Eu empreendo, tu empreendes, ele…
Portugal é o país que mais gasta, por pessoa, nesse jogo. Símbolo de um país sebastianista, que acredita na sorte e espera que as soluções caiam do céu. Símbolo e sina?
Portugal que, num inquérito internacional, se posiciona muito bem entre os países nos quais as pessoas demonstram mais vontade em ter uma actividade autónoma. Apetência pelo empreendedorismo, dizem alguns estudos internacionais. Os mesmos que, depois, confirmam uma baixíssima taxa de concretização daquele desejo. Bazófia?
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Portugal onde o Governo se propõe ajudar, muito, os alunos a não reprovarem. Começa de pequenino. Infantiliza. Habitua na dependência. Como será, mais tarde, na vida?
Portugal que se predispõe a pagar mais para se ver livre, perdão, ajudar a repatriar imigrantes. Em Israel preocupa-os o decréscimo da taxa de imigração. Por lá estão habituados a dar-lhes espaço para expressar as suas competências, certos de que o acto de migrar identifica capacidade de iniciativa. Por cá, quantos engenheiros, médicos, técnicos imigrantes aproveitámos?
Portugal onde aumentou exponencialmente o número de patentes registadas. A par com a subida no ranking europeu de despesas com a inovação, não são más notícias. Falta o teste ácido dos resultados, do mercado, da competitividade.
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Como se diz, isto está tudo ligado! Num contexto destes, empreender está fora… de contexto. Azar dos Távoras: logo agora que o empreendedorismo parecia a nossa nova tábua de salvação. Decretou-o o Governo, sob aplauso geral. Com a receita costumeira: dinheiro para cima do problema, agências públicas mobilizadas, muita conferência e discurso. Resultado? Muitos start-up angels (não confundir com business angels) que se perpetuam, suportados no orçamento. Muitos novos empresários: de prémios, de ideias e de notícias. Duas invenções por dia, duas! Expresso dixit. Resultados? Tenhamos calma.
Não obstante, muito mudou. Embora falte quase tudo. Um quase tudo que é, sobretudo, a afirmação do primado do privado e das elites no processo de empreender. Um processo difícil, tanto mais quanto os sectores mais internacionalizados são dominados por PME e liderados por empresários, competentes no que fazem, de quem não se pode esperar grandes ondas de inovação. Daí o papel das elites, empresariais e da gestão, até agora incapazes de traduzir para os negócios o cosmopolitismo que apregoam na vida social. Bazófias à sua maneira? É que já ninguém acredita que a legislação laboral, os impostos e a burocracia tudo impeçam.
As experiências de outros países devem ser sempre lidas com cuidado. Por causa da história, da cultura, do contexto tantas vezes específico. Israel será o pior ou o melhor exemplo. Odiado e amado. The Start-Up Nation título de livro com fundamento: de longe o país com mais start-ups per capita. A dificuldade a aguçar o engenho. Tudo ligado: o serviço militar, o ensino, a criação de elites. A diplomacia económica feita pelos privados. A direcção, por gestores profissionais e experientes, das unidades de transferência de tecnologia das universidades. Orientadas, por isso, para a resolução de problemas e para o mundo, não apenas enquanto mercado mas também enquanto origem de parceiros e de fontes de financiamento. A recomendar um maior (outro?) papel à COTEC, enquanto fórum agregador da elite de empresários e gestores? A desafiá--los e às grandes empresas para um outro activismo cívico e económico, quando ele é necessário (when the going gets tough, the tough get going). A requerer um esforço de articulação e gestão das redes internacionais de actores (políticos, empresários, gestores, académicos, artistas) com ligações, por nacionalidade ou afinidade, a Portugal.
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Israel evidencia a força da vontade, da determinação. The little nation that could. É isso que nos falta. Acreditar. Mais do que tempo. "Teremos tempo, se tivermos alma" (D. Manuel Clemente).
Professor da Universidade Católica (Porto). Coluna quinzenal à terça-feira
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