Dezenas de casas na Chamusca continuam sem telecomunicações três meses após tempestade

Presidente da Junta de Freguesia de Vale de Cavalos fala em falta de resposta que tem deixado idosos numa situação difícil.
Foto de arquivo dos efeitos da tempestade Kristin em Portugal
Ricardo Ponte
Lusa 14:25

Mais de 70 habitações na localidade da Caniceira, freguesia de Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca, estão sem serviços de televisão, internet e telefone desde o final de janeiro, na sequência dos estragos provocados pela tempestade Kristin.

Segundo a presidente da Junta de Freguesia de Vale de Cavalos, Joana Gonçalves, a falha nos serviços começou a 28 de janeiro, quando a tempestade derrubou árvores e provocou a queda de pelo menos seis postes de telecomunicações da operadora MEO (Altice) junto ao campo de futebol da Caniceira.

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"Foi um autêntico tornado. Até hoje ninguém veio ao local resolver o problema", afirmou a autarca.

Segundo Joana Gonçalves, os cabos permanecem suspensos na via pública, situação que já terá causado problemas quando um veículo pesado ficou enrolado nos fios, provocando danos materiais na zona envolvente.

A presidente da junta disse ainda que, apesar dos contactos realizados, não tem sido possível obter uma resposta eficaz da operadora.

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"É tudo feito através de uma plataforma. Não há ninguém com quem falar. Dizem que lá estiveram técnicos, mas isso não corresponde à verdade", salientou.

A autarca referiu ter contactado várias entidades, incluindo a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) e a DECO, mas afirmou que não obteve respostas que permitissem desbloquear a situação.

"Como presidente da junta, sinto-me impotente. A população vem ter comigo e eu não consigo dar uma resposta, porque não temos um interlocutor por parte das [empresas de] telecomunicações", afirmou.

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A situação afeta sobretudo uma população envelhecida, frisou Joana Gonçalves, sublinhando o impacto no dia-a-dia dos moradores.

"Estamos a falar de pessoas idosas, muitas delas a viver sozinhas. O telefone e a televisão são essenciais, sobretudo à noite. O impacto é muito grande", disse, acrescentando que a fraca rede móvel na zona impede a utilização de dados móveis como alternativa ao acesso à internet.

A presidente da junta indicou ainda que, apesar de os serviços não estarem a ser prestados há cerca de três meses, os utentes continuam a receber faturas na totalidade.

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"Continuam a cobrar como se o serviço estivesse a funcionar, com a justificação de que depois fazem uma nota de crédito", afirmou.

Segundo uma moradora da localidade da Caniceira, Rita Monteiro, os contactos com a operadora têm sido regulares ao longo dos cerca de três meses de falhas, mas sem resultados concretos, indicando que as respostas recebidas apontam "para a inexistência de planos de investimento na Caniceira", por se tratar de "uma zona com pouca população" e com "retorno económico reduzido".

A residente indicou que lhe foi transmitido pela operadora que a instalação de fibra ótica apenas seria equacionada caso surgisse investimento empresarial relevante na área, o que, na prática, deixa os moradores "sem perspetivas de melhoria do serviço a curto prazo".

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Apesar da interrupção prolongada, a faturação mensal mantém-se inalterada, situação que "tem gerado contestação entre os residentes".

"As faturas continuam a chegar a dia certo, com os valores por inteiro", afirmou.

Face à situação, os moradores estão a mobilizar-se para uma concentração marcada para 15 de maio, na Caniceira, para "mostrar a indignação" e lançar um abaixo-assinado para enviar ao primeiro-ministro e à ANACOM, não excluindo uma futura petição à Assembleia da República.

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"Tem de haver investimento", defendeu a moradora, sublinhando: "não queremos mais do que aquilo que o resto dos portugueses tem. Se temos de cumprir com os nossos deveres, eles também deviam cumprir com os deles".

Contactado pela Lusa, o presidente da Câmara da Chamusca considerou "inadmissível" que a população esteja há cerca de três meses sem serviços de telecomunicações, sublinhando que a autarquia tem insistido junto da operadora para a reposição da normalidade.

Nuno Mira afirmou ainda que os serviços municipais "têm insistido constantemente" junto da entidade responsável, classificando a situação como inaceitável.

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"É inadmissível as pessoas estarem há três meses sem telecomunicações", disse.

O autarca alertou para a ausência de um interlocutor direto na área das telecomunicações, ao contrário do que acontece com outras infraestruturas. "Quando é água, quando é energia ou quando é infraestruturas rodoviárias, temos sempre alguém a quem ligar", afirmou, acrescentando que "nas telecomunicações não há um interlocutor que fale connosco, que nos dê previsões ou esclarecimentos".

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