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António Almeida Henriques: “Esta obra no IP3 é um paliativo”

Por mais dinamismo e incentivos que haja, Viseu tem um “handicap” que persegue o concelho: a deficiente rede de acessos, por estrada ou carris, àquela que é a maior cidade do interior de Portugal.

Maria Ana Barroso | Nuno André Ferreira - Fotografia 30 de Outubro de 2019 às 12:30
António Almeida Henriques, Presidente da Câmara Municipal de Viseu
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A atração de investimento tem sido uma das apostas da autarquia, garante Almeida Henriques. Um concelho pode ter as melhores condições, mas sem empregos, garante, não se fixa nem atrai novas pessoas.

Viseu tem fama de concelho com dinamismo empresarial acima da média. Porque é que isso acontece?
Esta região sempre foi empreendedora. Para tal contribuiu a descolonização, de que Viseu foi uma das regiões que mais beneficiou, e que trouxe muita gente sobretudo de Angola e Moçambique que veio desenvolver muitos projetos empresariais. O grupo Visabeira, por exemplo, tem origens em Moçambique. Uma das coisas que foi feita foi apostar na promoção do investimento. Partimos praticamente do zero. Criámos um gabinete de apoio ao investidor, um regulamento de promoção do investimento, com incentivos no IMI, IMT, taxas e licenças camarárias e a disponibilização de terrenos a custo baixo nas redondezas da cidade.

À parte esses incentivos, o que pode levar as empresas para Viseu?
Viseu é a maior cidade do interior do país, o que lhe dá massa crítica. Depois, não temos uma universidade mas temos três instituições de ensino superior: o Instituto Politécnico, a Universidade Católica e o Instituto Piaget. Hoje somos um dos melhores concelhos para estudar do país, um dos cinco concelhos do país com mais e melhor atividade cultural e uma das melhores redes sociais do país. E elegemos três áreas de aposta: as tecnologias de informação, a saúde e o ambiente. E quisemos incrementar o agroalimentar. Para tal, temos alguma mão de obra disponível e o próprio politécnico estar a focar-se nas áreas das tecnologias de informação e da programação, tendo já três academias, da Deloitte, IBM e Bizdirect. E só no cluster da saúde criaram-se 500 postos de trabalho nos últimos três anos. A CUF, por exemplo, só tem um hospital fora do litoral e é em Viseu. Tínhamos cerca de sete mil desempregados quando cheguei à câmara. Hoje estamos com dois mil e poucos e, desses, metade é desemprego estrutural.

Não queremos ter um aeroporto. Queremos ter sobretudo um aeródromo internacional.

Viseu beneficiou do aumento do interesse por Portugal dos últimos anos?
Viseu há seis anos tinha 100 mil dormidas e em 2018 chegou às 250 mil. Para esta evolução contribuiu também o facto de, há quatro anos, termos conquistado as linhas aéreas para Viseu. O aeródromo é hoje uma das grandes âncoras de Viseu, com cerca de mil movimentos por mês. Não queremos ter um aeroporto. Queremos ter sobretudo um aeródromo internacional. As linhas aéreas exploradas pela Aero Vip funcionam duas vezes por dia, na primavera e verão, e uma vez por dia no inverno. Viseu passou a estar a 40 minutos de Cascais. Consegue-se sair às 8h20 e regressar às 18h30.

Mas é uma escala pequena. Quem são passageiros?
Há desde turismo nacional e internacional até pessoas de empresas. Uma ida e volta a Lisboa são cerca de 75 euros, muito mais barato do que ir de carro. Às vezes o que é preciso é começar a iniciar as dinâmicas. A linha está com cerca de 80% de taxa de ocupação. Tenho a expectativa de que o aeródromo possa, nos próximos anos, evoluir para um prolongamento da pista - de 1100 para os 2700 metros - para dar resposta, para já, à logística, mas depois também para vir a ter voos charter.

Há procura para isso?
Só a Visabeira movimenta 700 pessoas por semana nas suas operações internacionais que hoje chegam via Porto. Com uma solução dessas, seguramente seria mais barato preparar voos charter que pudessem fazer esta movimentação. E temos comunidades emigrantes muito fortes em França, na Alemanha e Luxemburgo.

Não resolve o problema da falta de acessos por terra.
A obra que está a decorrer no IP3 é um paliativo. O investimento previsto vai reduzir em vinte minutos a distância até Coimbra mas não é estrutural. Acresce que é a estrada da morte, já lá morreram mais de cem pessoas. É preciso fazer a ligação em autoestrada Viseu/Coimbra que nos ligue a sul com maior facilidade porque a norte estamos bem. A ligação à capital é desgraçada. Depois, de uma vez por todas , é preciso olhar para a ferrovia como transporte do presente e do futuro. Quase não há ninguém que vá de Viseu - via Mangualde - para Lisboa de comboio. A CP nem "shuttle" tem entre Viseu e Mangualde.

Isso é um entrave à atração de mais investimento?
É. Para Viseu e para o norte. O que devia ter sido a opção do governo anterior, já dentro deste quadro comunitário de apoio, era ter candidatado Cacia/Viseu/Vilar Formoso em bitola europeia para nos colocar no mapa europeu. Corremos o risco de transformar Portugal numa ilha. Enquanto todo o centro de Espanha e a zona de Vigo passam a estar servidos pela bitola europeia, nós estamos como estamos. Não faz sentido a maior cidade do interior não ter comboio. Estas cidades médias são a salvação do interior. Se não tivermos âncoras que se desenvolvam, como Viseu, Covilhã e Guarda, à sua volta tudo seca.

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Um histórico do PSD

Foi vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e secretário de Estado Adjunto da Economia e Desenvolvimento Regional no governo de Passos Coelho. Do seu currículo faz ainda parte a vice-presidência da CIP, a presidência da Associação Industrial da Região de Viseu e a profissão de advogado. Está à frente da Câmara de Viseu desde 2013 e chegou a ser associado pela imprensa à Operação Éter. No entanto, o seu nome não consta da lista de arguidos divulgada esta semana, já depois de a entrevista ter lugar. O jornal i noticiou entretanto eventuais certidões emitidas para investigar indícios criminais envolvendo autarcas como Almeida Henriques. Questionado pelo Negócios, diz estar "de consciência tranquila".

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