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A covid-19 está a ter um impacto significativo em todos os seguros

José Galamba de Oliveira, presidente da APS, considera que devido à incerteza da pandemia, as ações de curto e médio prazo devem ser “desenvolvidas à medida que as necessidades vão sendo identificadas”.

Filipe S. Fernandes 21 de Abril de 2020 às 16:00
José Galamba de Oliveira presidente da APS DR
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A pandemia de covid-19 e os seus efeitos são provavelmente os grandes desafios não só das seguradoras como de José Galamba de Oliveira, que desde setembro de 2016 preside à Associação Portuguesa de Seguradoras, que representa 99% das empresas de seguros a nível nacional. O clima de incerteza é elevado, e o desconhecido, um dado, por isso, as medidas de curto e de longo prazo "devem ser desenvolvidas à medida que as necessidades vão sendo identificadas, ou seja, a cada momento. E, como temos visto com a legislação emanada do Governo, esta em poucos dias já teve de ser retificada, ajustada e alterada várias vezes, porque, de facto, as soluções para esta situação não se encontram em manuais nem em experiências passadas que possam ser replicadas. Vivemos um tempo de verdadeira tentativa e erro, na esperança de conseguirmos acertar na melhor solução".

Quais são os principais impactos que a indústria seguradora está a sofrer com a pandemia de covid-19? Quais são as áreas mais afetadas?
O setor está a sofrer impactos aos níveis operacional, do negócio e financeiro. A área do negócio, com a travagem brusca da economia, e a área financeira, com a turbulência nos mercados de capitais, são as mais afetadas. Felizmente, ao nível operacional, as empresas de seguros responderam muito bem e implementaram, com um sucesso assinalável, os seus planos de contingência, garantindo aos seus trabalhadores condições de segurança que, nesta fase, são cruciais e pondo quase todos em teletrabalho. De qualquer modo, continuam a ter algumas limitações na contratação dos prestadores de serviços com quem habitualmente trabalham porque muitos deles também tiveram de encerrar a atividade ou têm eles próprios limitações de circulação ou dificuldades em prestar esses serviços.

Em termos de ramos quais vão ser as consequências principais?
Todos os ramos de seguro estão a sofrer um impacto muito significativo. Há uma redução grande de novos seguros e muitas solicitações de revisão das condições dos seguros em vigor. O ramo de acidentes de trabalho, por exemplo, é bastante afetado por causa do encerramento ou suspensão da atividade das empresas. Mas, em geral, todos os seguros de empresas estão a ser bastante afetados, sejam seguros de obras, de responsabilidade civil, de viagens, só para referir alguns.

Em termos de sinistralidade também há uma redução do número de sinistros, mas em muitos ramos essa redução significa apenas adiamento dos custos e até um agravamento de custos, como é o caso da saúde, com muitas consultas a serem adiadas. Mas quando se retomar a normalidade, elas serão realizadas e esperemos que esse adiamento não se traduza num agravamento das condições de saúde das pessoas.

Nestes tempos absolutamente extraordinários que temos vivido, cada dia traz uma realidade nova e diferente e, por isso, o quadro real dos impactos só o poderemos ter daqui a uns meses.

O setor caracteriza-se por saber responder e reagir bem a situações de crise ou catastróficas. josé galamba de oliveira
Presidente da APS

Há quem defenda que esta pandemia mundial vai ter reflexos sociais, económicos, políticos. No caso da indústria seguradora também haverá mudanças? Quais são as mais previsíveis?
O setor segurador caracteriza-se por saber responder e reagir bem a situações de crise ou catastróficas e isto porque tem empresas com elevado grau de flexibilidade e dotadas de profissionais bem preparados e motivados, com elevada capacidade de adaptação e capazes de inovar e desenvolver novas soluções ajustadas às necessidades, em contextos especialmente críticos.

Em especial, o processo de digitalização, já iniciado antes desta pandemia, poderá conhecer um novo impulso potenciando uma crescente proximidade com o cliente.

Também ao nível dos próprios modelos de negócios das empresas podemos assistir a mudanças importantes fruto da adesão a toda esta nova realidade digital que fomos forçados a aceitar de um dia para o outro.

De facto, esta nova realidade obriga as empresas de seguros a diversificar a sua oferta de produtos e a repensar o seu posicionamento no mercado e, ainda, a desenvolver novas propostas de valor, traduzidas em produtos e serviços mais ajustados aos seus clientes.

Vai ter impacto na supervisão e na regulação?
Do ponto de vista da supervisão e da regulação do setor já se começaram a sentir os impactos. Por exemplo, já foram emitidas recomendações com o objetivo de sublinhar a necessidade de soluções flexíveis que vão ao encontro das necessidades dos clientes mais vulneráveis e mais afetados por esta situação.

Também foram flexibilizados os prazos de apresentação dos reportes obrigatórios a que as empresas estão sujeitas.

Ou seja, a regra básica que deve conduzir a supervisão e a regulação neste período é a flexibilidade e transparência, para que todos, com equilíbrio e bom senso, se possam ajustar a uma realidade nova. E nova para todos: regulador, empresas de seguro e clientes.

No âmbito da Associação Portuguesa de Seguradores, estão ainda a ser avaliadas, junto do Governo e do regulador, a adoção de medidas legislativas ou regulatórias que assegurem a simplificação e a flexibilidade de alguns procedimentos, em benefício dos clientes e beneficiários dos seguros, nomeadamente, e a título de exemplo, a simplificação do processo de emissão e envio das denominadas "cartas verdes", associadas ao seguro obrigatório automóvel, permitindo o seu envio por meio eletrónico e a preto e branco.
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