Henrique Bandeira Vieira
Nem sempre, na vida, reconhecemos devidamente a dimensão daqueles com quem trabalhamos. E, um dia, essas pessoas desaparecem e de repente os olhos abrem-se e damo-nos conta das oportunidades que perdemos de conhecer e de aprender com quem, infelizmente, já nos deixou.
Trabalhei 50 anos ao lado do Henrique Bandeira Vieira. A amizade e o prazer de estarmos juntos simplificavam as coisas complexas e banalizavam aquilo que no fundo, visto de agora, eram experiências únicas e irrepetíveis. O Henrique foi para muitos, e para mim, uma referência sobre a qual reflicto agora. Em três palavras: a competência, o trabalho e a honestidade.
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Trabalhador sem medida, metódico, de escuta sistemática e de decisão rápida. Gentileza, educação, preocupação pelo outro, teimosia nos objectivos, tornavam o trabalho, para quem fazia parte da sua equipa, um prazer. Trabalhar em projectos de muitos "Bis", transportava a equipa para um mundo que parecia irreal, onde se esqueciam ambições, ciúmes e orgulhos pessoais, diante dos riscos com dimensão por vezes aterradora.
Conheci muitos homens e mulheres competentes. Muitos deles eram competentes e trabalhadores. Mas era a honestidade que marcava de forma rara a maneira de estar na vida do Henrique. Não falo da honestidade material isenta de corrupção sob qualquer forma, já que, apesar do ruído, ainda há, felizmente, nesse sentido, muita gente honesta. Falo da honestidade mais profunda, para além do que se costuma chamar a honestidade intelectual, aquela que é intrínseca porque atinge o homem todo. O Henrique era honesto assim. Quando dizia uma coisa não eram necessárias testemunhas, nem papéis, nem gravadores; podia-se enganar, como todos nós, mas não inventava justificações, nem desculpas. Um "shake hands" valia mais do que contratos, assinaturas, carimbos ou selo branco.
Confrontava presidentes e ministros de governos espalhados pelo mundo, sem subserviência nem receios, numa atitude de respeito e de escuta. Resistia sem subterfúgios a pressões ou pedidos que ultrapassavam a linha de demarcação da lei e da ética.
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Marcou-me a forte atitude de defesa da língua portuguesa, inscrita num sentimento pátrio discreto, mas profundo. A língua portuguesa era por ele abordada com um preciosismo quase maníaco, onde o estilo, a precisão dos termos, a pontuação e claro a ortografia tinham que ser vistos e revistos com meticuloso cuidado. Surpreendente para quem trabalhou quase toda a vida profissional em países estrangeiros tendo o francês e o inglês como as línguas de comunicação e de trabalho.
Veio um dia em que o convidaram para assumir o cargo de Presidente do Conselho de Administração da empresa recém criada que viria a ter o nome de Galp Energia. Objectivo: fazer a fusão da Gás de Portugal, e da Petrogal, reestruturar a nova empresa, encontrar um parceiro estratégico no mercado internacional. Experiência única, e em muitas coisas surpreendentemente diferente da experiência duma companhia de petróleos internacional. O caderno de encargos foi completamente cumprido e foi ultrapassado. A Galp Energia de companhia nacional vivendo pacificamente de um monopólio não explícito, mas real, à sombra de um Governo protector, adoptou, pela sua mão, o risco como motor do crescimento e deu o salto para a arena internacional da actividade de exploração/produção, alma e força das companhias de petróleo. O "offshore" profundo do Brasil trouxe à Galp o que lhe faltava e o valor da empresa foi multiplicado.
Vindo dum mundo onde a concorrência se joga ao mais alto nível deu-se conta que não tinha a experiência para jogar os jogos políticos de contornos partidários, nem os jogos dos interesses e das ambições pessoais. O que pressentiu afastava-o dos seus princípios éticos e isso foi o suficiente para sair. Nunca o vi tão desiludido.
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Agora, revejo a vida de um homem que foi sempre igual a si próprio, integro no mais pequeno detalhe, generoso, preocupado com a justiça, ambicioso nos objectivos, sem passar nunca por cima de ninguém, corajoso, competente e acima de tudo amigo. E a amizade (como a sabedoria) é o que fica quando tudo desaparece.
Engenheiro especialista na área dos combustíveis,ex-administrador executivo da Galp Energia
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