Morreu António Champalimaud (act)

Figura incontornável na história económica do século XX português, António Champalimaud era senhor de um estilo único, de raciocínio fulminante. O homem mais rico de Portugal morreu sábado vítima de uma doença prolongada.
Negócios 10 de Maio de 2004 às 08:32

 

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Um dia Luís Mira Amaral recebeu um fax no seu gabinete, que dizia mais ou menos o seguinte: «Faça-me o favor de não privatizar já a Siderurgia Nacional, porque eu ainda estou a preparar-me». Assinado: António Champalimaud.

O então ministro da Indústria e Energia recebeu aquela mensagem como uma ordem inaceitável. Não se ofendeu, porque fez a interpretação que os anos seguintes acabariam por confirmar como absolutamente correcta - aquele homem ainda se considerava dono da parte de Portugal que lhe tinha sido confiscada em 1974.

A relação de António Champalimaud com o país, com os vários governos, com os sucessivos ministros e secretários de Estado, pautou-se nestas três décadas de democracia segundo este princípio - vocês devem-me, alguém há-de pagar.

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E, assim, aquilo a que toda a gente chamava de «privatizações», para ele eram meras «devoluções». O Estado recebia um «encaixe financeiro», mas Champalimaud pagava como se tratasse de uma injustiça reincidente.

Até na hora de vender, sobretudo naquele marcante momento em que trocou por liquidez todo o grupo reconstruído, a última coisa que o velho patriarca achava que tinha de fazer, antes de apertar a mão ao senhor Emílio Botin, era dar explicações a quem quer que fosse. Autorização? Menos ainda.

A última batalha

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Mas foi na base da autoridade que o Estado, através do então ministro Sousa Franco, tentou impedir a gigantesca transferência de activos do sistema financeiro português para o exterior. Ainda para mais, Espanha...

No dia 7 de Abril do ano 2000, o Banco Santander comunicava ao mercado a aquisição do Banco Pinto & Sotto Mayor, do Banco Totta & Açores e do Crédito Predial Português. O primeiro estava já «cativado» para o BCP, numa operação intermediada pela Caixa Geral de Depósitos, que viria a ficar com a seguradora Mundial Confiança.

Era o desfecho possível de um acordo complicadíssimo. O negócio, propriamente dito, nem por isso: «foram negociações bastante rápidas», confirmou o presidente do Santander, Emílio Botín, ao Jornal de Negócios, na sua recente passagem por Portugal - «temos uma excelente relação e sempre que venho a Lisboa, encontro-me com ele».

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Botin chegou a 19 de Maio para conversar com Champalimaud e, a 7 de Junho, o negócio fica fechado, conta Filipe Fernandes no seu recente livro "Fortunas & Negócios": «o acordo está feito depois de cinco dias passados no Hotel Ritz, em que se reuniram os dois estados-maiores».

O pior vinha depois. Sousa Franco já estava desconfiado - sabia que algo se passava «através de contactos informais de Champalimaud junto de elementos do Executivo» - e tinha decidido travar a operação a qualquer custo: impugnação política, fiscalizações e devassas ao Grupo, pressão junto das entidades de supervisão.

O facto é que, já com outro ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, uma base de entendimento teve de ser encontrada.

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António Champalimaud saía da banca por mais de 300 milhões de contos, ficava como accionista de referência do maior banco espanhol e deixava para trás um rasto de angústia nacional que até hoje subsiste. Era também a última batalha do guerreiro.

Deixava fortuna, a maior do país, como a revista Forbes voltou a classificar, estimando-a em 2,5 mil milhões de euros. Deixava herdeiros. Deixava uma longa história. Mas o império que construiu, de certa forma, morre com ele.

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