A Europa e a inveja
"Le Défi American", publicado em 1967, exprimia um sentimento de inferioridade relativamente aos Estados Unidos, comum na Europa à época. Escrito por Jean-Jacques Servan-Schreiber que dirigia, com Françoise Giroud, uma revista – L’EXPRESS – que empolgava a minha geração. Tive o privilégio de conhecer ambos, acidentalmente, no Insead, em Fontainebleau.
O livro incentivava a competir, a utilizar os métodos e reproduzir o esforço que tinha levado a América onde estava. Copiando, imitando se necessário, sem pejo. O autor, ele próprio, passou a usar como identificação JJSS, imitando um uso americano (Lembram-se do JR em Dallas?). E lançou uma enorme discussão sobre criar uma dimensão política na Europa. Falava mesmo com entusiasmo de uma moeda europeia (nunca se pode ter razão em tudo). Mas isso traduzia a determinação e energia de JJSS.
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A esmagadora superioridade americana no domínio económico, uma certa falta de jeito e uma justificada falta de paciência dos americanos para atender à sensibilidade melindrosa e carente dos europeus resultou para muitos, não tão dispostos a mobilizar energias, na crença de uma grande injustiça que nos atingia. Que nos deixava dependentes de gente sem a cultura, os princípios e a "finesse" que compunham a nossa civilização requintada. Elaborámos sobre todos os defeitos do seu modo de vida, da falta de história, da sua ignorância que presumíamos, dos seus interesses aparentemente limitados ao dinheiro. Na verdade, estávamos tentando justificar a nossa inveja.
Era claramente inveja. Uma inveja comum em maltratados pelo mundo injusto. Que premiara outros sem os nossos méritos. Para alguns, invejar a América ainda resiste ao passar do tempo.
A Europa foi ganhando dimensão e a União Europeia que absorveu todos os queixosos é hoje uma realidade económica e política de peso. A criação posterior de uma moeda europeia seria cumprir integralmente a ambição de se igualar em importância à América, competindo orgulhosamente também com o dólar como moeda de referência e de refúgio.
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Deu-se, entretanto, a reunificação alemã e entendeu-se (especialmente a França) forçar a Alemanha a participar na criação do euro. Era contrapartida da reunificação apoiada pelos Estados Unidos e, esvaziando as objecções da Grã-Bretanha e da França, serviria para manter aquele país integrado (e controlado) no sistema europeu. O que se seguiu, todos sabem. Os mercados financeiros, numa avaliação precipitada, assumiram a Europa como uma entidade real capaz de assumir compromissos. E dispensaram facilmente, em confiança, todo o crédito solicitado pelos países do euro. Todos tinham demonstrado equilíbrio financeiro – era um requisito - à entrada da zona euro.
Só com as dificuldades nascidas com o quase colapso do sistema financeiro americano, propiciado pela leniência das agências de "rating", e o contágio a alguns países da União se recuperaram os cuidados normais da actividade financeira. O "rating" deixou a sua mansidão e tornou-se severo na avaliação individual dos países. Alguns com endividamento elevado e a crescer a ritmo excessivo, outros com o sistema financeiro seriamente atingido, passaram de selectos membros de um próspero clube a tristes necessitados de ajuda. Condição na qual os mercados tipicamente passam de parceiros compreensivos com interesses comuns a frios e calculistas financeiros quando não a desapiedados especuladores.
A ajuda financeira a esses países foi condicionada ao cumprimento de programas que tinham como objectivo a consolidação fiscal, reduzindo as necessidades de financiamento do sector público, ao mesmo tempo que se apoiava o sistema bancário que fazia o seu próprio ajustamento para cumprimento dos rácios de capital.
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Mas a consolidação fiscal exige aumentos de impostos, ou reduções da despesa pública, ou uma e outra das coisas. Implicando sacrifícios que os cidadãos dos países em causa não aceitam de bom grado, eles que estavam, nas condições materiais de vida, aproximando-se já dos países ricos da Europa. Assimilando como seus os recursos que o seu país não tinha e que provinham de financiamentos externos, mesmo quando era o seu banco - nacional - que os propiciava.
Foi aí que os políticos que tinham conduzido os seus países a este estado começaram a falar de solidariedade. Escondendo responsabilidades. Separados os países do Sul em dificuldades dos do Norte, mais ricos, solidariedade significava aliviar os sacrifícios dos primeiros com recursos provenientes dos segundos. Ou então, com a assunção de responsabilidades em financiamentos além dos previstos nos programas de ajustamento. Tudo rejeitado pelos países alvo da solidariedade reclamada pelo Sul. E a tentativa de conseguir reduzir a austeridade, condição das ajudas, encontrou sempre uma barreira nos interlocutores dos países do Norte. Bem cientes de que não são os culpados dos dissabores por que passamos.
Novamente um certo número de países a sentirem-se inferiores na comparação e sobretudo dependentes de outros. Agora já não é a Europa dependente da América que "nem história tem". É meia Europa – a do Sul – dependente da metade Norte, cujos valores diferentes são bem representados pela Alemanha – que na Europa até tem história a mais, dispensável.
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Desta "injustiça" – assim sentimos – é natural que nasça o mesmo tipo de inveja. E claramente aconteceu. Muitos portugueses por exemplo, uma larga maioria, gostariam de ter as condições de vida e a segurança material dos alemães. Invejam tudo. Até os seus políticos – com razão. Quando podem, emigram, porque também invejam as oportunidades. A esta inveja se referiu o ministro das Finanças alemão, causando entre nós uma reacção exageradíssima, mesmo ridícula. Mas, da forma como reagimos, sem o querer, recuperamos a imagem de alunos numa escola, evocada pelo Sr. Schaeuble. Ficamos sendo na escola aquele que se queixa do coleguinha que lhe chamou nomes.
Se realmente gostaríamos de os emular – a inveja boa - e de ocupar com eles o lugar cimeiro de que desfrutam nada o impede. Reconheçamos "O Desafio Alemão" e preparemo-nos para muito trabalho. Lá chegaremos.
Economista
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