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Antiguidade é um posto no exército dos fundos?

Seria de esperar que os fundos de investimento mais antigos tivessem uma patente mais elevada, já que beneficiam de mais experiência e ultrapassaram várias guerras juntos dos investidores. Não é bem assim.

David Almas 25 de Agosto de 2010 às 09:00
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Há mais de um século que a ideia da "sobrevivência do mais apto" corre nos meios académicos.

Herbert Spencer, um dos representantes do positivismo vitoriano a quem é atribuída a expressão, aplicou a teoria da evolução de Charles Darwin a conceitos económicos e sociais.

Será que, tal como num exército que passa pela guerra apenas os melhores sobreviventes chegam a general, a tese de Spencer pode ser aplicada à indústria de fundos de investimento? Numa palavra, não: os fundos mais antigos não são os que mais rendem para os investidores.

Embora haja excepções célebres, como o Pimco Total Return, o maior fundo de obrigações do mundo, gerido por Bill Gross desde 1987, são poucos os fundos mais velhos que se alinham entre os melhores da sua categoria. Julia Sawicki e Frank Finn, investigadores da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, e da Universidade de Queensland, na Austrália, explicam que os fundos mais antigos tendem a ser maiores e menos ágeis na gestão do dinheiro. "O [melhor] desempenho dos fundos pequenos não é aleatório e os investidores devem, de facto, tentar acompanhar esse desempenho", avisam, num trabalho de referência publicado em 2002.

Antes, Judith Chevalier e Glen Ellison, da Universidade de Chicago e do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, já tinham chegado a uma conclusão semelhante, mas avançaram uma justificação: os fundos mais antigos são tradicionalmente geridos por pessoas mais velhas, que se esforçam menos do que os mais novos para atingir rendibilidade mais elevadas. Além disso, os gestores mais novos têm conhecimentos universitários mais frescos, que podem pôr em prática em sua vantagem.

O Negócios testou a teoria da sobrevivência do mais apto aos seis fundos mais antigos disponíveis aos investidores portugueses. Todos têm mais de 24 anos, quando a idade média é de nove anos. As rendibilidades históricas e o "rating" atribuído a esses fundos mostram que, em geral, a tese da antiguidade ser um posto não adere ao negócio dos fundos de investimento.






Como se comportam os fundos de investimento mais antigos

Entre os seis fundos de investimento mais antigos, comercializados em portugal, nem tudo é sinónimo de rendibilidade



Threadneedle American
Dez por cento por ano


Embora o Threadneedle American seja o fundo mais antigo que se pode adquirir em Portugal, o seu gestor, Andrew Holliman, é um dos mais novos da sociedade gestora britânica. Desde Abril de 2004 que Holliman é o responsável pelo fundo de acções norte- -americanas, quando veio da gestora escocesa Baillie Gifford. Na Escócia, já geria um fundo que investia nas bolsas norte-americanas e chegou a receber prémios por isso. Nos últimos cinco anos, o Threadneedle American ficou praticamente em terreno neutro, mas Andrew Holliman acredita que "o mercado oferece bons valores, em resultado dos balanços fortes e da capacidade de geração de fluxos de caixa".

O sector tecnológico é, actualmente, o seu preferido: IBM, Apple, Oracle e Hewlett-Packard são os principais investimentos.

Desde Fevereiro de 1968, quando o Threadneedle American foi constituído, o fundo rendeu cerca de 10,5 por cento por ano, em dólares. Todavia, o desempenho mais recente tem sido bastante pior: os investidores que investiram os seus euros perderam 5,30 por cento por cada um dos últimos dez anos. Mesmo assim, a agência de avaliação de fundos Morningstar atribui-lhe quatro em cinco estrelas possíveis. A Trustnet, outra sociedade especialistas em fundos, diz que Andrew Holliman é um gestor de "elevado alfa", o que quer dizer que está entre os melhores a gerir acções norte-americanas.



Threadneedle Japan
Quebra pós-milagre económico

Foi na recta final do milagre económico japonês - o período de forte crescimento da economia do Japão que se seguiu à II Guerra Mundial - que a Threadneedle decidiu lançar o seu fundo de acções japonesas. Embora a altura não tenha sido a melhor, o Threadneedle Japan valorizou-se cerca de seis por cento por ano desde Janeiro de 1981, ultrapassando a bolha de activos do Japão (no mercado imobiliário e accionista) e a chamada "década perdida" que lhe sucedeu. A evolução desfavorável da bolsa de Tóquio nos últimos anos, que se alastrou ao Threadneedle Japan (menos 9,65 por cento por ano na última década), pode justificar o facto de Ian Burden ser gestor do fundo há apenas dois anos. "Olhando para o longo prazo, o crescimento na China (…) deverá continuar em níveis elevados e o Japão será um dos grandes beneficiários através das exportações e da produção chinesa", explica o especialista. Para acompanhar a recuperação, Burden investe em grandes exportadores, como a Toyota Motor, a Canon, a Nintendo, a Honda Motor e a Sony.



Threadneedle American Select
América mais arriscada

É o irmão mais novo e irrequieto do Threadneedle American: este fundo, que celebrou o seu 28.º aniversário em Março, investe numa carteira mais concentrada em títulos promissores, o que inclui empresas pequenas e emergentes, "aquelas com potencial de fusão ou de aquisição e em situações de recuperação com nova administração". Por isso, não se estranha que a maior aposta do Threadneedle American Select seja a Thermo Fisher Scientific, à frente da Apple, que vale 13 vezes mais.

Cormac Weldon, o responsável pela equipa de acções norte-americanas da sociedade gestora, está ao leme do Threadneeld American Select há quase nove anos. Embora seja um fundo mais arriscado do que o seu irmão mais velho, o Threadneedle American, isso não tem compensado: a rendibilidade anual da última década foi de -5,86 por cento.



BlackRock Japan
Desvalorização de olhos em bico

Apesar de ir celebrar 25 anos no próximo Dezembro, o BlackRock Japan não é um dos melhores fundos de acções japonesas, tal como o Threadneedle Japan. Nos principais prazos superiores a 12 meses, o fundo da BlackRock, a maior sociedade gestora de activos do mundo, fica aquém da sua concorrência, mostra a base de dados da Morningstar. Nos últimos dez anos, o BlackRock Japan perdeu 9,31 por cento por ano.

A culpa não é toda de Minoru Kikuchi, o responsável pela administração diária do produto. Embora esteja no grupo BlackRock desde 2004, incluindo os anos na Merrill Lynch Investment Managers (fundida com a BlackRock em 2006), Kikuchi é o gestor do fundo de acções japonesas apenas desde o Verão de 2007. As suas três maiores apostas são a Japan Tobacco, a Tokyo Electric Power e a Honda Motor.



BlackRock United Kingdom
A perder em terras de Sua Majestade

No mesmo dia de Dezembro de 1985 em que lançou o BlackRock Japan, a sociedade gestora nova-iorquina criou o BlackRock United Kingdom. Embora esteja num mercado com um passado bolsista mais atraente, o fundo de acções britânicas não tem conseguido alcançar rendibilidades muito positivas, à excepção dos 17,76 por cento do últimos 12 meses. Por cada um dos últimos três anos, o BlackRock United Kingdom perdeu 14,59 por cento.

A BlackRock não estava satisfeita com o desempenho que Nigel Ridge tinha dado a este fundo nos últimos cinco anos, por isso, elegeu James Macpherson para o substituir em Abril de 2008. "Macpherson trabalha há 21 anos na BlackRock - na maioria dos quais bateu o desempenho" do índice de referência, lia-se no "Financial Times" na altura, quando se efectuou a transição. O gestor do fundo acredita na continuação da recuperação das acções britânicas: "Consideramos que, em última instância, a recuperação do sector empresarial não será frustrada pelas consequências económicas da redução do gasto público", afirma.



Credit Suisse BF Euro Aberdeen
Obrigações melhores que acções

Este é o único fundo de obrigações entre os seis produtos mais antigos comercializados em território português. Apesar de a teoria financeira indicar que as acções devem render mais do que as obrigações no longo prazo, o Credit Suisse BF Euro Aberdeen apresenta as rendibilidades superiores nos prazos além dos 12 meses. Na última década, o fundo ganhou 3,28 por cento por ano, depois de descontar a tributação sobre as mais-valias. Todavia, isso não quer dizer que o fundo merece o seu dinheiro: a Morningstar atribui-lhe três em cinco estrelas possíveis. Desde que foi lançado, em Outubro de 1986, valorizou cerca de seis por cento por ano, o que se traduz num ganho líquido de cerca de 5,3 por cento.

A dupla Daniel Hines e Bryan Wallace gerem o Credit Suisse BF Euro Aberdeen desde Julho de 2008. Neste momento, preferem dívida pública de Itália, da Alemanha e de França, embora tenham 15 por cento do capital em depósitos e equivalentes.


Longe de serem os melhores

Os seis fundos mais antigos estão longe de serem os melhores das suas categorias, segundo o "rating" da Morningstar, à excepção do mais velho, que merece a atribuição de quatro estrelas pelos analistas da agência.








Lusitanos da velha guarda

Os dois fundos imobiliários entre os três produtos mais antigos geridos em Portugal, renderam mais de oito por cento por ano em pouco mais de duas décadas.


Foi há 25 anos que os portugueses voltaram a receber os fundos de investimento nas suas carteiras. Depois de uma pausa pós-revolucionária prolongada e forçada, as sociedades gestoras receberam a autorização do último governo de Mário Soares para serem relançados. Poucos vingaram até hoje.

O Fundimo, o fundo imobiliário da Caixa Geral de Depósitos, é o produto mais antigo gerido em território nacional. Por cada ano dos seus 23 de idade, o Fundimo rendeu cerca de 8,7 por cento, calcula a sociedade gestora homónima, distribuindo semestralmente dividendos. Às cotações mais recentes, os dois últimos dividendos representam uma rendibilidade anual de 2,91 por cento. Em Fevereiro de 2007, o Fundimo comprou os seus actuais principais imóveis à Portugal Telecom, a sede lisboeta da TMN e o edíficio Tagus XXXV no Taguspark, em Oeiras, por mais de 85 milhões de euros. Actualmente, os cerca de 250 imóveis detidos pelo fundo valem mais de mil milhões de euros, o que permite colocar o Fundimo na primeira posição dos maiores fundos registados em Portugal.

Tal como o Fundimo, o segundo fundo mais antigo é gerido no interior da Caixa Geral de Depósitos, mas é comercializado em exclusivo nas estações dos CTT. O Postal Acções, lançado em Junho de 1987 com o nome Valor Mais, foi inicialmente um fundo de acções portuguesas, mas alargou o seu universo aos mercados europeus. Por isso, os principais investimentos actualmente são os títulos da francesa Total, da alemã Siemens e da espanhola Telefónica. Embora seja antigo, o Postal Acções é pequeno: juntos, os 329 investidores, segundo a última contagem, têm menos de dois milhões de euros no fundo.

Como o Imovest, lançado em Julho de 1987, foi recentemente absorvido pelo Novimovest, o Vip subiu ao terceiro lugar dos fundos mais antigos geridos em Portugal. Com um terço da dimensão do Fundimo, o Vip registou ganhos históricos superiores, cerca de 9,36 por cento por ano desde Novembro de 1987. O maior activo deste fundo, disponível aos clientes do Deutsche Bank e do Montepio, é o edifício de escritórios na esquina da Rua Castilho e da Rua Barata Salgueiro, em Lisboa. Vale 32,8 milhões de euros, quase três vezes quanto custou em Abril de 1988.


Imobiliário em alta

Embora tenham comissões superiores, os fundos imobiliários atingiram rendibilidades elevadas nos últimos 23 anos.




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