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Top 30 Anunciantes 2026

"Sem liberdade de imprensa acaba a democracia”

No evento Top 30, José Miguel Júdice alertou para os riscos que a concorrência desregulada das plataformas digitais representa para a sustentabilidade da imprensa livre.

29 de Janeiro de 2026 às 11:45
José Miguel Júdice discursa sobre liberdade de imprensa
José Miguel Júdice discursa sobre liberdade de imprensa CStudio

O antigo bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, sublinhou ainda a importância da credibilidade, do rigor e da relação com anunciantes e leitores para preservar a liberdade de imprensa e a qualidade da democracia.

Na 4.ª edição do Top 30 Anunciantes da Medialivre, o keynote speaker José Miguel Júdice, árbitro internacional e antigo bastonário da Ordem dos Advogados, deixou uma mensagem inequívoca sobre o papel da comunicação social nas sociedades democráticas. Na sua intervenção defendeu que a liberdade de imprensa não é apenas um pilar da democracia, mas a sua própria origem. “A liberdade de imprensa está na origem da democracia. No dia em que não houver liberdade de imprensa, acaba a democracia”, sustentou.

Para José Miguel Júdice, esta é uma responsabilidade permanente e exigente, que não recai apenas sobre os jornalistas, mas que sem eles simplesmente não pode existir. “Sem jornalistas, não há nada”, sublinhou, reconhecendo o peso e a exigência que esta função implica numa sociedade cada vez mais exposta à desinformação e à fragmentação do espaço público.

A Medialivre sempre apostou em estar em sintonia com quem compra os jornais e assiste à televisão. José Miguel Júdice, antigo bastonário da Ordem dos Advogados

Uma indústria sob pressão desigual

No centro da sua reflexão esteve a sustentabilidade dos media num contexto de concorrência profundamente assimétrica. A chamada legacy media, na qual se insere a Medialivre, opera enquanto indústria regulada, sujeita a códigos deontológicos, escrutínio permanente e regras de boas práticas. Em contraste, as plataformas digitais e as redes sociais concorrem praticamente sem regulação, criando um mercado desequilibrado e propenso a práticas de concorrência predatória. “Os media são uma indústria. Podemos não gostar de o ouvir, mas são”, destacou. E como qualquer indústria, enfrentam riscos constantes num ambiente de rápida transformação tecnológica.

José Miguel Júdice discursa sobre liberdade de imprensa
José Miguel Júdice discursa no evento Top 30 sobre liberdade de imprensa CStudio

“As indústrias que não se adaptam à evolução morrem”, alertou, recordando exemplos históricos como a Kodak ou a IBM, outrora líderes incontestáveis nos seus setores. A regra, segundo Júdice, é simples e implacável: “Não sobrevivem os maiores, os mais fortes ou os mais ricos. Sobrevivem os que melhor se adaptam.”

A pressão tecnológica intensifica este cenário. Plataformas globais como o YouTube e a Netflix estão a invadir o território tradicional dos media, disputando audiências, publicidade e até o espaço informativo. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial e os motores de pesquisa estão a reduzir drasticamente o tráfego para os sites noticiosos, fragilizando ainda mais o modelo económico da imprensa profissional. Para José Miguel Júdice, este conjunto de fatores cria um ambiente particularmente hostil para os media regulados, que competem em condições manifestamente desiguais. A consequência é uma pressão crescente sobre a sustentabilidade económica do jornalismo, num momento em que o seu papel público se torna ainda mais relevante.

Os media são uma indústria. As indústrias que não se adaptam à evolução morrem José Miguel Júdice, antigo bastonário da Ordem dos Advogados.

Desinformação e confiança em erosão

José Miguel Júdice chamou ainda a atenção para os sinais claros de erosão da confiança nas notícias. Em Portugal, a preocupação com a desinformação é elevada e superior à média global, enquanto os níveis de confiança nos media têm vindo a cair de forma consistente ao longo da última década. Esta quebra é particularmente acentuada entre os públicos mais jovens, que recorrem cada vez mais às redes sociais como principal fonte de informação. “Estamos a viver uma crise de confiança que não pode ser ignorada”, alertou o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, sublinhando que este fenómeno tem impactos diretos na qualidade da democracia e na coesão social. Neste contexto, a imprensa profissional continua a desempenhar um papel insubstituível, precisamente por assentar em critérios de verificação, responsabilidade e independência. No entanto, para cumprir essa função, precisa de sustentabilidade económica. E é aqui que entram os anunciantes.

Relação simbiótica com os anunciantes

Existe uma relação simbiótica entre a imprensa profissional e quem investe em publicidade, segundo José Miguel Júdice. Longe de ser apenas uma transação comercial, esta relação envolve uma associação de prestígio, credibilidade e confiança. “Os produtos anunciados beneficiam do prestígio, da credibilidade e do rigor do meio em que são inseridos”, declarou. Essa associação influencia a perceção dos consumidores e não é facilmente replicável em ambientes desregulados ou altamente polarizados.

A credibilidade do suporte mediático é, neste sentido, um ativo económico relevante para as marcas. O risco de bias excessivo e de afastamento dos consumidores é, na sua perspetiva, real e crescente. Quando os media deixam de refletir as preocupações e sensibilidades da sociedade, acabam por empurrar públicos e investimento para as redes sociais, com consequências diretas na sustentabilidade do setor e nos próprios anunciantes.

Os produtos anunciados beneficiam do prestígio, da credibilidade e do rigor do meio em que são inseridos José Miguel Júdice, antigo bastonário da Ordem dos Advogados

Catarina Pádua, diretora de marketing do grupo Vila Galé.

“A credibilidade do suporte influencia a perceção do produto”, salientou o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, alertando para os efeitos reputacionais que decisões de comunicação mal avaliadas podem ter no médio e longo prazo. A confiança, uma vez perdida, é difícil de recuperar, tanto para os media como para as marcas.

A Medialivre como exemplo de adaptação

José Miguel Júdice foi explícito ao apontar o grupo da Medialivre como um caso de adaptação bem-sucedida no panorama mediático nacional. “Se não achasse que assim era, não teria aceitado este convite”, frisou.

Na sua leitura, o sucesso da Medialivre resulta de uma atenção constante a dois fatores essenciais para qualquer indústria: consumidores e fornecedores. “A comunicação social muitas vezes esquece- se dos leitores, mas a Medialivre sempre apostou em estar em sintonia permanente com quem compra os jornais e assiste à televisão”, destacou. Essa capacidade de adaptação à realidade do país é, segundo Júdice, um dos segredos do crescimento e consolidação do grupo Medialivre num contexto particularmente desafiante para os media tradicionais. Ouvir o público, compreender as suas expectativas e dialogar com os anunciantes são condições indispensáveis para a sustentabilidade do jornalismo profissional.

Adaptar para sobreviver

A concluir, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados deixou um aviso claro: a legacy media não está condenada, mas a inércia pode ser fatal. A sobrevivência da imprensa livre exige adaptação contínua, diálogo com anunciantes e consumidores, e preservação da independência editorial. “Sem a ajuda dos anunciantes e sem uma relação de confiança entre todos os stakeholders, a imprensa livre não sobreviverá”, rematou José Miguel Júdice.

O caminho passa por apostar na adaptação, na credibilidade e na cooperação. Só assim a imprensa profissional continuará a desempenhar o seu papel essencial na democracia como um pilar indispensável de sociedades livres e informadas.

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