Outros sites Cofina
Notícia

Areadobras: A engenharia que vende invernos de manga curta

A crise levou Ricardo Tavares para o Luxemburgo, onde conheceu a construção sustentável, o mundo que a Areadobras quer fazer crescer em Portugal.

Rute Barbedo 29 de Novembro de 2018 às 16:15
Ricardo Tavares regressou do Luxemburgo com a ideia de construir habitações sustentáveis. Paulo Duarte
  • Partilhar artigo
  • ...

"Em Portugal, qual é a casa em que o peitoril das janelas não é de granito... mas andamos todos de cachecol? No Luxemburgo, os peitoris são de chapa mas dentro de casa anda-se de manga curta". Este "choque de ideias" mexeu com Ricardo Tavares, engenheiro civil que emigrou para o centro da Europa forçado pela crise de 2008. Entre 2012 e 2016, descobriu, assim, outra filosofia - e materiais de construção - para o segmento da habitação e pensou: "Por que razão em Portugal é diferente?"

A pergunta tornou-se constante e, em 2016, motivou o engenheiro a regressar ao país natal para "começar um projecto em que acreditava", movido pela construção de habitações sustentáveis.

Nada foi fácil. "Não havia mercado nem mentalidade", diz o fundador da Areadobras, que funciona no edifício da incubadora municipal de Aveiro, hoje com mais dois trabalhadores (um na área de engenharia e outro no secretariado e comunicação). "Todas as portas se fecharam". A solução foi "procurar muito", até encontrar o cliente ideal para começar. Hoje, esse promotor imobiliário, cujo nome Ricardo Tavares prefere não revelar, é o maior cliente da empresa.

Sem querer concretizar valores (porque acredita que o segredo é importante para o negócio), o empresário afirma que, entre 2017 e este ano, a empresa cresceu 500%. Um salto depois de mais de um ano de trabalho solitário, de muitos orçamentos que nunca evoluíram para adjudicações e de consecutivos "nãos" por parte de potenciais clientes que olhavam com descrença para sistemas térmicos e de impermeabilização inovadores.

Palavra mágica: dinheiro

A empresa é especializada em projectos de engenharia e construção que melhoram o desempenho energético (e, portanto, térmico) de uma habitação, fazendo poupar, mais tarde, nos gastos como, por exemplo, de aquecimento. Para isso, serve-se de materiais inovadores - alguns de que são representantes exclusivos em Portugal, como o Fixolite, blocos à base de madeira reciclada "que têm uma componente de isolamento térmico muito grande". Mas além do conforto e do ambiente, "a banca financia mais rapidamente uma casa com uma valorização destas", garante o empreendedor, afirmando que, ao mesmo tempo, a construção com este tipo de materiais não é mais cara do que o padrão.

E o mercado está mais receptivo? Ricardo Tavares responde que a construção sustentável é cada vez mais reconhecida pelo "sistema". "O Estado pode gastar menos se aplicar procedimentos que impliquem menos energia", traduz. Segundo a Direcção-Geral de Energia e Geologia, os edifícios são responsáveis pelo consumo de aproximadamente 30% da energia total. O mesmo organismo reconhece que "mais de 50% deste consumo pode ser reduzido através de medidas eficiência energética".

Tome nota

Começar do zero

Ricardo Tavares trocou uma situação "estável" no Luxemburgo para se atirar como empresário a um mercado que dava poucos sinais de abertura.

Atravessar o deserto
Criar a empresa foi "extremamente difícil", afirma o fundador da Areadobras. Dois anos depois, no entanto, sente que "o mercado está a absorver [o conceito de construção sustentável]".

O trabalho com parceiros de Viseu/Lafões, Aveiro, Coimbra e Algarve, a participação em feiras e eventos do sector e o facto de integrar o Cluster Habitat Sustentável (o director, Vítor Ferreira, é o mentor da empresa) têm contribuído para a visibilidade da Areadobras.

Em crescimento mas na incubadora
Apesar de terem crescido 500% - para um valor não revelado - entre 2017 e 2018, segundo o fundador da empresa, não vão prescindir, pelo menos para já, do apoio da incubadora onde funcionam. "Sem eles, não conseguiríamos ter alguns serviços, como o jurídico, de consultoria ou a estratégia de marca e de comunicação", assegura.

Lá fora ou cá dentro?
"Ouvimos os consultores dizerem para irmos para a internacionalização. Curiosamente, já estamos no Luxemburgo [de onde o empreendedor regressou], mas ele não precisa muito de nós. O nosso foco é Portugal, porque é Portugal que precisa", considera Ricardo Tavares.

Ainda assim, tendo em conta a dimensão e a volatilidade do mercado nacional, adianta que Espanha será o passo seguinte.




Mais notícias