A bola e a bolsa
No balanço do sobe e desce das cotações há vencedores que já arrecadaram mais-valias com a especulação. E, no entanto, nem um cêntimo entrou nos cofres da SAD, que continua financeiramente tão apertada como estava antes de o jogo da bolsa se ter tornado mais importante do que o jogo da bola.
A situação tem muito que se lhe diga, mas não constitui grande novidade para o emblema da águia ou para os seus concorrentes. No futebol, os adeptos estão habituados a ver muita gente enriquecer na periferia dos clubes, enquanto estes não conseguem descolar do limiar da insolvabilidade. Ironicamente, sendo os principais responsáveis pelo que realmente é essencial num espectáculo que movimenta somas chorudas, acabam por ser o patinho feio de um sector que vive e prospera por conta dos sucessos e fracassos registados na frente desportiva.
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O craque que, depois de contratado, entra em campo e não consegue rematar de forma certeira pode representar um mau investimento para a SAD. Mas isto está longe de significar que não tenha constituído uma boa aposta para quem o transaccionou. Na repartição do saldo final, os ganhos ficam do lado de fora, enquanto os prejuízos ficam assinalados nas contas do clube. É desta forma, e também por causa da acumulação de desequilíbrios sucessivos na gestão corrente, que as empresas desportivas vão coleccionando passivos para os quais não se vê solução que não passe pela alienação de património ou pela aposta arriscada na venda de um jogador que há-de salvar a época, pelo menos no sempre periclitante plano financeiro.
Há investidores interessados em adquirir posições relevantes nos principais clubes portugueses, a começar pelo Benfica que, nas últimas semanas, tem estado na berlinda? Pode ser que sim. E até fará sentido que um país que se tornou em campo de recrutamento de alguns dos mais vistosos talentos da modalidade seja encarado como uma terra de oportunidades. No caso dos "encarnados", até se aceita que a sua elevada popularidade justifique as expectativas de quem procure nos eventuais feitos alcançados em campo, o meio para obter rendibilidades competitivas em comparação com investimentos alternativos. Mas aquilo a que se vai assistindo parece pouco, para quem acredite que o futebol português precisa de mais racionalidade na gestão.
As explicações adiantadas por Joe Berardo para lançar uma oferta pública de aquisição sobre a SAD do Benfica podem fundamentar-se nas melhores intenções, mas o que se ouve e lê são ideias soltas que parecem ter como primeiro objectivo caírem como mel na sopa dos adeptos. Num dia vai surgir um fundo de investimento bem recheado com os milhões necessários à constituição de uma equipa de luxo. No dia seguinte vai ser lançado um banco que, sendo um dos negócios mais lucrativos do mercado português, coloca as mentes mais sugestionáveis a sonhar com o regresso dos tempos de glória.
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Chega, agora, a notícia de que investidores chineses também querem entrar na dança, dispostos a lançar uma OPA que, para já, é uma mão cheia de nada. Para além da matéria que a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários tem a obrigação de tirar a limpo, tudo parece ser mais do mesmo. Antes, havia os dirigentes que, sem condições para o fazer, anunciavam contratações estonteantes. Agora, há ofertas de aquisição a serem anunciadas sem qualquer noção das responsabilidades sobre o que são as mais elementares regras do mercado de capitais. A presença das SAD na bolsa dá outro estilo mas a táctica permanece a mesma: meia-bola e força.
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