O que as PME podem ganhar em Angola

Muitas empresas estão atentas ao mercado angolano para aproveitarem oportunidades de crescimento. Aníbal Barbosa, Manuel dos Santos e João Medina contam as suas histórias. Saiba como é que cada PME pode deixar a sua marca em solo africano.
Ana Pimentel 16 de Junho de 2011 às 10:03

Em 1992, Aníbal Barbosa desembarcava em Angola. Na bagagem, levava a Auto Sueco para representar a marca Volvo em território angolano. Cerca de 20 anos depois, a empresa cresceu, diversificou os negócios e está a investir noutros mercados. É por isso que não hesita em recomendar Luanda como próximo destino das PME portuguesas. Basta pôr "o pé na estrada".

Actualmente, vivem em Angola cerca de 200 mil portugueses. O país é dominado pelo petróleo, que representa perto de 60% do produto interno bruto e 98% das exportações, segundo o dossiê de mercado publicado pela AICEP, em Julho de 2010. Mesmo no período em que quase todos os sectores da economia foram afectados pela guerra e instabilidade económica, o "boom" petrolífero prosseguiu.

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O sector dos diamantes, segundo mais importante, teve um declínio da sua produção a partir de 2005. Com a recuperação económica, hoje pode ser considerada uma das áreas mais promissoras para a prosperidade da pedra preciosa. Um dos objectivos do governo tem sido a recuperação dos restantes sectores da economia.

Para João Medina, da SPI - Sociedade Portuguesa de Inovação, a estabilidade política e social é a principal causa do crescimento da economia. De 2005 a 2009, a economia angolana foi crescendo com valores superiores a dois dígitos. "Era frequentemente apontada como 'a economia que mais cresceu em todo o mundo'." Contudo, 58% do PIB de Angola em 2008 deve-se única e exclusivamente ao petróleo. Em 2010, com a redução do preço no mercado internacional e da redução da sua produção, por causa da entrada na OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a renda do sector sofreu um "forte recuo".

"Com as expectativas de aumento do preço do petróleo e o aproximar de um período eleitoral [em 2012], existem fortes perspectivas que o ritmo de crescimento económico volte a crescer significativamente." O programa de Habitação Social, que envolve a construção de um milhão de casas, traz mais oportunidades, sobretudo para a banca, indústrias da construção civil e materiais de construção. Segundo a AICEP, a guerra civil destruiu ou danificou cerca de 98% das pontes, 80% das fábricas, 60% dos hospitais, 80% das escolas e todas as estradas principais do país.

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Bons parceiros

Para o especialista da SPI, Angola é um pivô muito importante na estratégia de diversificação das exportações portuguesas. Só em 2009, foi o quarto maior mercado, sendo o primeiro não comunitário e ultrapassando os Estados Unidos da América.

No "período pré-crise", assistiu-se a um aumento das empresas portuguesas que queriam investir em Angola. Segundo João Medina, passou de 40 milhões de euros em 2003 para 588 milhões de euros em 2008, o que corresponde a 234 projectos de investimento portugueses aprovados.

Os sectores com maior investimento foram o financeiro, a construção, o mobiliário e as indústrias transformadoras. Mas as companhias também têm procurado investir na área da alimentação e bebidas, logística e redes de distribuição, consultoria, tecnologias de informação, educação e formação, saúde e farmacêutica. "Concentrando mais de um terço da população, Luanda tem vindo a ser o alvo privilegiado."

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"Angola tem vindo a representar um parceiro cada vez mais importante nas relações económicas de Portugal com o exterior", lê-se no "Dossier de Mercado". Actualmente, as principais áreas de oportunidade de negócio são as actividades relacionadas com infra-estruturas, tecnologias de informação e comunicações, consultoria, indústria, serviços, saúde, materiais de construção, artigos para a casa, alimentar e bebidas, entre outras. Em relação aos restantes "players" do mercado, Portugal dispõem de algumas vantagens, como as marcas tradicionalmente conhecidas e a ligação entre os países.

"Angola é um país de oportunidades, mas não pode ser encarado como tábua de salvação para empresas que estejam numa situação difícil em Portugal, até porque as dificuldades logísticas, a burocracia, os eventuais atrasos nos pagamentos e as exigências de tesouraria nos negócios locais dificultam, ainda mais, a vida das empresas que já têm problemas", lê-se no relatório.

Entrar em Angola

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Os conselhos de João Medina dicas para uma internacionalização de sucesso.

1. Visão de longo prazo

"Não se vai a Angola. Está-se em Angola". É importante dispor de uma base sólida e capacidade financeira para aguentar um longo período sem retorno. Sobretudo, tendo em conta os elevados custos associados à presença neste mercado.

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2. Parcerias sólidas

A estrutura institucional angolana é complexa e algo disfuncional. Importa criar fortes relações de confiança com parceiros locais, criando parcerias sólidas que apoiem no desenvolvimento.

3. Investir nos recursos humanos

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Atendendo às insuficiências do sistema de ensino, é imprescindível realizar acções de formação internas. O facto de ambos os países partilharem a mesma língua é uma vantagens para os intercâmbios empresariais, por exemplo.

4. Banca angolana

O sistema financeiro angolano está ligado a bancos portugueses. Recorrer-lhes pode agilizar a interacção de capitais. Angola dispõe de estruturas do tipo "One stop shop" de desburocratização e apoio ao investimento estrangeiro.

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5. Empresas flexíveis

As organizações têm de se adaptar e responder rapidamente em situações que não dominam. "Refira-se que, nestes casos, a tradicional capacidade de 'desenrascanço' dos portugueses traz algumas vantagens."

Três perguntas a Manuel Aguiar

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"Angola tem um horizonte de enorme crescimento"

Manuel Aguiar é professor de Política de Empresa no Programa de Alta Direcção de Empresas (PADE), da AESE - Escola de Direcção e Negócios.

Como encara as parcerias entre o mercado português e angolano?

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As parcerias são importantes e mutuamente benéficas. São benéficas para Angola porque, considerando os inúmeros desafios do processo de desenvolvimento e diversificação da actividade económica, as parcerias que tragam "know how" e recursos relevantes são importantes para dinamizar e acelerar este processo. São benéficas para Portugal porque Angola tem um horizonte de enorme crescimento. Há possibilidades de crescimento muito grandes, nomeadamente a nível das pequenas e médias empresas (PME).

O que deve ser feito para aumentar o "network" entre os mercados?

É importante que as PME portuguesas estruturem relações com as PME angolanas. É fundamental que os projectos que as organizações portuguesas decidam realizar sejam bem estruturados, com os recursos adequados e com um horizonte de médio longo prazo.

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O que é que Angola tem para oferecer às PME portuguesas?

As relações entre Portugal e Angola são naturais, de países que se conhecem bem, partilham a mesma língua e têm uma história comum. Essa é uma enorme vantagem, porque permite relações de confiança. Naturalmente, tem que ser capitalizada com projectos que respondam às necessidades e prioridades do processo de desenvolvimento angolano. Podemos considerar que, em todos os sectores de actividade onde empresas portuguesas tenham "know how" relevante e recursos, há possibilidade de desenvolver projectos.

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