"Temos de ter a cabeça fria" na resposta à guerra do Irão, diz Álvaro Santos Pereira
Governador do BdP, que terá direito de voto na próxima reunião do Banco Central Europeu, diz que é preciso "esperar para ver" para onde vai o conflito no Médio Oriente antes de decidir subir as taxas de juro. Impacto na atividade não é, para já, dramático.
O governador do Banco de Portugal (BdP) defende que é preciso ter "cabeça fria" na avaliação da resposta da política monetária à subida da inflação esperada com a guerra do Irão, insistindo que, ainda assim, o Banco Central Europeu (BCE) está preparado para reagir.
Questionado sobre se as taxas de juro devem subir na próxima reunião do conselho de governadores do BCE, marcada para 30 de abril, Álvaro Santos Pereira recusou especular sobre isso. "Vai depender de como o conflito evoluir e de como os preços vão evoluir. Temos de manter a cabeça fria, aprender as lições do passado, ver o que se passou noutras circunstâncias", enumerou.
O governador apresentou nesta quarta-feira, 25 de março, o Boletim Económico, com os economistas do banco central a cortarem a sua estimativa de crescimento da economia portuguesa para 1,8% este ano e a agravarem a expectativa para a subida de preços para 2,8% devido ao choque energético desencadeado pela guerra no Irão.
"Estamos numa situação melhor do que a de 2022, onde a inflação da Zona Euro já rondava os 5%, pela saída da pandemia e havia bastantes constrangimentos a nível da oferta, nas cadeias de valor e numa procura que era bastante significativa, pelo aumento do rendimento. Neste momento, a inflação está nos 2%", recordou.
Por outro lado, o impacto no choque nos bens energéticos é "muito menor do que em 2022", realçou. Mas insistiu: "tudo depende do que vai acontecer e de como o conflito vai evoluir".
"Nós estamos preparados. Estamos a olhar para os dados, ver a evolução nos produtos energéticos, alimentares e dos produtos críticos para alguns setores, como o hélio e outros materiais. Estamos a ver como as coisas evoluem e certamente que no BCE haverá a discussão a ver o que se faz. Mas estamos preparados para reagir a qualquer eventualidade", disse Álvaro Santos Pereira, lembrando também as declarações da presidente do BCE na semana passada.
O governador do BdP, que terá direito de voto na próxima reunião do BCE de abril, considerou que os indicadores que mostram que a atividade empresarial da Zona Euro está muito perto da estagnação "não mostram nada de dramático", afastando para já anunciar a sua posição em Frankfurt num cenário de estagflação (ou seja, de baixo crescimento e inflação alta).
"Tudo depende do que vai acontecer, é prematuro especular. A ação vai depender do que vai acontecer. É preciso manter a cabeça fria, ver o que foi feito no passado, onde errámos e acertamos, o que os dados mostram - e depois decidimos", insistiu.
Recorde-se que alguns governadores do BCE admitem uma subida das taxas de juro já em abril, os mercados continuam a antecipar duas subidas este ano, apontando sobretudo para o verão, para impedir que a inflação dispare à boleia da guerra no Irão.