Yu Yongding | Domenico Lombardi 02 de Março de 2015 às 11:26

O momento da China no G-20

Em 2009, uma nova possibilidade foi apresentada ao mundo quando o G-20, o conjunto dos maiores países desenvolvidos e das principais economias emergentes, e que até então não tinha conseguido deixar uma marca significativa no cenário internacional, se reuniu em Pittsburgh para formular uma resposta à crise financeira mundial. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, consciente de que o G-7 já não poderia assegurar por si só a supervisão da economia mundial, liderou a cimeira que designou o G-20 como o principal organismo de coordenação da política económica mundial. Foi um ponto alto da liderança americana.

No próximo ano, outra super-potência mundial vai assumir a presidência do G-20 e organizar a cimeira anual. Embora previsivelmente a liderança da China venha a carecer do dramatismo da de 2009, não há dúvidas que o presidente Xi Jinping vai deixar a sua marca. E assim como contribuiu para a realização do Acordo Comercial Ásia-Pacífico durante a cimeira do Fórum de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico do ano passado, não vai certamente deixar passar a possibilidade de ajustar a agenda do G-20 aos interesses da China.  

 

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Claro, a pouco de se iniciar a presidência da Turquia do G-20, é provável que o presidente Xi não tenha definido ainda quais são as prioridades específicas. Mas já podem antecipar-se certas áreas potencialmente problemáticas.

 

A agenda do G-20 inclui aspectos que coincidem com algumas questões da economia nacional da China, especialmente em relação a infra-estruturas. No ano passado, os membros do G-20 concordaram em levar adiante uma iniciativa de infra-estrutura mundial destinada a facilitar o investimento e impulsionar o financiamento em matéria de projectos de infra-estruturas e, em particular, no âmbito das pequenas e médias empresas (PME).

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Esta iniciativa responde perfeitamente às necessidades da China, visto que as PME, que representam cerca de 85% dos novos postos de trabalho, estão chamadas a desempenhar um papel chave na nova estratégia de crescimento do país. Além disso, na cimeira deste ano já poderão registar-se avanços neste sentido, visto que a Turquia aposta nas PME como um instrumento chave para impulsionar um crescimento mais inclusivo.

 

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Mas acenam outras possibilidades relacionadas com as infra-estruturas. A China tem tentado colocar a Ásia em pé de igualdade com a América do Norte e Europa Ocidental, em termos de conectividade – em 2009, o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, nas siglas em inglês) estimou que o custo deste projecto ascenderia a oito biliões de dólares até 2020. A China, a única grande economia emergente da Ásia, que actualmente alcança o objectivo de gastos do ADB, poderia usar a sua presidência do G-20 para persuadir os seus vizinhos a investir mais nesta área.

 

O G-20 também pode oferecer à China a oportunidade de avançar num objectivo geopolítico chave: a reforma dos direitos de voto no Fundo Monetário Internacional. Talvez Obama seja o líder que previa o papel principal do G-20; mas os Estados Unidos têm mostrado uma clara reticência ao facto de que as potências emergentes exerçam sobre instituições multilaterais a influência que o seu crescente peso económico justifica e requer.

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De facto, o Congresso dos Estados Unidos negou-se sistematicamente a ratificar o pacote de reformas do FMI, acordadas em 2010, graças ao qual países como a China terão uma maior participação na tomada de decisões – esta postura favorece a Europa Ocidental, cujos membros são os mais beneficiados pelo status quo. Se a China promover activamente mudanças neste sentido durante a sua presidência do G-20, não apenas iria melhorar as suas próprias possibilidades de ter mais peso no FMI; também ganharia a favor de outras economias emergentes, que têm sido igualmente frustradas pela forma como os líderes americanos (e europeus) trataram esta questão.   

 

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Também há a possibilidade de que a China assuma a liderança noutra área dominada durante muito tempo pelos Estados Unidos e Europa: o sistema financeiro mundial. A China, onde o papel predominante do dólar americano é muitas vezes criticado por ter sujeitado as finanças mundiais a uma volatilidade desnecessária, poderia aproveitar a sua presidência do G-20 para reivindicar um papel mais preponderante dos Direitos de Saque Especiais (DSE) do FMI, considerados frequentemente como a única moeda internacional. 

 

Neste esforço, seria do interesse da China que o renminbi se juntasse ao conjunto de moedas que determinam o valor dos DSE. Evidentemente, no ano de 2011, o FMI rejeitou esta proposta, argumentado que o renminbi ainda não cumpria os critérios de uma moeda convertível de forma livre.

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Mas, ao mesmo tempo, o FMI não se mostrou inflexível e reconheceu que, visto que o DSE é fundamentalmente um activo de reserva, as moedas que lhe estão subjacentes apenas precisam de estar disponíveis em "mercados suficientemente líquidos e profundos". E, ao longo dos últimos anos, as autoridades da China têm gradualmente diminuído o controlo da conta de capital, o que permitiu que o renminbi se tornasse a quinta moeda mais popular para a liquidação de pagamentos internacionais. Com pelo menos 60 bancos centrais a incluir actualmente o renminbi entre as suas reservas cambiais, o próximo ano pode ser o momento ideal para que a China promova o seu objectivo de longo prazo de reforma do sistema monetário internacional.

 

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Ao mesmo tempo, a China pode continuar a impulsionar mudanças na dinâmica da regulação das finanças internacionais. As economias do G-7 – que, sem surpresa têm ditado as normas internacionais nos últimos 20 anos – raramente têm hesitado em nomear e acusar as economias emergentes pelo seu incumprimento das normas internacionais.

 

Embora o regime de regulação interno da China continue sujeito a importantes restrições, os líderes chineses podem utilizar a cimeira do G-20 como plataforma para introduzir uma nova perspectiva, destacando o facto de que os Estados Unidos e Europa não conseguiram cumprir as suas agendas de regulação. Se, de alguma forma a China puder obriga-los a cumprir com as mesmas, isso beneficiaria consideravelmente o país – e não apenas em ternos da sua reputação internacional. Com uma economia orientada para a exportação e a maior acumulação de reservas cambiais do mundo, sem mencionar o carácter conservador do sistema financeiro, a China está exposta à volatilidade económica e financeira internacional.

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É provável que a China não alcance todos os seus objectivos no próximo ano. Mas, se jogar bem as suas cartas, poderia fazer muito para aumentar a sua influência a nível internacional, ao mesmo tempo que incrementa a estabilidade económica e financeira mundial. A reflexão sobre as suas possibilidades de acção deverá manter bastante ocupados os líderes da China nos próximos meses.

 

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Yu Yongding, ex-presidente da China Society of World Economics e director do Institute of World Economics and Politics na Academia Chinesa de Ciências Sociais, trabalhou no Comité de Políticas Monetárias do Banco Popular da China de 2004 a 2006. Domenico Lombardi é director do Programa de Economia Global no Center for International Governance Innovation.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.

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www.project-syndicate.org

Tradução: Raquel Godinho

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