Luís Pais Antunes lpa@plmj.pt 16 de Março de 2016 às 19:17

Serviço ao público

Por razões profissionais, as duas últimas semanas "forçaram-me" a dividir o tempo e a atenção entre duas cidades que me atraem por motivos completamente diferentes. Falo de Londres e de Lisboa.

Pouco mais de duas horas de voo as separam, mas não é fácil encontrar semelhanças ou pontos de contacto. São mundos diferentes, para o bem e para o mal.

 

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Uma e outra podem orgulhar-se de fazer parte de um círculo restrito de cidades a que não se pode ficar indiferente e que chegam a ser quase imbatíveis nalgumas das coisas que oferecem a quem as visita (não há luz como a de Lisboa, nem classe e cosmopolitismo como os de Londres...). Mas as semelhanças ficam por aí. Em quase tudo o resto, o que numa existe em abundância, na outra peca por defeito. Nem o facto de se tratar de duas velhas capitais da "mais antiga aliança diplomática ainda em vigor" e de atuais Estados-membros da União Europeia as aproxima. Parecem duas cidades de dois continentes distantes, com visões diferentes do mundo e sobre o mundo. As notícias que lemos, vemos e ouvimos não são as mesmas, como o não parecem ser grande parte das preocupações do dia a dia. Mesmo quando falamos das mesmas coisas, o significado pode ser totalmente diverso. Um "belo dia" ou um "tráfego fluido" em Londres corresponde ao que em Lisboa chamamos de "tempo manhoso" e de "trânsito impossível"...

 

Se há realidade que pouco ou nada aproxima as duas cidades é o cuidado com que são tratados os espaços públicos. Londres pode parecer - e muitas vezes é - um estaleiro permanente. Mas os parques, jardins e canteiros, os passeios e as ruas estão - salvo raríssimas exceções - como se deles tivessem acabado de sair brigadas de jardineiros, cantoneiros e pessoal de limpeza. Exatamente o oposto do que acontece numa Lisboa que parece cada vez mais suja e descuidada em quase todos os seus bairros...

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Essa mesma diferença faz-se sentir cada vez mais na generalidade dos chamados "serviços públicos", sejam eles os transportes, a saúde, os serviços de emprego ou a rádio e televisão, para citar apenas alguns. Enquanto por cá continuamos a confundir a qualificação do serviço com a natureza pública ou privada de quem o presta, os londrinos - e os britânicos em geral - parecem muito mais preocupados com os benefícios dos destinatários, ou seja, dos cidadãos em geral.

 

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Enquanto por cá perdemos tempos intermináveis a discutir direitos e benefícios dos trabalhadores dos serviços públicos, se os horários de trabalho devem ser maiores ou menores, se as horas extraordinárias devem ser pagas "assim ou assado", por lá a atenção foca-se sobretudo no interesse dos beneficiários e na qualidade dos serviços que lhes são prestados.

 

Os "serviços públicos" - ou "serviços de interesse geral" - são uma grande conquista das sociedades modernas que deve ser defendida e preservada. Em nome daqueles a quem se destinam e dos que os pagam com o dinheiro dos seus impostos em proveito de todos, sem distinção. Mais do que público por natureza, o importante é que o serviço seja (bem) prestado ao público. Essa é a melhor forma de o preservar e defender.

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Advogado

 

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Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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