Seguro: "Precisamos de soluções duradouras e de capacidade para as aplicar"
O Presidente da República quer os partidos políticos a encontrarem "entendimentos e compromissos interpartidários" que consigam "resistir aos ciclos eleitorais". A estabilidade, relembra, só tem "verdadeiro valor quando se transforma em resultados".
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O Presidente da República quer uma "nova cultura política" em Portugal, baseada em entendimentos políticos. Nas celebrações da Implementação da República, realizadas esta segunda-feira, António José Seguro exortou os partidos políticos a encontrarem "soluções duradouras e capacidade para as aplicar", numa base em que os "entendimentos e compromissos interpartidários" consigam "resistir aos ciclos eleitorais".
"Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal", afirmou o Chefe de Estado naquele que é o seu primeiro discurso nas cerimónias do 5 de Outubro.
"Agir sobre o curto prazo com uma ideia de futuro para Portugal obriga a políticas públicas que se apliquem em várias legislaturas. Não podemos estar sempre a voltar ao início, só porque se mudou uma legislatura", referiu o Presidente da República, apelando a um sentido de "urgência" para responder aos problemas caudas por um "mundo em profundas e aceleradas mudanças".
António José Seguro frisou também que "as democracias têm de aprender a construir estabilidade em tempos de fragmentação", lembrando ainda que a estabilidade não pode ser "um fim em si mesmo".
"A estabilidade política vale pelo que permite fazer. Vale porque permite governar, decidir, investir e reformar". "Vale porque permite dar respostas aos problemas concretos das pessoas", esclareceu, adicionando que esta só tem "verdadeiro valor quando se transforme em resultados", detalhou.
O Presidente da República vai mais longe e exorta os partidos políticos a "erradicarem as causas dos problemas e não apenas tratar os seus sintomas". "Estas mudanças não produzem resultados instantâneos, mas geram resultados sólidos e duradouros com benefícios futuros", acrescenta, recordando que isto só pode ser alcançando se o país abandonar "uma cultura de trincheiras".
"Este é o tempo da política, não é o tempo da tecnocracia. Em tempos adversos precisamos mais da política, acompanhada de ousadia, de ambição e de coragem", defendeu, de forma a que Portugal consiga "vencer a inércia" e "enfrentar bloqueios". E isso só é possível se os partidos abandonarem "o eterno passa culpas" e o substituírem "por atitudes responsáveis perante as dificuldades que enfrentamos", vincou Seguro.
Neste sentido, o Chefe de Estado saúdou "o Governo e o Partido Socialista pelo caminho de aproximação que têm vindo a fazer tendo em vista a aprovação do Orçamento do Estado para o próximo ano". Mas, apesar de o documento passar só com a abstenção do PS, o Presidente da República apelou também a que os "outros partidos se possam juntar a este caminho de compromisso e de convergência - neste e noutros processos legislativos".
"Digo-vos, convictamente, que acredito que os portugueses apreciam e recompensam os partidos e os atores políticos que acordam em soluções para melhorar a vida concreta das pessoas", rematou.
Crise energética exige "resposta europeia coordenada"
Numa altura em que "o custo de vida sobe a um ritmo que os salários e as pensões não estão a acompanhar" e em que "há cada vez mais famílias a terem dificuldades para chegarem ao final do mês", Seguro defende que a solução "não pode ser enfrentada apenas com respostas nacionais". O Chefe de Estado, descolou dessa forma do discurso das oposições políticas, que têm pressionado o Executivo a anunciar medidas na área dos combustíveis ou do cabaz alimentar.
Para Seguro, o agravamento do custo de vida desencadeado pelo conflito no Médio Oriente. "não se resolve país a país". "Exige uma resposta europeia coordenada que proteja as pessoas, a economia e reduza estruturalmente a dependência externa de energia", defendeu o Presidente, repetindo uma ideia já deixada pela ministra da Energia, Ambiente e Ação Climática.
Recados para Luís Neves e Chega
António José Seguro aproveitou ainda o momento para deixar alguns recados ao Executivo de Luís Montenegro, com especial incidência no ministro da Administração Interna, Luís Neves. Sem referir casos concretos, o Chefe de Estado afirmou que "quando o Estado pede aos cidadãos confiança, tem de ser o primeiro a entregar-lhes essa confiança - e, em demasiadas situações, isso não está a acontecer". Isto numa altura em que a Polícia Judiciária e o mandato de Luís Neves como diretor daquela instituição têm estado sob particular escrutínio.
Para o Presidente da República, os "exemplos abundam" e vão desde "decisões administrativas tardias" e "licenciamentos que levam tempos infinitos", até "apoios que tardam" e "processos judiciais que se eternizam". "Daí decorre que um dos perigos que ameaça a República é a erosão da confiança na integridade e eficácia das instituições", acrescenta ainda.
Este é, aliás, um dos ingredientes que Seguro refere no combate às "ameaças do extremismo", numa farpa ao Chega. "Resolver os problemas das pessoas é também a melhor cura para as ameaças dos extremismos e para as maleitas dos regimes democráticos, naturalmente acompanhada por comportamentos éticos dos seus responsáveis e escuta das pessoas, designadamente, as mais vulneráveis, cuja voz não tem tanta projeção nacional", remata.
(Notícia atualizada às 12h19 com mais declarações do Presidente da República)