Adriana Zani 01 de Março de 2026 às 22:08

Agenda pós-2030: o verdadeiro desafio será torná-la operacional para as empresas

À medida que se intensificam as discussões sobre a Agenda Global Pós-2030, fica mais claro que o principal obstáculo ao sucesso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não foi a sua ambição, mas sim a sua operacionalização.

À medida que se intensificam as discussões sobre a Agenda Global Pós-2030, fica mais claro que o principal obstáculo ao sucesso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não foi a sua ambição, mas sim a sua operacionalização. Os dados do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas ajudam a clarificar este desafio e revelam uma transição incompleta entre reconhecimento conceptual e integração estratégica.

Entre as Grandes Empresas, a falta de conhecimento sobre os ODS diminuiu 44% ao longo de quatro anos, sinalizando uma consolidação da sua legitimidade. No entanto, a falta de conhecimento sobre como operacionalizá-los aumentou 19%, evidenciando que o desafio deixou de ser a compreensão e passou a ser a implementação. Em paralelo, a perceção de que os ODS são distantes da linguagem empresarial cresceu mais de 250%, e a percentagem de empresas que não identificam oportunidades de negócio aumentou 80%. Estes dados revelam um paradoxo: os ODS são hoje mais conhecidos, mas não necessariamente mais integrados nas estratégias empresariais.

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Nas PME, as principais barreiras estão associadas à falta de conhecimento e à escassez de recursos. Apesar de a falta de conhecimento geral sobre os ODS ter diminuído 36% e da perceção de ausência de oportunidades de negócio ter reduzido 57%, a dificuldade de operacionalização aumentou ligeiros 3%, mantendo-se como a principal barreira. Estes dados mostram que o desafio nas PME, além de compreender os ODS, passa por ter maior capacidade técnica e recursos para os operacionalizar e reportar de forma eficaz.

Este desafio foi ratificado nas entrevistas realizadas pelo Observatório, visto que algumas empresas reconhecem que, por não serem obrigatórios, os ODS foram por vezes relegados para segundo plano face a requisitos regulatórios. Esta realidade pode, contudo, mudar. A emergência de novos enquadramentos, como os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) (que foram mantidos mesmo diante da aprovação das alterações propostas no pacote Omnibus I a 26 de fevereiro), torna os ODS integrados nos "frameworks" obrigatórios, sendo possível um alinhamento fácil e eficaz. O Observatório já iniciou a sua contribuição para este processo. O Relatório do Ano 4, a ser apresentado a 20 de março de 2026 na Católica-Lisbon, inclui ferramentas práticas que permitem às empresas mapear os ODS com os ESRS.

Neste contexto, a Agenda Pós-2030 há de ser redefinida tendo, entre outros, o foco de refletir sobre a capacidade de integrar os objetivos existentes nos sistemas de decisão empresarial. O sucesso da nova agenda global dependerá da tradução de princípios globais em métricas, incentivos e obrigações concretas. Assunto que, por sua vez, também será tratado no referido evento.

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É com esta ambição que o novo ciclo do Observatório (2026–2029) procurará levar a voz do tecido empresarial português às discussões internacionais sobre a nova Agenda Global, junto das Nações Unidas. O futuro sucesso dos ODS depende da forma como são operacionalizados e integrados estrategicamente pelas organizações, tornando-se uma verdadeira infraestrutura de decisão estratégica.

O papel crucial das empresas é acompanhado por uma legitimidade crescente: segundo o Edelman Trust Barometer, as empresas são desde 2021 a instituição em que as pessoas mais confiam para agir de forma competente e eficaz, superando governos e media. Esta confiança reflete uma expectativa clara de liderança por parte das empresas. Afinal, num contexto em que 74 das 100 maiores economias mundiais são empresas, são elas que determinarão, em grande medida, o impacto real da próxima Agenda Global.

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