O objetivo da indústria cimenteira nacional é simples: atingir a neutralidade carbónica até 2050. Os passos para conseguir cumprir esta missão estão a ser dados, porém os desafios são enormes. Cevat Mert, CEO da CIMPOR, afirma que o setor cimenteiro português “está no caminho certo”. Todavia, alerta, esse caminho não está isento de dificuldades nem é exequível sem CCS e CCU – Captura e Armazenamento de Carbono e Captura e Utilização de Carbono, respetivamente. “O setor tem feito e está a fazer progressos relevantes, mas enfrenta emissões de CO2 inevitáveis associadas ao processo, isto é, ao calcário que é utilizado como matéria-prima, cuja eliminação exige a adoção de tecnologias disruptivas, como as referidas. Chegaremos lá, não tenho dúvidas, mas vai ser necessário investir bastante, algo a que o setor já está habituado, e, também, criar o quadro político geral para que estas tecnologias vejam a luz do dia, o que já está a acontecer noutros países europeus”, informa.
Nesse sentido, o setor do cimento fez um roteiro, publicado em 2021. Cevat Mert faz um balanço positivo do roteiro, que considera “tecnicamente sólido e realista”, alinhado com as orientações europeias e com o roteiro da Cement Europe. Segundo o responsável do grupo cimenteiro multinacional, o documento identificou corretamente eficiência energética, combustíveis alternativos e CCUS (Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono) como pilares. “O desafio tem sido passar do planeamento à execução, mas está a ser feito dentro do previsto, no que diz respeito à primeira fase do caminho, até 2030. A fase pós-2030 requer, também, o envolvimento de terceiros, isto é, indústria, operadores de infraestruturas e governo”, esclarece.
Quadro regulatório estável e previsível
O CEO da CIMPOR explica que assim o é porque ainda nos continuamos a debater com um elevado nível de incerteza a nível europeu e internacional, barreiras por falta de quadro regulatório para as tecnologias CCS/CCU, falta de programas de financiamento e de mecanismos de mitigação do risco associados às novas tecnologias, e processos de licenciamento complexos e demorados que retardam a ação. “Para que esta transição seja bem-sucedida, é essencial que as empresas disponham de um quadro regulatório estável e previsível, que lhes permita planear investimentos avultados de longo prazo, com um mínimo de garantias, e, simultaneamente, manter a sua competitividade global”, alerta. O funcionamento eficaz do CBAM (Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço) é um aspeto muito importante para a realização dos investimentos necessários. Contudo, prossegue o CEO, “a descarbonização não pode ser apenas um exercício regulatório; deve ser acompanhada por uma política industrial europeia ativa, que apoie a inovação, a criação de infraestruturas comuns e a retenção de capacidade produtiva na Europa”.
CIMPOR está a adotar tecnologias maduras
Para cumprir o roteiro, há trabalho que já foi feito e trabalho que está por fazer. Neste momento, a CIMPOR está a concentrar-se na adoção à escala de um conjunto alargado de tecnologias já maduras. Esse será o caminho da empresa, até 2030, consubstanciado em grandes investimentos industriais de mais de 230 milhões de euros que está a realizar, sobretudo, em Alhandra e Souselas. “Estamos a falar de um forte aumento do uso de combustíveis alternativos com frações importantes de resíduos de biomassa, da melhoria contínua da eficiência energética, da redução do teor de clínquer nos cimentos com o investimento nas argilas calcinadas para substituir o clínquer, no desenho de uma nova carteira de cimentos que até 2030 estará fortemente descarbonizada, aproveitando as possibilidades das atuais normas”, conta Cevat Mert.
O responsável aponta igualmente a aposta em energias renováveis e na recuperação de calor residual de processo para produção de energia elétrica, na instalação de baterias para armazenamento de energia elétrica, no investimento em I&D, ou seja, novos tipos de clínquer e cimento, e, no caso concreto do CCS, estudo e avaliação de algumas soluções de captura de CO2. A CIMPOR está também a preparar as suas unidades para a futura utilização de hidrogénio verde e biometano, mas, de momento, “os custos ainda continuam incomportáveis”.
Quanto ao trabalho que está por fazer, Cevat Mert diz que “falta a implementação de tecnologias de carácter mais disruptivo como o CCS/CCU e, bastante mais difícil, a eletrificação completa do processo de produção de clínquer”, na qual a empresa já está a trabalhar. “Concentrando-nos, agora, no primeiro aspeto, aquele que nos levou à realização do PT Carbon Link, a nível setorial e convidando outras indústrias hard-to-abate, é preciso desenvolver à escala industrial a captura de CO2, criar infraestruturas de transporte e armazenamento, garantir soluções maduras para resolver o problema das inevitáveis emissões de processo”, explica. Todas estas lacunas não são apenas tecnológicas, mas também infraestruturais e regulatórias. “Só faz sentido trabalhar na captura de CO2 se houver garantias de que teremos soluções concretas para armazenar o CO2 capturado”, realça.
E será que a conferência PT Carbon Link – organizada peça ATIC – Associação Portuguesa de Cimento, da qual a CIMPOR faz parte – ajudou no objetivo de desenvolver à escala industrial a captura de CO2, bem como em criar infraestruturas de transporte e armazenamento, para resolver o problema das emissões de processo? “A conferência foi determinante ao pôr o tema do transporte e armazenamento de CO2 no centro da agenda política, mostrando que a descarbonização da indústria exige infraestruturas partilhadas e soluções sistémicas”, responde Cevat Mert, para quem houve “sinais muito positivos” dos dirigentes políticos presentes na iniciativa, no sentido de ser criado um caminho para a indústria nacional na adoção destas tecnologias. “E tudo faremos para não defraudar agora as expectativas. Já estamos a trabalhar nas próximas etapas”, afiança.
O CEO da CIMPOR destaca ainda a presença na PT Carbon Link, no fim de janeiro, da ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, e do ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, pois demonstra que “o Governo reconhece a urgência do tema e está mais sensibilizado para criar condições para infraestruturas de transporte e armazenamento de CO2 em Portugal”.
Europa: tecnologia e infraestruturas próprias
Outro tema constantemente presente neste setor é o quadro regulatório na Europa, que é mais exigente do que fora do espaço europeu. Cevat Mert reconhece essa realidade, a qual “cria desvantagens competitivas de curto prazo face a outras geografias”. No entanto, recorda mecanismos como o CBAM, que procuram reequilibrar essa diferença, desde que sejam aplicados de forma eficaz e previsível. “É preciso enfatizar a necessidade de soluções europeias. Mais do que competir com outras geografias em termos de desregulação, a Europa deve diferenciar-se pela capacidade de criar soluções tecnológicas e infraestruturas próprias, que conciliem ambição climática com competitividade económica num quadro de previsibilidade das políticas. A descarbonização da indústria é um trabalho conjunto da indústria, operadores de infraestruturas (algumas utilities) e Governo. A descarbonização da nossa economia é um trabalho conjunto”, sublinha.
Não obstante, será que as regras que existem na Europa podem levar à deslocalização da indústria cimenteira para outros continentes? “Existe esse risco se a transição não for gradual e acompanhada de investimento”, responde o CEO da CIMPOR e prossegue: “A Europa deve manter a ambição climática, mas evitar erros do passado, garantindo previsibilidade regulatória e apoio à indústria, ao contrário do que aconteceu no setor automóvel.”
Cevat Mert conta que a atual política industrial norte-americana, por exemplo, tem procurado atrair investimento europeu através de incentivos económicos e de um enquadramento regulatório mais flexível e, até, de redução do nível de proteção ambiental. A União Europeia, mantendo uma maior ambição climática, que parece ao CEO ser a correta, deve, por outro lado, “assegurar que a descarbonização da indústria é acompanhada por instrumentos de previsibilidade regulatória, apoio ao investimento e desenvolvimento de infraestruturas comuns”. “Só uma transição faseada, tecnicamente sustentada e economicamente viável permitirá preservar a base industrial europeia e evitar efeitos adversos de deslocalização, como os observados recentemente noutros setores industriais, como o exemplo da indústria automóvel. Não podemos cair em exageros e ritmos impossíveis de cumprir”, conclui.