[179.] TV Cabo

A campanha da TV Cabo baseada no abandono do lar pela família é horrorosa. Um pai chega a casa e encontra uma mensagem dizendo que mulher e filhos o abandonaram por este não ter assinado a TV Cabo. Ele destruiu a família por 15 euros e tal por mês.

Nos mupis vê-se uma mensagem de um filho dizendo ao pai que ele não poderia esperar outra coisa ao manter a família sem serviço da TV Cabo.

Num outro anúncio, já com uma intenção de comicidade mas sem piada nenhuma, ouve-se a mensagem da empregada que se despede pelo mesmo motivo. É evidente que a campanha não se fica por aqui e evoluirá de forma positiva até que a família volte a reunir-se. Como na ficção (e esta campanha é como uma novela em episódios de 30 segundos), perceber-se-á no final que tudo não passou de um equívoco, que as mensagens da família ao abandonar o lar eram a brincar ou outra coisa qualquer. Certo é que a família estará reunida pelo Natal: lançar em Novembro uma campanha antifesta da família seria uma irresponsabilidade ainda maior do que já é.

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Mesmo com o hipotético final feliz, estes anúncios existem per se. São eles que nos confrontam em inúmeros media, em casa e na rua. Poderia avaliar-se a campanha por um critério de gosto - o mau gosto da ideia base destes anúncios ultrapassa o razoável – mas o gosto é dos valores mais subjectivos e está muito associado a grupos etários, classes sociais, etc. Não é um critério importante para a crítica. Fiquemo-nos por isso pela avaliação sociológica desta campanha.

O que os primeiros anúncios da campanha nos dizem é isto: as famílias só estão unidas porque há bens materiais disponíveis; não havendo, a família dissolve-se. Amor, amizade, afecto: nada disso existe nestes anúncios. Eles dão como certo que mulher e filhos deixem a casa por não poderem ver canais de TV a 15 euros por mês. As mensagens para o pai de família são elucidativas desta mercantilização dos laços familiares: ele é "mesquinho" por ter destruído a família por tão pouco dinheiro (no contexto desta ideologia ascorosa, o contrário seria mais adequado: a mulher e os filhos foram mesquinhos por abandonarem o lar de família por causa de canais de TV). A ideologia subjacente a estes anúncios é o de que todas as relações humanas, mesmo as que se pretende baseadas no afecto, dependem do dinheiro. Se levas dinheiro para casa, tens família. Se não levas - divórcio.

Julgo poder adivinhar que os inventores desta campanha nunca tiveram numa situação em que 15 euros lhes fizessem realmente muita falta; nunca conviveram com famílias que enfrentam terríveis dificuldades para chegar ao fim do mês com parcos rendimentos; nunca tiveram de enfrentar a pressão e a ansiedade de verem os filhos confrontados com privações quando os amigos ou colegas exibem inúmeros bens materiais (roupa de marca, acessórios, gadgets electrónicos, refeições, bebidas, motas e carros...). Se conhecem essa realidade, a irresponsabilidade desta campanha é total; se a ignoram e não ponderaram nas consequências dos seus anúncios, foram incompetentes. Explicação freudiana: esta campanha de abandono do "pai" deve-se ao abandono de 34 mil "filhos" – que é o número de clientes que a TV Cabo perdeu em 12 meses (JdN, 28.11.2006).

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Dir-se-á: mas se a campanha certamente continua até ao Natal, fazendo evoluir a narrativa num sentido positivo, qual é o problema? Sim, há um problema: é que estes anúncios já cá cantam, já criaram a situação; mesmo que os próximos a façam evoluir, deram-lhe crédito, legitimaram a situação; e se a levarem à resolução do nó da narrativa com a reunião feliz da família, isso far-se-á com a assinatura dos serviços da TV Cabo por 15 euros, isto é: a família reunir-se-á de novo porque pôde consumir. Esta campanha é horrorosa nos seus pressupostos ideológicos e sociais e anula em absoluto os meios e os efeitos da boa publicidade: o sonho, a graça, a estética, a arte.

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