Sócrates na frigideira
Na Alemanha, Angela Merkel acaba de perder a maioria na câmara alta do Parlamento, onde se joga o destino de legislação com relevância para a economia e as finanças do país. Depois desta notícia, a companhia com que Portugal se move, no que respeita a matéria de solidez ou fragilidade dos governos, melhorou substancialmente.
Será um consolo para quem acha que é melhor partilhar limitações com a maior potência europeia em vez de repartir defeitos apenas com um dos parceiros mais pobres da União. Mas é só isto. Porque a situação mais difícil de Merkel não adianta, nem atrasa, em relação ao impasse político que a inexistência de uma maioria na Assembleia da República representa numa conjuntura em que seria necessário um Governo com outra margem de manobra.
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Ao propor, no debate sobre o estado da Nação, uma grande coligação que integraria PS, PSD e CDS, mas que dispensaria José Sócrates, Paulo Portas colocou o dedo na ferida, conhecendo de antemão a fantasia da iniciativa. Sem eleições que redefinam e clarifiquem o jogo de forças entre os partidos que têm assumido responsabilidades de Governo, encontrar uma maioria no actual quadro parlamentar, que dê consistência a um ataque coerente e duradouro à crise, será uma tarefa para se fixar dentro das fronteiras da ficção enquanto os socialistas tiverem a actual liderança e conviverem bem, ou menos mal, com ela.
José Sócrates é um lutador, que não se importa de torcer se o fizer por iniciativa própria e desde que esse seja o caminho para não quebrar. Não perderá um minuto de sono pelo facto de em dias par fazer o que critica nos dias ímpar. Tem um rumo e uma ideia fixa que consistem, simplesmente, em segurar o poder, no Governo e no partido.
Nos bastidores podem escutar-se críticas e queixumes, mas à luz do dia não se vislumbra quem manifeste descontentamento com o percurso desnorteado do PS e do Executivo. A resignação socialista terá as suas razões e o encanto pelo poder não será a menor. Tal como haverá aqui a mão pesada do lado "feroz" de Sócrates, inspiradora do temor reverencial que mantém as críticas internas bem guardadas nos bolsos de quem tem mais amor à pele do que irreverência.
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Com esta atmosfera nas hostes socialistas, que paira entre os instalados e os que esperam a melhor oportunidade para se instalarem, as probabilidades de alguém se levantar para apontar o caminho da porta a José Sócrates são nulas. E Sócrates, pelo seu pé, não sairá. A sugestão do líder do CDS colocou em evidência o contraste entre aquilo de que Portugal precisaria e aquilo que é possível ter. Não haverá coligações, não só por causa das dúvidas da oposição sobre a capacidade de José Sócrates para partilhar o poder, mas porque, lá bem no fundo, ninguém realmente as pretende. Nem, tão pouco, alguém acredita que será possível afastar o primeiro-ministro sem eleições. Do Presidente da República à oposição, a ideia é a de que Sócrates terá que acabar de se fritar no azeite que ajudou a aquecer.
Com esta atmosfera nas hostes socialistas, que paira entre os instalados e os que esperam a melhor oportunidade para se instalarem, as probabilidades de alguém se levantar para apontar o caminho da porta a José Sócrates são nulas. E Sócrates, pelo seu pé, não sairá.
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