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Ativos digitais vão abrir o sistema financeiro aos mais pobres

Os ativos digitais vão criar competição e baixar a barreira de entrada nos mercados financeiros, permitindo a milhares de milhões de pessoas o acesso a ferramentas de poupança, investimento, e preservação de valor, que lhes permitam sair da pobreza, defende Diogo Mónica.

Filipe S. Fernandes 23 de Novembro de 2021 às 14:00
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A 13 de janeiro de 2021, Diogo Mónica e Nathan McCauley, os dois fundadores da Anchorage, informavam, no site digital medium.org, que o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) dera aprovação condicional ao pedido feito para a criação do Anchorage Digital Bank National Association, "o primeiro banco de ativos digitais da história a ser autorizado pelo governo federal. Este é um marco importante, não apenas para nós como organização, mas também para a indústria de criptografia e o mundo financeiro em geral. A cripto merece um banco e estamos imensamente orgulhosos de sermos aprovados como aquele que estabelece o padrão."

Nesta aventura pontifica Diogo Mónica, que fez a licenciatura, o mestrado e o doutoramento no Instituto Superior Técnico, mas fazendo grande parte da sua carreira profissional nos Estados Unidos, seguindo o rumo prenunciado no seu doutoramento. Como diz, "fiz o doutoramento na área de segurança e sistemas distribuídos e, portanto, trabalhei de forma muito intensa em conceitos semelhantes aos que criptomoedas como a bitcoin usam hoje para mining". O que seguiu foi tentar encontrar as tecnologias para prosseguir os seus objetivos.
 

1,5Carteira
Em 2017, um dos primeiros clientes da Anchorage tinha perdido a password de uma carteira de 1,5 milhões de dólares.

Como é que foi criado o Anchorage Digital e qual era a sua ideia de negócio?
A Anchorage nasceu da perceção de uma necessidade do mercado. No início de 2017 comecei a receber bastantes pedidos de ajuda de investidores que pretendiam entrar no mercado de criptomoedas, pelo que comecei a fazer consultoria. Um dos primeiros clientes que me procuraram tinha perdido a password de uma carteira de 1,5 milhões de dólares, e precisava de ajuda para conseguir recuperar o acesso à carteira. Foi talvez esse o momento-chave, em que me apercebi de que, embora os investidores fossem muito sofisticados na parte financeira, não tinham a capacidade técnica - ou talvez apenas a sensibilidade ou formatação - para proteger e gerir devidamente as chaves privadas destes criptoativos. Ao ver mais e mais clientes com o mesmo tipo de necessidades e/ou necessidades altamente correlacionadas, tornou-se óbvio para mim que havia uma lacuna de oferta no mercado e, portanto, uma clara oportunidade de negócio.

Como é que chegou às criptomoedas?
Embora a minha chegada a esta área tenha sido um processo, mais do que um evento singular, penso que a posso rastrear até ao meu doutoramento. Fiz o doutoramento na área de segurança e sistemas distribuídos e, portanto, trabalhei de forma muito intensa em conceitos semelhantes aos que criptomoedas como a bitcoin usam hoje para mining. O surgimento de uma aproximação tecnológica que prometia resolver de forma inovadora um dos grandes problemas comuns aos sistemas distribuídos não podia, pois, deixar de me atrair. E, claro, como acontece com todos os "rabbit holes", quando se entra não se consegue evitar continuar a cavar, cada vez mais fundo, até perder a entrada de vista. Cá fiquei, portanto.

Como é que se caracteriza e se estrutura hoje o Anchorage Digital Bank? Tem alguma estratégia específica para o mercado europeu?
O Anchorage Digital Bank é o primeiro e único banco federal norte-americano que permite fornecer custódia e outros serviços relacionados com criptomoedas a clientes de nível institucional. Temos várias entidades diferentes, que servem mercados diferentes. Já temos muitos clientes na Europa mas, até agora, os nossos serviços têm sido fornecidos sempre através das nossas entidades reguladas dos EUA. No futuro, talvez criemos entidades regulamentadas locais, dependendo da evolução dos mercados.

Qual foi a importância do acordo com a VISA, com o Federal Deposit Insurance Corporation e com o Departamento de Justiça para ajudar o US Marshalls Service?
A entrada de grandes empresas e instituições estatais neste mercado tem importância estrutural, que não pode ser demasiado realçada. Sustenta a legitimação da criação de produtos com criptomoedas, acelera a sua adoção pela indústria, e fornece sinais claros de confiança aos investidores particulares, ajudando a destruir muitos dos mitos negativistas que ainda perduram em atores com menor literacia nestas áreas.

Qual pode ser o papel das criptomoedas e dos ativos digitais na economia?
Dois dos grandes objetivos dos ativos digitais, são, a meu ver, criar competição ao mercado financeiro tradicional - que praticamente não evoluiu durante as últimas décadas - e baixar a barreira de entrada nos mercados financeiros, permitindo assim ao bilião de pessoas neste planeta que não tem acesso ao sistema financeiro tradicional o acesso a ferramentas de poupança, investimento, e preservação de valor que lhes possam talvez permitir sair da pobreza.

Qual é o principal impacto no sistema financeiro e nas empresas? Quais as vantagens e quais são os riscos de investimento e utilização de ativos digitais?
Certos elementos do sistema financeiro vão ser completamente substituídos por alternativas mais eficientes e mais baratas. A principal vantagem das criptomoedas é a velocidade a que esta tecnologia está a permitir inovação em produtos financeiros. A principal desvantagem (e, até certo ponto, fator de risco também) é o facto de serem produtos relativamente recentes, com muitos dos elementos da tecnologia ainda em fases experimentais e/ou iniciais. O maior risco, no entanto, é o de vir a haver um excesso de regulamentação que venha fazer emperrar ou mesmo fazer estancar o atual ritmo de inovação.

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