O antigo bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, sublinhou ainda a importância da credibilidade, do rigor e da relação com anunciantes e leitores para preservar a liberdade de imprensa e a qualidade da democracia.
Na 4.ª edição do Top 30 Anunciantes da Medialivre, o keynote speaker José Miguel Júdice, árbitro internacional e antigo bastonário da Ordem dos Advogados, deixou uma mensagem inequívoca sobre o papel da comunicação social nas sociedades democráticas. Na sua intervenção defendeu que a liberdade de imprensa não é apenas um pilar da democracia, mas a sua própria origem. “A liberdade de imprensa está na origem da democracia. No dia em que não houver liberdade de imprensa, acaba a democracia”, sustentou.
Para José Miguel Júdice, esta é uma responsabilidade permanente e exigente, que não recai apenas sobre os jornalistas, mas que sem eles simplesmente não pode existir. “Sem jornalistas, não há nada”, sublinhou, reconhecendo o peso e a exigência que esta função implica numa sociedade cada vez mais exposta à desinformação e à fragmentação do espaço público.
Uma indústria sob pressão desigual
No centro da sua reflexão esteve a sustentabilidade dos media num contexto de concorrência profundamente assimétrica. A chamada legacy media, na qual se insere a Medialivre, opera enquanto indústria regulada, sujeita a códigos deontológicos, escrutínio permanente e regras de boas práticas. Em contraste, as plataformas digitais e as redes sociais concorrem praticamente sem regulação, criando um mercado desequilibrado e propenso a práticas de concorrência predatória. “Os media são uma indústria. Podemos não gostar de o ouvir, mas são”, destacou. E como qualquer indústria, enfrentam riscos constantes num ambiente de rápida transformação tecnológica.
“As indústrias que não se adaptam à evolução morrem”, alertou, recordando exemplos históricos como a Kodak ou a IBM, outrora líderes incontestáveis nos seus setores. A regra, segundo Júdice, é simples e implacável: “Não sobrevivem os maiores, os mais fortes ou os mais ricos. Sobrevivem os que melhor se adaptam.”
A pressão tecnológica intensifica este cenário. Plataformas globais como o YouTube e a Netflix estão a invadir o território tradicional dos media, disputando audiências, publicidade e até o espaço informativo. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial e os motores de pesquisa estão a reduzir drasticamente o tráfego para os sites noticiosos, fragilizando ainda mais o modelo económico da imprensa profissional. Para José Miguel Júdice, este conjunto de fatores cria um ambiente particularmente hostil para os media regulados, que competem em condições manifestamente desiguais. A consequência é uma pressão crescente sobre a sustentabilidade económica do jornalismo, num momento em que o seu papel público se torna ainda mais relevante.
Desinformação e confiança em erosão
José Miguel Júdice chamou ainda a atenção para os sinais claros de erosão da confiança nas notícias. Em Portugal, a preocupação com a desinformação é elevada e superior à média global, enquanto os níveis de confiança nos media têm vindo a cair de forma consistente ao longo da última década. Esta quebra é particularmente acentuada entre os públicos mais jovens, que recorrem cada vez mais às redes sociais como principal fonte de informação. “Estamos a viver uma crise de confiança que não pode ser ignorada”, alertou o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, sublinhando que este fenómeno tem impactos diretos na qualidade da democracia e na coesão social. Neste contexto, a imprensa profissional continua a desempenhar um papel insubstituível, precisamente por assentar em critérios de verificação, responsabilidade e independência. No entanto, para cumprir essa função, precisa de sustentabilidade económica. E é aqui que entram os anunciantes.
Relação simbiótica com os anunciantes
Existe uma relação simbiótica entre a imprensa profissional e quem investe em publicidade, segundo José Miguel Júdice. Longe de ser apenas uma transação comercial, esta relação envolve uma associação de prestígio, credibilidade e confiança. “Os produtos anunciados beneficiam do prestígio, da credibilidade e do rigor do meio em que são inseridos”, declarou. Essa associação influencia a perceção dos consumidores e não é facilmente replicável em ambientes desregulados ou altamente polarizados.
A credibilidade do suporte mediático é, neste sentido, um ativo económico relevante para as marcas. O risco de bias excessivo e de afastamento dos consumidores é, na sua perspetiva, real e crescente. Quando os media deixam de refletir as preocupações e sensibilidades da sociedade, acabam por empurrar públicos e investimento para as redes sociais, com consequências diretas na sustentabilidade do setor e nos próprios anunciantes.
Catarina Pádua, diretora de marketing do grupo Vila Galé.
“A credibilidade do suporte influencia a perceção do produto”, salientou o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, alertando para os efeitos reputacionais que decisões de comunicação mal avaliadas podem ter no médio e longo prazo. A confiança, uma vez perdida, é difícil de recuperar, tanto para os media como para as marcas.
A Medialivre como exemplo de adaptação
José Miguel Júdice foi explícito ao apontar o grupo da Medialivre como um caso de adaptação bem-sucedida no panorama mediático nacional. “Se não achasse que assim era, não teria aceitado este convite”, frisou.
Na sua leitura, o sucesso da Medialivre resulta de uma atenção constante a dois fatores essenciais para qualquer indústria: consumidores e fornecedores. “A comunicação social muitas vezes esquece- se dos leitores, mas a Medialivre sempre apostou em estar em sintonia permanente com quem compra os jornais e assiste à televisão”, destacou. Essa capacidade de adaptação à realidade do país é, segundo Júdice, um dos segredos do crescimento e consolidação do grupo Medialivre num contexto particularmente desafiante para os media tradicionais. Ouvir o público, compreender as suas expectativas e dialogar com os anunciantes são condições indispensáveis para a sustentabilidade do jornalismo profissional.
Adaptar para sobreviver
A concluir, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados deixou um aviso claro: a legacy media não está condenada, mas a inércia pode ser fatal. A sobrevivência da imprensa livre exige adaptação contínua, diálogo com anunciantes e consumidores, e preservação da independência editorial. “Sem a ajuda dos anunciantes e sem uma relação de confiança entre todos os stakeholders, a imprensa livre não sobreviverá”, rematou José Miguel Júdice.
O caminho passa por apostar na adaptação, na credibilidade e na cooperação. Só assim a imprensa profissional continuará a desempenhar o seu papel essencial na democracia como um pilar indispensável de sociedades livres e informadas.