preparar a organização e as suas pessoas para esse futuro.
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O desafio que temos à frente é coletivo, e envolve a academia, as empresas e a sociedade em geral. A IA não é uma ameaça para o futuro do trabalho. É uma oportunidade desde que saibamos pôr a inteligência, artificial e humana, ao serviço do bem comum.
Imaginar que proibir a IA resolve o desafio que ela coloca à academia é imaginar que podemos parar o vento com as mãos. O ISEG assume este compromisso e contribui para esta reflexão, debate e formação de líderes preparados para um mundo em constante reinvenção, capazes de integrar a tecnologia de forma ética e com um propósito para as pessoas, que promovam a construção de organizações mais humanas e sustentáveis.
É imprescindível salvaguardar o propósito humano do trabalho. A tecnologia deve servir as pessoas sem as tornar humilhantemente redundantes. Se conseguirmos unir inovação, dignidade e justiça, seremos capazes de transformar o futuro do trabalho num tempo em que cada pessoa possa, verdadeiramente, contribuir para a construção do bem comum.
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