Exportações a descer, inflação a subir, consumo a abrandar. Caldeira Cabral antevê cenário crítico
O cenário de partida já não era o melhor, e pode piorar com o conflito no Médio Oriente. Em janeiro, ainda antes desta guerra começar, as exportações portuguesas já recuavam 14%, e no ano passado registaram uma subida de apenas 0,5%. O antigo ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral acredita que as exportações portuguesas vão ser castigadas, não só pelo efeito óbvio do aumento da energia, mas também pela menor procura.
"Os europeus estão a enfrentar os mesmos aumentos de preços do petróleo, podem vir a ter os mesmos aumentos de taxas de juro, vão ficar com menos rendimento, vão retrair a procura e vão retrair a procura em algumas áreas. Por exemplo, o automóvel é um dos setores em que as pessoas podem adiar a compra de carro, podem substituir a compra de carro a gasolina ou a gasóleo por carros elétricos", exemplifica. Em suma: "as nossas exportações podem ser afetadas de forma mais ampla, e isso é bastante negativo".
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Com o consumo "forçosamente direcionado para o aumento do preço dos combustíveis", e num cenário de subida das taxas de juro e possível subida da prestação da casa, os portugueses vão sentir "uma redução do seu rendimento líquido após esses compromissos" e em consequência "baixam o consumo de todo o resto". "Com estes fatores de crise, podemos estar de facto a ir para crescimentos já bastante mais baixos e isso é mau para o aumento do rendimento, para o aumento dos salários que estava a acontecer nesta década", alerta.
Neste contexto, Caldeira Cabral considera que "pode justificar-se" recuperar medidas como o IVA Zero, que isentou de IVA um cabaz de 46 alimentos essenciais para combater a inflação em 2023. "Os preços da energia vão afetar os preços dos alimentos. E estes efeitos colaterais estão a afetar o preço dos adubos, o que também vai afetar o preço dos alimentos. E as tempestades que tinham ocorrido antes desta guerra tiveram também um efeito em algumas produções agrícolas. Se o preço dos alimentos for afetado, são sempre proporcionalmente mais afetados os consumidores mais pobres. A medida do IVA é mais direta e fácil de aplicar, penso que é uma medida que mostrou ter pelo menos alguma eficácia e obviamente atua junto das pessoas mais vulneráveis", diz.
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E não é só, claro, Portugal. "Podemos ver aqui também o comércio mundial como um todo a ressentir-se" e não só por causa dos combustíveis. "O Médio Oriente é muito importante também na parte dos adubos, na parte do ácido sulfúrico, que é muito importante para a extração de minerais, como o cobre, entre outros. No alumínio também. Todos estes produtos matérias-primas que entram na produção de um conjunto muito diversificado de setores, incluindo os produtos metálicos, o automóvel, etc", descreve.
"E portanto", continua, "além do preço da energia, a disrupção destas cadeias de valor vai, num prazo provavelmente mais curto do que longo, aumentar os preços dessas matérias-primas e transmitir custos também através das cadeias de valor (...) Isso de facto vai-se refletir na carteira dos portugueses, dos europeus e também de todo o mundo."
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