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Unidade de tratamento do jogo recebeu 50 utentes e caso com dívida de três milhões

Um jogador que acumulou três milhões em dívidas está entre os casos mais graves acompanhados pela Unidade de Intervenção no Jogo de Lisboa, que recebeu meia centena de utentes nos primeiros três meses de funcionamento.

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casinos, jogo João Miguel Rodrigues
04 de Outubro de 2026 às 08:54
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Os dados foram revelados pela presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), Joana Teixeira, em entrevista à Lusa, a propósito da abertura, em junho, da primeira unidade pública do país dedicada ao tratamento da perturbação do jogo a dinheiro.

Joana Teixeira contou que a "primeira preocupação" quando assumiu a presidência do ICAD, em 01 de janeiro de 2026, foi perceber quais as questões prioritárias que necessitavam de resposta e que o jogo "saltou realmente à vista", devido ao aumento acentuado da procura de tratamento para esta dependência.

Dados do ICAD mostram esta realidade: Em 2023, o instituto tinha 358 utentes a procurar tratamento por esta perturbação, número que subiu para 782 em 2025, um aumento de 118%.

"O aumento muito elevado da procura de tratamento para problemas relacionados com o jogo está a ser uma realidade muito marcada no ICAD e tínhamos ainda uma lacuna do ponto de vista de intervenção terapêutica que tivemos que resolver" com a criação desta unidade, salientou a psiquiatra.

Nos primeiros três meses de funcionamento, a unidade recebeu 50 pessoas, uma procura que surpreendeu o próprio instituto por ter ocorrido durante os meses de férias.

Dos 50 utentes, apenas seis são mulheres, com uma média etária mais elevada do que os homens. Entre os homens, a maioria tem menos de 40 anos e, destes, metade tem até 25 anos, disse, considerando "muito significativo" o número de jovens a procurar tratamento.

O ICAD está a tentar perceber as razões desta diferença na procura de tratamento. A doença é mais prevalente nos homens, mas o estigma ou outros fatores podem dificultar a procura de tratamento pelas mulheres, reconheceu.

Adiantou que os homens entre os 30 e os 40 anos são os que apresentam as situações mais problemáticas. Entre os casos acompanhados está o de uma pessoa que acumulou três milhões de euros de dívida, revelou.

"São situações muito graves a que temos de dar resposta e intervir. E estes serviços especializados permitem-nos fazer uma abordagem direcionada para os casos mais graves e que precisam de uma intervenção multidisciplinar mais intensiva do que a que existe disponível noutras unidades", salientou.

Os casos de maior gravidade financeira são encaminhados para o contabilista da equipa multidisciplinar, composta ainda por psiquiatras, psicólogos e uma assistente social, que avalia a situação e procura soluções, nomeadamente através de reestruturações de dívida.

Joana Teixeira alertou ainda que as dificuldades financeiras podem contribuir para recaídas, através da tentativa de recuperar no jogo o dinheiro perdido, criando um ciclo difícil de interromper.

Dos 50 utentes, 12 recorreram por iniciativa própria à unidade e os restantes foram referenciados por familiares, centros de tratamento do ICAD ou médicos de família.

No momento da entrevista, havia três utentes em lista de espera e o tempo médio para a primeira avaliação era de cinco dias, o que a psiquiatra considerou "um tempo muito bom".

A maioria dos utentes da unidade, que funciona em regime de ambulatório, é da região de Lisboa, mas também há pessoas de Aveiro, Castelo Branco, Guarda, Leiria, Porto, Santarém e Setúbal.

Os dados nacionais disponíveis apontam para uma prevalência estimada de dependência de jogo de 0,6% da população, enquanto no jogo problemático sobe para 1,1%.

Segundo a responsável, a utilização dos meios 'online' para jogar aumentou depois da pandemia, num contexto em que as plataformas estão disponíveis 24 horas por dia.

A intervenção atualmente disponibilizada pela unidade de Lisboa destina-se ao jogo a dinheiro. O programa de intervenção na utilização problemática de videojogos, dirigido a partir dos 12 anos, funciona atualmente no Porto.

O ICAD pretende abrir também em Lisboa um programa para a utilização problemática de videojogos e levar a intervenção especializada para o jogo a dinheiro para o Norte do país, disse, referindo que estão já a ser desenvolvidos trabalhos nesse sentido.

Questionada sobre a exposição à publicidade ao jogo, incluindo na televisão e nas redes sociais, defendeu que a questão deve ser analisada numa perspetiva interministerial.

A responsável defendeu também a necessidade de combater o jogo ilegal.

"Temos que atuar nestas duas frentes", afirmou, defendendo que é preciso desenvolver uma resposta eficaz para a problemática.

Dados não confirmam perceção do aumento da toxicodependência

O aumento dos consumos problemáticos de droga torna mais visível a toxicodependência e cria a sensação de que há mais pessoas a consumir, mas os últimos dados nacionais não apontam nesse sentido, segundo o instituto das dependências.

A presidente do ICAD afirmou que "os consumos que existem são cada vez mais graves, mas não há um aumento de prevalência de consumo, pelo menos nos últimos dados nacionais".

Sublinhou que a maior gravidade dos casos também torna as situações mais visíveis e pode criar a perceção de um aumento dos problemas de consumo e de toxicodependência.

A presidente do ICAD explicou que o perfil dos consumos também se alterou, com a diminuição do peso da heroína e o aumento do consumo de cocaína e do 'crack'.

"Antigamente, haveria um aumento de consumo de heroína, sobretudo endovenosa. Atualmente, assistimos a um aumento de consumo de cocaína e, sobretudo, de 'crack'", que é "mais acessível", "mais barato" e com "um potencial aditivo muito grande".

"É muito desorganizador para a pessoa e tornam-se muito visíveis as consequências negativas associadas ao seu consumo", salientou.

As novas substâncias psicoativas são outra preocupação do ICAD, sobretudo pelo consumo entre os jovens e pela dificuldade em conhecer antecipadamente os seus efeitos.

O último Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, com dados de 2022, não permite estabelecer uma tendência para estas substâncias, uma vez que a percentagem de consumidores é residual nas diferentes faixas etárias.

Entre os jovens de 18 anos que participaram no Dia da Defesa Nacional em 2025, a prevalência de consumo recente de novas substâncias psicoativas foi, contudo, de 2,3%, próxima dos valores registados para a cocaína, de 2,4%, e para os alucinogénios, de 2,3%.

Joana Teixeira alertou para os riscos destas substâncias, muitas vezes adquiridas através da internet, e para as consequências que podem ter na saúde mental, incluindo surtos psicóticos.

Questionada sobre casos concretos de jovens que tenham chegado aos hospitais com surtos psicóticos associados a estes consumos, disse que o ICAD não dispõe dessa informação, mas afirmou que essas situações ocorrem na prática clínica.

O ICAD está também a acompanhar a relação entre os consumos e as comorbilidades psiquiátricas, uma das áreas que considera prioritárias.

Questionada sobre as declarações recentes do comandante do comando metropolitano de Lisboa da PSP, Luís Elias, que pediu mais investimento no apoio aos toxicodependentes e disse que o combate ao tráfico e consumo de droga "não é só da polícia", mas também da saúde e segurança social, Joana Teixeira respondeu que esta resposta passa por uma maior articulação entre instituições.

Sustentou que existe "uma necessidade de trabalho em conjunto entre as várias instituições" e revelou que, no dia 25 de setembro, o conselho diretivo do ICAD se reuniu com o comandante da PSP e representantes das divisões de polícia das áreas mais problemáticas de Lisboa e da Amadora.

"Temos de envolver os vários parceiros e vai ser desta ação concertada entre as várias instituições que nós vamos conseguir realmente dar uma resposta de intervenção capaz nesta problemática", afirmou.

O trabalho deverá ser alargado aos municípios e também à Segurança Social, para procurar respostas conjuntas para os casos de maior gravidade.

Também questionada sobre uma eventual falta de profissionais nas equipas de rua, Joana Teixeira disse não ter recebido dados que lhe permitissem corroborar a informação, e afirmou que os projetos financiados pelo ICAD e pelos municípios estão implementados e a funcionar normalmente.

Admitiu, contudo, que existem dificuldades de recursos humanos noutras respostas do instituto, afirmando que os recursos disponíveis para esta área "estão neste momento a escassear" e que há dificuldades em ter profissionais em número suficiente.

Anunciou ainda que o ICAD está a realizar um diagnóstico nacional para identificar as zonas de maior fragilidade e as que necessitam de maior intervenção, cujos resultados deverão estar disponíveis até ao final do ano.

Segundo Joana Teixeira, esse diagnóstico deverá permitir compreender melhor eventuais diferenças nos padrões de consumo associadas à evolução demográfica e à imigração.

Joana Teixeira destacou, por outro lado, a evolução positiva de vários indicadores de consumo em Portugal e afirmou que o país está "muito bem posicionado" no contexto europeu relativamente ao consumo de substâncias ilícitas.

Dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal mas só 20% estão em tratamento

A dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal na última década, mas apenas 20% dos doentes estão em tratamento, alertou hoje o instituto para as dependências, reconhecendo que o país não tem conseguido travar o problema.

A presidente do ICAD defendeu a necessidade de reforçar a prevenção, a deteção precoce e o acesso ao tratamento.

Joana Teixeira salientou que Portugal é dos países com maior prevalência de consumo de bebidas alcoólicas e tem uma taxa de dependência de álcool muito elevada, defendendo que os serviços de alcoologia têm de ser capazes de dar resposta a estas situações.

"Aquilo que me parece, nos últimos anos, é que não temos conseguido implementar as medidas necessárias para controlar a prevalência de consumos, por um lado, e por outro lado para tratar os doentes, porque quadruplicou a taxa de prevalência de dependência de álcool nos últimos 10 anos. Isso é grave. É muito grave", frisou.

Para Joana Teixeira, uma das principais preocupações prende-se com o facto de existir uma diferença significativa entre o número de pessoas com problemas relacionados com o álcool e aquelas que chegam aos serviços de tratamento.

Em média, só 20% dos doentes estão nas unidades de tratamento, elucidou a presidente do ICAD, que assumiu funções dia 01 de janeiro de 2026, substituindo no cargo o médico João Goulão.

Perante o aumento da problemática de consumos de álcool e da procura dos serviços para tratamento das perturbações do uso do álcool comparativamente às outras substâncias, a primeira prioridade do ICAD foi reforçar a capacidade de resposta das unidades de alcoologia.

O ICAD prevê também aumentar a deteção precoce dos casos e o encaminhamento das pessoas identificadas para estruturas de tratamento, quer do ICAD, quer de outras instituições.

O objetivo é garantir que as pessoas que necessitam de intervenção tenham acesso ao acompanhamento adequado, uma vez que muitos dos casos identificados continuam sem tratamento, explicou.

Para isso, as unidades de alcoologia estão a ser reestruturadas, com novos programas de intervenção terapêutica, alguns mais flexíveis e outros mais estruturados, numa tentativa de adaptar o tratamento às necessidades de cada doente.

"Em vez de ser um tratamento padrão igual para todos, a nossa prioridade foi realmente ter um programa de tratamento eficaz, com eficácia clínica comprovada e suficientemente flexível e adaptável às necessidades de cada doente", disse Joana Teixeira, explicando que esta medida "melhora muito a qualidade de intervenção das unidades de alcoologia".

A presidente do ICAD defendeu também uma maior integração dos cuidados e articulação com outras instituições, nomeadamente com as Unidades Locais de Saúde (ULS).

Notou, por outro lado, que continua a existir falta de consciencialização de que a dependência do álcool é uma doença que, depois de detetada e diagnosticada, necessita de tratamento adequado.

Entre os jovens, uma das preocupações do ICAD é o consumo episódico excessivo de álcool, conhecido como 'binge drinking', que está muitas vezes associado a mal-estar psicológico e emocional.

Os dados mais recentes mostram uma diminuição de vários indicadores de consumo de álcool entre os jovens, embora persistam sinais de preocupação relacionados com episódios de embriaguez e problemas associados ao consumo.

Joana Teixeira defendeu que quanto mais tarde se iniciar o consumo de álcool, melhor, devido aos efeitos do álcool no desenvolvimento cerebral.

"O álcool, como é neurotóxico, vai acabar por influenciar a capacidade de maturação neuronal e cognitiva", afirmou, acrescentando que, enquanto o cérebro não estiver completamente formado, "qualquer ingestão de álcool é particularmente grave no desenvolvimento do cérebro".

O ICAD mantém programas de prevenção para jovens e pretende envolver também escolas, famílias e outras entidades na promoção da saúde, considerando que a resposta aos problemas relacionados com o álcool e com outras dependências não pode ficar limitada aos serviços de saúde.

O instituto está também a apostar na literacia sobre comportamentos aditivos, incluindo junto dos profissionais de saúde, para aumentar a capacidade de deteção precoce.

Joana Teixeira considera que ainda existe pouca consciência de que os comportamentos aditivos abrangem não apenas as substâncias ilícitas, mas também o álcool, o jogo, os videojogos e a utilização problemática da internet.

 

 

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