Entre o passado e o presente

Falando de dois períodos muito importantes na nossa história do século XIX, Vasco Pulido Valente acaba também por falar dos nossos dias.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 30 de junho de 2018 às 17:00

Vasco Pulido Valente
O Fundo da Gaveta
D. Quixote, 231 páginas, 2018
O início do século XIX é um dos períodos mais fascinantes da História de Portugal. Até porque é um quadro no qual podemos descobrir muitos dos fantasmas que ainda hoje continuam a assombrar o nosso país. As invasões francesas, nos primeiros anos desse século, levaram a que as decisões passassem a ser tomadas em Paris e em Londres e não em Lisboa. O país divide-se entre os adeptos do modelo constitucional britânico e os que advogam a nossa natureza "afrancesada". Como corolário, nasce o Reino Unido de Portugal e do Brasil, criado em 1816, e com capital no Rio de Janeiro. Sente-se que a sede da Corte e das decisões é o Rio de Janeiro e não Lisboa.
A exaltação patriótica, contra Beresford, o oficial britânico que efectivamente governa Portugal, é a fonte de um novo nacionalismo, criado nas cinzas dos antigos colaboracionistas com os franceses. Surge então o motim de Gomes Pereira Freire de Andrade, em 1817, ponto de partida para a revolução de 24 de Agosto de 1820. Todos estão contra a dependência do reino face ao Brasil. Mas, nesse momento, Portugal já não é um império real: é periférico e dependente. O vintismo será um passo rumo ao difícil convívio entre Lisboa e Rio de Janeiro: os caminhos estão, desde então, irremediavelmente separados. Afinal, os interesses britânicos irão preferir apoiar o separatismo brasileiro, concretizado no grito do Ipiranga de 7 de Setembro de 1822, pouco antes de entrar em vigor a Constituição portuguesa de 1822, a 23 de Setembro.
Vasco Pulido Valente, com a sua conhecida escrita da "escola britânica", recupera esse período conturbado e as consequências dessas movimentações, com a tentativa de regresso do absolutismo (via D. Miguel) e a irremediável separação entre Portugal e Brasil.
A segunda parte deste livro, que às vezes se lê como um romance, é dedicada à tentativa de modernização de Portugal entre 1864 e 1870, atitude meritória, mas que acabaria por estar condenada a um fracasso anunciado.
O mais interessante em toda esta história é que, muitas vezes, encontramos nestes tempos descritos por Pulido Valente várias semelhanças com as situações actuais, como se tudo neste país se voltasse a escrever da mesma maneira. Atente-se: "Entretanto, não conseguiram dominar o défice ou consolidar a dívida flutuante. No ano fiscal de 1865-1866, o défice excedeu o previsto por Lobo d'Ávila, que à época, a fusão considerava aberrante. Em 1866-1867, chegou a 8.000 contos, que se levantaram, em subscrições internas, nas praças de Lisboa e Porto, com os inconvenientes conhecidos. E os remédios que Fontes, em Janeiro de 1866, recomendava para equilibrar as contas não se distinguiam nem pela originalidade, nem pelo realismo: activar a cobrança dos impostos, simplificar os serviços, reduzir as aposentações, jubilações e reformas".
As lógicas de consenso (a fusão) eram descritas por Rodrigues Sampaio: "A época é de fusão, o que significa que a época é de fraqueza, e que na união se procura a força". Onde é que já ouvimos isto em tempos mais recentes? Vasco Pulido Valente, falando sobre o século XIX, fala também sobre os dias de hoje. 

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