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O modelo de banca do Canadá

A lei de Dornbusch, de Rudi Dornbusch, diz que “as coisas demoram muito mais tempo a acontecer do que o que nós pensamos, mas quando começam a acontecer, acontecem de forma muito mais rápida do que alguma vez imaginámos”.

Filipe S. Fernandes 06 de Novembro de 2020 às 16:00
Sérgio Rebelo apontou o sistema canadiano como um bom exemplo. Pedro Elias
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"O modelo da banca digital, da banca do futuro, vai ser um modelo completamente diferente, porque tem um mix de custos fixos e de custos marginais, e de externalidades de network completamente diferente da banca convencional. A banca convencional tem custos fixos relativamente baixos, mas tem custos marginais muito elevados, precisa de ter as agências com pessoas, a margem tinha um custo relativamente elevado. As externalidades da network eram apesar de tudo relativamente baixas", referiu Sérgio Rebelo, professor do Kellogg School of Management.

Os consumidores quererão os bancos que toda a gente utiliza, o que facilita as transações. Sérgio Rebelo
Professor do Kellogg School of Management
A banca digital, ao contrário da tradicional, tem custos fixos enormes, porque a criação das plataformas custa muito dinheiro e o standard está nas plataformas como a Netflix ou a Amazon, o que implica um grande aperfeiçoamento e os custos são bastante elevados. "Mas depois de ter a plataforma, o custo marginal é praticamente zero, não é preciso pagar para fazer a transação, é automatizada, e há também um grande externalidade de network porque os consumidores quererão os bancos que toda a gente utiliza, o que facilita as transações e a comunicação com outras pessoas que usam a mesma plataforma financeira", disse Sérgio Rebelo.

Este contexto pode resultar numa grande consolidação no setor bancário, que não é um facto novo no negócio bancário. "Vamos ter uma situação em que há um conjunto de vencedores, um conjunto de empresas que, tal como a Amazon e a Netflix, dominam a sua indústria porque conseguiram criar estas plataformas excecionais, atrair os consumidores, com uma grande base de consumidores que tem muitos dados, esses dados permitem fazer aquele círculo virtuoso, melhorar os produtos, atrair mais consumidores e criar mais dados".

Sistema mais estável

Com a diminuição de competidores há o receio de que haja uma compressão da concorrência e as comissões subam. Sérgio Rebelo deu o exemplo do Canadá "onde há um número pequeno de grandes bancos, e é um sistema que funciona bastante bem, é praticamente um sistema que nunca teve crises, nunca tiveram de ter um bailout do governo e sempre foram bastante resilientes em alturas de crise".

Uma das chaves do sistema é que os bancos têm de renovar as licenças de cinco em cinco anos no Parlamento, por isso há sempre a ameaça que os bancos vão ser sujeitos a um exame e por isso, esse sistema tem mantido, apesar do pequeno número de bancos, taxas de crédito relativamente baixas. "Quando se compara o preço do crédito nos Estados Unidos e no Canadá, não há diferenças óbvias no preço do crédito, no entanto o sistema canadiano talvez seja muito mais estável".

A pandemia não criou nada de novo mas acelerou as tendências que já estavam no terreno. Sérgio Rebelo
Professor do Kellogg School of Management
Segundo Sérgio Rebelo, "a pandemia não criou nada de novo mas acelerou as tendências que já estavam no terreno e uma dessas tendências foi o facto de as pessoas usarem cada vez mais formas digitais de fazer operações bancárias". Acrescentando que esse futuro se vai basear numa utilização intensa de dados e de inteligência artificial para analisar esses dados. Sublinhou que a inteligência artificial requer muitos dados e quem conseguir dados relevantes primeiro vai ter uma grande vantagem competitiva para desenvolver produtos melhores que os da concorrência e atrair mais consumidores que representam mais dados. Mas a combinação da inteligência artificial e dos insights da economia comportamental são de certa forma uma combinação vencedora.

Terminou citando a lei Dornbusch, de Rudi Dornbusch, que diz que "as coisas demoram muito mais tempo a acontecer do que o que nós pensamos, mas quando começam a acontecer, acontecem de forma muito mais rápida do que alguma vez imaginámos", Para Sérgio Rebelo é isto que "vai acontecer há banca, demorou muito a chegarmos aqui, mas penso que a transformação daqui para a frente pode ser muito mais rápida do que aquilo que nós imaginamos".

A cimeira dos banqueiros  O Jornal de Negócios realizou mais uma edição do Grande Encontro Banca do Futuro, que teve lugar no Hotel Sheraton, a 27 de outubro de 2020. Depois das notas de boas-vindas de André Veríssimo, diretor do Jornal de Negócios, e António Miguel Ferreira, managing director da Claranet Portugal, sucedeu-se a abertura institucional por Mário Centeno, governador do Banco de Portugal e o keynote speech, Sérgio Rebelo, economista e professor do Kellogg School of Management.

O debate "Que Futuro para a Banca?" contou com António Ramalho, presidente da comissão executiva do Novo Banco, João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium BCP, Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da CGD, Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander.

Para o tema "Mais transformação digital no setor bancário?", estavam presentes António Miguel Ferreira, managing director da Claranet Portugal, Mariana Jordão, vice-presidente de Operações da Feedzai, Nuno Cordeiro, partner da Deloitte, Paulo Costa Martins, sócio da Cuatrecasas e Ricardo Chaves, CCO, SIBS. A moderação dos painéis foi de André Veríssimo. 
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