Ano de Costa: Conselho Europeu entre guerra tarifária dos EUA e exclusão da solução ucraniana
A possível exclusão da União Europeia (UE) de uma solução para o conflito na Ucrânia e as réplicas da guerra tarifária desencadeada por Washington preencheram as atenções de António Costa no primeiro ano enquanto presidente do Conselho Europeu.
O socialista António Costa, ex-primeiro-ministro de Portugal, cumpre na próxima segunda-feira, 01 de dezembro, o primeiro ano de pelo menos dois anos e meio enquanto Presidente do Conselho Europeu.
António Costa iniciou o mandato há praticamente um ano com uma visita à Ucrânia, para assinalar que a sua presidência ia estar de olhos postos no conflito que lavra há quase quatro anos.
Em simultâneo, António Costa delineou uma prioridade: incentivar os 27 países do bloco comunitário europeu a avançarem no processo de alargamento, não só à Ucrânia, mas também a países como o Montenegro e a Albânia.
Presidente da principal mesa de negociações da UE, António Costa decidiu inovar e em fevereiro deste ano organizou um encontro informal com os presidentes e primeiros-ministros que compõem o Conselho Europeu para discutir a prioridade que a Comissão Europeia de Ursula von der Leyen, que também iniciou funções em 01 de dezembro de 2024: o reforço da indústria de defesa na União Europeia.
Mas pouco mais de um mês desde António Costa iniciou funções, o início do mandato do Donald Trump na Casa Branca apresentou uma variável incerta ao multilateralismo e à ordem geopolítica internacional vigente.
O apoio inabalável dos Estados Unidos da América (EUA) à Ucrânia estremeceu pela proximidade que Donald Trump tem ao homólogo russo, Vladimir Putin, e o primeiro encontro de Volodymyr Zelensky com o Presidente republicano em Washington não correu bem.
Face à incerteza que veio a partir da Casa Branca, a União Europeia viu-se obrigado a falar mais alto e a uma voz, pelo menos ao nível das instituições que representam o bloco.
Por isso, António Costa e Ursula von der Leyen alinharam declarações públicas pedindo mais apoio para a Ucrânia e a necessidade de criar um mecanismo que providenciasse dinheiro suficiente para alimentar a máquina de defesa ucraniana, enquanto a UE tentava apressar décadas de desinvestimento na sua segurança e cortar com a dependência que tinha dos EUA.
As ameaças que Trump fez à Aliança Atlântica também ecoaram na UE, uma vez que 23 dos 27 Estados-membros da União Europeia também são Estados-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Passados mais de três anos desde o início da invasão russa, o bloco ocidental estremeceu quando Donald Trump se encontrou com Putin no Alasca para esboçar um acordo de paz, em 15 de agosto, sem a participação da Ucrânia e da UE.
No início do ano, dos EUA veio também a ameaça de um braço de ferro comercial que concretizou em abril com a imposição de tarifas às exportações da UE.
Na altura, António Costa escreveu nas redes sociais que perante esta decisão dos EUA, a União Europeia devia avançar para estreitar laços com outros parceiros, nomeadamente, o México, os países do Mercosul e a Índia.
Durante uma reunião das principais sete economias ocidentais (G7), António Costa ofereceu uma camisola assinada pelo futebolista Cristiano Ronaldo a Donald Trump e recorreu novamente às redes sociais para alertar o Presidente dos EUA que era preciso "jogar pela paz" e fazê-lo "em equipa".
Com o avançar do ano, António Costa também precisou de fazer a mediação sobre uma questão sensível para a UE: a condenação de Israel pela invasão ao enclave palestiniano da Faixa de Gaza, uma vez que países como a Alemanha têm laços históricos com Israel, mas o que inicialmente foi considerado uma necessidade de autodefesa rapidamente foi intitulado de ação desproporcionada por parte de Telavive.
Washington mediou um cessar-fogo que colocou um fim parcial a mais de dois anos de invasão israelita e dezenas de milhares de civis palestinianos mortos.
A Casa Branca voltou-se, então, para a Ucrânia e há duas semanas apresentou um plano de paz com 28 pontos, que propunham que a Ucrânia perdesse território e capacidade militar, e que excluíram novamente a UE.
Foi António Costa que revelou que ninguém na UE recebeu uma comunicação sobre o plano dos EUA para o fim da guerra no território ucraniano.
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