Egoli ou cidade do Ouro
Gerba abre o sorriso de menino vestido de corpo adulto e diz, sem hesitar, que um dia será presidente de Angola «mas não vou ser corrupto! Prometo!». O angolano «reside» diariamente no Centro de Língua Portuguesa de Joanesburgo, apesar de já não ser aluno lá.
Daqui a um ano conclui a licenciatura em Relações Internacionais e aquele casulo de afectividade lusófona, é a sua bóia de salvação diária na selva da competição globalizada a que a África do Sul não escapa.
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A professora abre-lhe os braços e a asa protectora, trocando palavras em português por sorrisos, um sentimento de família que ali se constrói numa lógica irresistível. Telúrica. «A Ana é muito mais que nossa professora, é uma segunda mãe» - afirma a Ariana, uma croata aciganada, com um sorriso de girassol sempre arredondado na cara bonita.
Ana Van Eck nasceu em Angola e foi daquelas que há 30 anos foi empurrada para fora dos cheiros da terra que ainda a agarra, pelo desvario de três movimentos anti-coloniais que trocaram o sonho de independência pela sede de poder.
Aquela sala, aninhada no terceiro andar da maior universidade africana, é muito mais que um espaço pedagógico convencional. Ali, todos são benvindos e se sentem parte de uma viagem onde a língua é o bilhete de comunhão.
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Ali, não há rivalidades e distâncias entre tugas, brazucas, moçambicanos, angolanos, cabo-verdeanos, são-tomenses, timorenses ou outros «enses». Lutam numa sociedade anglo-saxónica onde a lusofonia está longe de ser galão de prestígio.
Ana não quer se tratada por doutora nem «stora», porque na lógica da vida, a urgência é de pontes e não de distâncias e a segurança de quem dá de coração, não precisa de umbigos académicos.
Gerba insiste - «Está bem Doutora Ana?eu não a trato por doutora. Mas olhe, doutora, amanhã sempre posso vir logo de manhãzinha ver os «sites» de Angola na net?». E o sorriso, malandro, contagia todos à sua volta.
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«Isto aqui parece as Nações Unidas» - repara o repórter de imagem que me acompanha nesta sua primeira viagem profissional ao continente africano. Eu diria, antes fossem assim, as Nações Unidas, porque ali a Ana vai-os despindo das roupas que os dividem, dos silêncios que os separam, da incomunicação que nos divorcia.
Aquele, é um espaço onde todos se orgulham de todos. Até mesmo dos que se aventuram naquela família lusófona, como a Akhona, uma negra sul-africana de etnia Xhosa, que fez do Centro uma segunda casa. «Eu quero ser Embaixadora da África do Sul em Portugal» - articula ela, num português tacteado mas perfeito. Antes de travar a língua na timidez de tropeçar em virgulas gramaticais.
Hoje foi um dia especial. Houve visita de um membro do governo português e todos se vestiram a rigor, com camisas do Centro, para o receber. O fazer sentir ali, em casa, invertendo a lógica dos papéis.
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Quando a comitiva oficial sai eles despem a «farda» e a pose contida e regressam ‘a órbita da Ana, onde tudo é seguro e faz sentido. Lá fora, a cidade adormece na escuridão da noite fria de Inverno.
A maioria vive nas zonas mais pobres da Egoli (Cidade do Ouro na língua Xhosa), onde o crime é companhia diária, agravada após o pôr-do-sol. A Ana preocupa-se com isso. Distribui-lhes recomendações, cuidados e carinhos, na língua de Camões. E eles sentem-se família. Porque o são.
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