Pragmáticos e ideológicos
Agora, no próximo dia 30, Heloísa Helena deixa de ser senadora (salário de 12 800 reais mais uma série de regalias) e volta a dar aulas de epidemiologia na universidade de Alagoas (720 reais por mês).
Antes de mais nada, constate-se que, no Brasil, um professor universitário pode ter que trabalhar um ano e meio para ganhar o que um senador ganha por mês. Constate-se também que Heloísa Helena tinha uma reeleição praticamente garantida para o Senado quando preferiu dedicar-se ao fortalecimento do seu partido através do lançamento de uma candidatura presidencial que sabia, desde o início, perdida. Louve-se-lhe o espírito de renúncia.
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Heloísa Helena acredita no socialismo – socialismo mesmo, não a social-democracia que contaminou (e ainda bem!) a maior parte dos partidos ditos socialistas do mundo. E é em nome de ideias que, se aplicadas, levariam o Brasil à desgraça que Heloísa Helena abdica de si e se entrega à causa pública.
A ideologia deforma o pensamento, induz a erro e tem inspirado, ao longo da história, verdadeiras atrocidades. A crença – seja religiosa, seja ideológica – tanto é motor do mais santo altruísmo quanto das piores atrocidades (e nada impede que o altruísta seja também o atroz).
O pragmatismo, por sua vez, tende ao cinismo.
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O pragmático é antes de tudo um céptico, e o cepticismo contraria impulsos de generosidade.
Somos, os europeus em geral, governados pelos pragmáticos.
A política é monocromática. Não há encanto. Em compensação, sobra desconfiança. Os políticos são vistos como um bando de ambiciosos e a política, como mero instrumento do seu (deles) poder. A participação popular nas instâncias da democracia é minúscula, o espírito cívico torna-se, cada vez mais, uma extravagância. Isso é mau.
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Mas basta lembrar dos momentos mais marcadamente ideológicos da história recente de Portugal (Estado Novo e PREC) para cortar as asas a alguma sedução que se insinue por qualquer cor ideológica.
Os ideológicos são óptimos – trabalhadores, honestos, generosos – mas na oposição.
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PS: O jeep é da Câmara de Oeiras. O passeio é público. A cena não foi fortuita – arrisco-me a dizer que se repete todos os dias – e ilustra o cuidado que a Câmara de Oeiras tem com as crianças que vão a pé para a Escola nº 1, a 200 metros daí.
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