João Ferreira do Amaral 30 de Janeiro de 2006 às 13:59

A recuperação da Argentina

Pouca gente se tem interessado pelo que se está a passar com a economia argentina. E, no entanto, nada de mais útil e instrutivo para se compreender o que se passa na economia portuguesa e quais os seus caminhos de futuro.

A Argentina, durante vários anos e seguindo as teses de algumas iluminárias com formação adquirida em universidades americanas de meia tigela, seguiu a obnóxia política de manter estável a taxa de câmbio do peso contra ventos e marés, ou seja, qualquer que fosse o ritmo da inflação interna.

Pouca gente se tem interessado pelo que se está a passar com a economia argentina. E, no entanto, nada de mais útil e instrutivo para se compreender o que se passa na economia portuguesa e quais os seus caminhos de futuro.

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A Argentina, durante vários anos e seguindo as teses de algumas iluminárias com formação adquirida em universidades americanas de meia tigela, seguiu a obnóxia política de manter estável a taxa de câmbio do peso contra ventos e marés, ou seja, qualquer que fosse o ritmo da inflação interna. Conforme era de esperar, como o ritmo da inflação argentina era relativamente elevado, esta decisão, certamente das mais erradas que algum governo tem tomado em matéria de política económica, levou a uma grande apreciação real da moeda argentina. As consequências não se fizeram esperar: enorme perda de competitividade, problemas insolúveis de endividamento externo e quebra pronunciada da actividade económica, com a consequente crise social generalizada.

Nos dois anos de 2001 e 2002 o Produto Interno Bruto desceu 15% em termos reais, o que fora de situações de guerra, não é fácil de conseguir. Até que em 2002 a política mudou – teve que mudar. O peso argentino desvalorizou mais de 50%. A partir daí, a recuperação da economia argentina tem sido espectacular. O PIB, nestes últimos três anos cresceu 8% ao ano em termos reais e as exportações ainda um pouco mais, 8,3%. Ou seja, a Argentina tornou-se quase do dia para a noite uma caso sério de crescimento económico. O que é que fez a diferença? A taxa de câmbio.

As lições para o caso português são fáceis de tirar. Desde 1992, com a entrada no Sistema Monetário Europeu, que vivemos, tal como a Argentina, com uma taxa de câmbio sobreapreciada (a partir de 1999, com a adopção do euro, é uma taxa de câmbio implícita). Tal como a Argentina, embora felizmente em menores proporções, vivemos uma crise prolongada que, entre outras coisas, tem feito que, mesmo beneficiando, como beneficiamos, de um grande auxílio comunitário, o PIB per capita nos últimos cinco anos tenha descido. É impossível – até pela análise da evolução portuguesa das décadas de setenta e oitenta – deixar de culpar a taxa de câmbio sobreapreciada pelo que se está a passar na economia portuguesa. E consequentemente nenhum economista independente deixará de avaliar como um enorme erro a nossa entrada na moeda única, que fez sobreapreciar e mantém apreciada a taxa de câmbio. A solução dos nossos problemas, mais uma vez tendo em conta a experiência argentina e a nossa própria evolução passada, exige necessariamente uma depreciação da taxa de câmbio.

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O que – é bom que enfrentemos a realidade – implicaria a saída da moeda única. Por isso o dilema que enfrentamos é o seguinte: ou nos mantemos na moeda única e espera-nos a estagnação secular; ou saímos e temos oportunidade de crescer e de nos tornarmos mais ricos, mas teremos de suportar os custos da saída, que não serão pequenos.

Por mim, prefiro, apesar de tudo, a segunda opção. Porque os nossos governantes, que tomaram a péssima decisão de aderir à moeda única sem sequer consultarem o povo português foram vítimas duma ilusão infantil: é que com a globalização, as taxas de câmbio deixavam de ter importância. É exactamente o contrário. Numa economia globalizada, onde os choques de competitividade são mais frequentes é justamente onde é necessário dispor do instrumento cambial.

Nem é outra a lição do exemplo argentino.

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