A previsão de Disney
Como se não bastasse este aumento dos preços dos combustíveis para desanimar os portugueses, agora vem a OCDE dizer-nos que a evolução do emprego não vai ser tão favorável como o Governo previa e que não vamos sentir ganhos nesta variável em 2009, que vai continuar acima da média da OCDE. É caso para dizer “Bolas! Só no que é mau é que estamos acima da média.” Mas não nos deixemos ir abaixo, que estas instituições internacionais também se podem enganar.
No fim de contas, quem sabe o que se passa cá em casa, nós ou estes estrangeiros que, como dizia o outro, nem sequer são da nossa terra?
Procurei então analisar quem merece mais credibilidade e quem se engana mais nas previsões, se os governos ou as organizações internacionais. Dei-me conta então dos trabalhos recentes de uma colega minha, a nórdica Havida Éhbella, que nos mostra uma realidade dividida. Diz-nos Havida que no mundo de hoje, fortemente mediatizado e onde as pessoas reagem em função das suas expectativas, os governos tendem a errar, pois adoptam um cenário optimista quando a economia ameaça recessão para melhorarem as expectativas e evitar uma queda acentuada. Por outro lado, num período de forte aquecimento também tendem a apresentar uma situação mais sombria, para não mandarem gasolina para cima do fogo. Erram na volatilidade, nos desvios à volta da média, embora acertem em média e mediana. Portanto, ao contrário do que muita gente diz, os governos de hoje não são voláteis, embora sejam medianos.
Todavia, as organizações internacionais não são melhores a prever. Menos actualizadas em informação e menos conhecedoras das realidades nacionais e do funcionamento das instituições, tendem a projectar em função do passado, sendo portanto auto-regressivas, como um condutor que guia o carro a olhar para o espelho retrovisor. Mais facilmente acertam na volatilidade, mas erram na média, que prevêem pior. Mais, como têm menos incentivo a acompanhar as economias pequenas, como Portugal, os seus erros são potencialmente maiores para estes países – o “small country bias”. Propõe Havida que se tome para previsão o valor de Éhbella, calculado como a média aritmética simples do logaritmo do que diz o primeiro ministro, a raiz quadrada da opinião da Comissão Europeia, o quadrado da previsão do Banco Central e a exponencial do que diz a oposição.
Temos, então, razões para desconfiar do que nos dizem uns e outros. Que podemos então concluir das previsões, de uma forma científica e com maior rigor? O israelita Ezu Mavergonhah lançou uma luz nova nesta matéria no seu livo “On Witches and Princes: a New Look at Fairy Tale Economics”. Considere-se uma economia em que o governo anuncia a previsão do desemprego. Admita-se que num momento posterior a OCDE anuncia ela também um valor para a mesma variável. Se este valor é igual ao do governo estamos em cima da linha a tracejado na figura, a bissectriz dos quadrantes ímpares. Nesta figura o valor anunciado pelo governo marca-se no eixo vertical e o da OCDE no horizontal. O ponto O (leia-se “Ó”) marca a origem das coordenadas.
Por outro lado, se o valor da OCDE é inferior, estaremos por exemplo no ponto p da figura (leia--se pi, letra grega), acima da linha a tracejado. Às economias que ficam acima da linha chama Ezu lebres, pois o desemprego está afinal abaixo do que o próprio governo previa, pois estão a crescer mais depressa. Porque prevê o governo menos desemprego? Porque, como explica Havida, a economia está a crescer depressa e o governo quer moderar as expectativas. Como há pouco desemprego, a linha O p (ler Ópi) é pequena. As economias que estão em cima da linha a tracejado são as tartarugas, pois arrastam-se – vão andando, mas não conseguem acelerar, isto é, andar mais depressa.
Temos finalmente as economias adormecidas, que crescem cada vez menos e onde o governo prevê desemprego abaixo do valor real para tentar criar expectativas mais favoráveis, o ponto p 1 da figura (ler pium). Mais, como o crescimento é fraco, o desemprego é elevado e é grande a distância entre O e o ponto p 1.
Este é o caso de Portugal, que está a crescer pouco há uns anos e onde o desemprego é elevado. Está explicado o nosso problema de crescimento: a economia portuguesa é uma economia adormecida, pois o Governo tem-lhe dado muito Op1.
Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando lhe perguntámos como se acorda uma economia adormecida, Frederico respondeu: “Walt Disney ensinou-nos que só há duas maneiras – ou com um beijo do Príncipe Encantado, ou nos acorda a Bruxa. E não me parece que, hoje em dia, o Príncipe encante muita gente.”
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