O efeito borboleta

Antecipando as temáticas que serão discutidas em Janeiro, na habitual reunião de líderes mundiais em Davos, o Fórum Económico Mundial lançou, no início da semana, o Outlook on the Global Agenda 2014, que elege os 10 principais desafios globais para o ano que se avizinha.
Helena Oliveira - Portal VER 29 de Novembro de 2013 às 13:34

O VER escreve sobre estas 10 tendências que alertam, acima de tudo, que neste mundo profundamente globalizado, o “bater da asa de uma borboleta” num extremo do globo terrestre pode, realmente, provocar uma tormenta. Mas não necessariamente no extremo oposto 

 

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Com o contributo de cerca de 1600 especialistas que compõem a Network of Global Agenda Councils (NGAC), uma comunidade global de mais de 80 “conselhos” que representam “líderes do pensamento” de todo o mundo e a partir de uma nova e selectiva ferramenta de inquéritos, o relatório do FEM apresenta as 10 tendências globais - que podem ser igualmente traduzidas como riscos ou desafios - que mais impacto terão no novo ano que se aproxima.

De acordo com Klaus Schwab, fundador e presidente do FEM, ao se antecipar tendências, em conjunto com os impactos que infligirão nas suas áreas correspondentes, torna-se mais fácil abordar as respostas possíveis para a sua minimização, um trabalho que foi igualmente realizado pelo FEM, ao pedir à extensa rede de peritos – académicos, líderes empresariais e políticos, especialistas do sector não lucrativo, da tecnologia, saúde, agricultura, finanças ou desenvolvimento – para que divisassem algumas respostas aos principais desafios eleitos.

Adicionalmente, o novo estudo do FEM alerta ainda para os principais desafios regionais, entre os quais se destaca a cruzada para de reconciliar o crescimento com o desenvolvimento sustentável. A desigualdade, o desemprego e a corrupção espreitam em todos os cantos do planeta, sendo urgente divisar respostas para os mesmos de acordo com os contextos regionais específicos.

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De sublinhar igualmente, como o fez Drew Gilpin Faust, presidente da Universidade de Harvard e que assina o prefácio do relatório que, de ano para ano, o grau de acordo com o qual todos estes desafios se encontram interligados é cada vez maior. Sim, sabemos de cor a frase de que vivemos num mundo globalizado, mas são várias as ocasiões em que não vislumbramos ligações menos aparentes entre as grandes questões mundiais. Mas elas existem e cada vez mais. Um dos exemplos desta crescente interdependência focado por Drew Faust reside no facto de já não existirem grandes dúvidas que as alterações climáticas marcarão a agenda de 2014 (e dos anos vindouros) ou que a situação no Médio Oriente se continue a deteriorar. Não é preciso ter uma bola de cristal para o prever. Contudo, são poucos os que notaram que um dos factores que exacerbou a situação na Síria foi uma enorme seca que resultou dos padrões climáticos em profunda mudança. Ou, como alerta a presidente de Harvard, que a expansão das mega-cidades - uma outra tendência do top 10 – está a ser igualmente influenciada pelo aumento dos níveis do mar e outras mudanças climáticas. Ou ainda a questão da dependência energética e o impacto que a exploração de gás natural nos Estados Unidos poderá vir a ter nas políticas do Médio Oriente. A velha teoria do caos que é ilustrada pela história do bater de asas de uma borboleta parece fazer cada vez mais sentido no mundo cada vez mais pequeno e frágil em que vivemos.

 

O VER apresenta as 10 tendências em causa.

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1. Aumento das tensões sociais no Médio Oriente e no norte de África

Há apenas dois anos, a trajectória para os países que celebravam a Primavera Árabe parecia certa. O mundo assumia que as transições no Egipto, na Tunísia e na Líbia acabariam por estimular o (re)nascimento de sociedades mais pluralistas, que a democracia seria institucionalizada e que a prosperidade económica seria, mais cedo ou mais tarde, alcançada. A estrada apresentava-se ainda com alguns “buracos”, mas o caminho estava traçado. Ou assim se acreditava. Todavia, e com o crescimento da instabilidade política, muitos foram aqueles que começaram a questionar estes pressupostos e tanto as previsões regionais como as que servem para as trajectórias dos países em causa estão a deitar por terra esta esperança. A incerteza é cada vez mais acentuada, tal como acontece com a polarização social. E os peritos que fizeram parte do painel de avaliação dos maiores riscos para 2014 concordam que o aumento de tensões no Médio Oriente e no norte de África será o maior desafio a enfrentar globalmente no próximo ano.

Todavia e como é declarado no estudo, os dados recolhidos pelos inquéritos realizados pela rede de especialistas e pela rede de “conselhos” do FEM, permitem igualmente “sentir o pulso” das pessoas que habitam na região, sendo que existem algumas alterações significativas a considerar. Se, no passado, o mundo árabe divergia essencialmente em termos económicos, nesta era “pós-Primavera”, destacam-se outros contextos. Actualmente, 45% dos respondentes afirmam que o maior desafio que enfrentam é a instabilidade política, com apenas 27% a elegerem o desemprego como o principal problema da região em causa. E entre estes pontos de vista ideologicamente distintos, destaca-se a divisão entre aqueles que desejam que o Islão político tenha um lugar cativo na vida pública, ao passo que outros expressam antes o desejo de manter a religião e o governo como entidades bem separadas. A ausência de confiança entre partidos concorrentes, a atmosfera de intolerância na arena pública e a incapacidade para dar mais corpo a transições frágeis constituem os principais sinais e avisos do FEM para o aumentar das tensões na região.

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2. Disparidades de rendimentos são cada vez mais significativas

Protestos populares recordistas, insurreições históricas e motins um pouco por todo o mundo começam a “não ser notícia”, dada a sua frequência crescente. Todavia, não existe sinal mais preocupante em termos de turbulência social do que estas manifestações e o motivo, apesar de não ser novo, está a atingir proporções cada vez mais significativas. A desigualdade de rendimentos e o alastrar crescente do fosso que separa ricos e pobres foi considerado pelo painel do FEM como o segundo mais importante – em termos de prioridade e preocupação – mas é considerado pela maioria dos analistas que tiveram acesso ao relatório como o mais expressivo em termos de ameaça à paz social global.

A disparidade crescente em termos de riqueza afecta todas as dimensões da vida humana, sem excepção, com impactos profundos na estabilidade social no interior dos países e como uma ameaça em termos de segurança à escala global. E se os especialistas do FEM alertam para a urgência de soluções para as causas e consequências de um mundo crescentemente desigual, com “seguimento” em 2014, a verdade é que a facilidade com que as outrora classes médias estão a cair em situações de pobreza – sendo Portugal um claro exemplo dessa queda – é assustadora. Apesar do robusto crescimento macroeconómico que nos habituámos a ter como dado adquirido, são cada vez maiores os segmentos populacionais, nos denominados países desenvolvidos, que vêem o seu rendimento decrescer para níveis muito próximos da pobreza ou de pobreza efectiva, em alguns casos. De acordo com o relatório do FEM, a desigualdade de rendimentos crescente transformou-se numa ameaça significativa tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos, incluindo a América do Norte, onde esta questão aparece, nos dados trabalhados pelo estudo, como o desafio prioritário. Como se pode ler no relatório “a riqueza impressionante criada ao longo da última década [nos Estados Unidos] tem sido canalizada para uma porção cada vez minoritária da população e a disparidade tem origens cada vez mais comuns às que grassam nos países em desenvolvimento”. De acordo com o inquérito realizado para este estudo, dois terços dos cidadãos americanos acreditam que o actual sistema económico favorece os mais ricos. Todavia, e como tão bem sabemos, em alguns países europeus, “que se encontram ainda a recuperar da crise económica global, com milhares de cidadãos sem emprego”, a percentagem é muito mais elevada [dado que Portugal não consta neste indicador, o melhor exemplo vem da vizinha Espanha onde 89% da população acredita que o sistema económico favorece os ricos].

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