Economia As duas caras do FMI: Dr. Jekyll and Mr. Hyde

As duas caras do FMI: Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Quando olha para o curto prazo, o FMI vê a economia a melhorar de forma evidente. Mas quando analisa um horizonte alargado defende que há debilidades estruturais por resolver.
As duas caras do FMI: Dr. Jekyll and Mr. Hyde
Margarida Peixoto 25 de fevereiro de 2018 às 15:00

Se fosse uma novela, o relatório da 6ª avaliação pós-programa do Fundo Monetário Internacional sobre Portugal poderia chamar-se "O estranho caso do FMI: Dr. Jekyll no presente, Mr. Hyde no futuro". É que a forma como o fundo descreve a economia portuguesa é bastante benévola no curto prazo – há previsões que até são mais optimistas do que as do Governo – mas igualmente negra num horizonte alargado.

Não é assim por acaso. Os indicadores de curto prazo mostram a realidade a melhorar. Além disso, os pagamentos antecipados de Portugal ao Fundo retiram-lhe margem de manobra para sugestões mais impositivas -- Portugal já não está sob a alçada da troika, pelo que a autoridade para recomendar medidas ao Governo é menor. Mais: perante as amortizações aceleradas de dívida os riscos de não devolução do empréstimo (o mote fundamental da avaliação) são diminutos.

Contudo, a economia mantém debilidades estruturais. E é nesse sentido que o FMI revela mais preocupação com o país. Até porque grande parte do discurso do Executivo, bem como algumas políticas ( por exemplo, a devolução de rendimentos e o aumento das pensões) afirmam um rumo diferente face ao período da troika.

O que diz Dr. Jekyll sobre a economia portuguesa?

Quando avalia o ponto de situação actual, o FMI faz elogios. Nota que a economia cresce a bom ritmo, assinala um sistema financeiro mais estável e mais capitalizado, identifica os progressos na resolução do problema do malparado na banca.

Estima um aumento de 8,1% do investimento – o Governo está a contar com 5,9% – um consumo público contido, exportações e importações a crescerem a bom ritmo.

O FMI prevê o cumprimento da meta do défice de 2017 "com alguma margem" (estima os mesmos 1,2% que o primeiro-ministro António Costa) e o cumprimento do objectivo de 2018. Mas mesmo em termos estruturais, os sinais são mais positivos do que há apenas dois meses. O FMI espera agora um excedente primário mais elevado e mais resistente: a projecção de superavit primário para 2018 saltou de 2,2% do PIB para 2,4%.

A consequência é uma dívida pública que deve descer mais depressa do que Washington tinha antecipado. Além disso, os reembolsos acelerados ao próprio FMI diminuem a pressão de financiamento, mesmo num ambiente em que o Banco Central Europeu diminui o programa de compra de dívida pública. Portugal até está menos dependente deste programa do que  outros parceiros, já que as compras estavam limitadas pela quota do país, reconhece Washington.

No mercado de trabalho os números também sorriem. A taxa de desemprego para 2018 foi revista em forte baixa, dos anteriores 8,4% para 7,8%. A concretizar-se, será a mais baixa da última década.

A economia portuguesa ganhou força. (...) Portugal continua a gozar de um acesso
aos mercados em termos favoráveis.
FMI
Relatório da 6ª avaliação pós-programa de ajustamento

E o que vê Mr. Hyde?

Vê uma economia que, ainda assim, tem debilidades estruturais acentuadas. A análise nota que o crescimento presente é bom, mas que o potencial futuro é muito baixo -- um ponto em que o Governo discorda frontalmente, sublinhando que este indicador deveria absorver melhor o impacto das reformas já implementadas.

Mas  no horizonte alargado o FMI vê o ritmo de crescimento a abrandar para 1,8% já no próximo ano, diminuindo para 1,5% em 2020 e para 1,2% daí em diante, de onde não sairá sem um aumento "substancial" do investimento. Aumento este que não será fácil: por um lado as empresas continuam excessivamente endividadas, defende o Fundo, por outro a banca continua com demasiado stock de crédito malparado e arrisca-se a ter de reforçar ainda mais os capitais, por imposições regulatórias, soma.

Mas há mais. O desendividamento das famílias pode ficar a meio caminho, uma vez que o seu ritmo de redução está agora cada vez mais baixo, com a concessão de crédito a subir. Há até avisos sobre uma potencial bolha no imobiliário, com a recomendação de cautela às autoridades de supervisão, que devem fazer uma monitorização próxima do mercado e estar prontas a agir assim que se revele necessário.

O Fundo defende reformas estruturais generalizadas: desde o mercado laboral (que há que tornar mais flexível e onde importa preservar a marca da troika e conter a subida dos salários) passando pelas administrações públicas (cuja despesa é preciso rever e encurtar) até ao próprio sistema bancário (que tem de investir no digital para cuidar das suas taxas de rentabilidade).

Os alertas estendem-se até ao modelo de crescimento económico, já que o FMI avisa que sustentar as subidas do PIB no turismo é um risco. "A dependência do sector do turismo deixa Portugal vulnerável a choques externos", lê-se no documento dos peritos.

tome nota

Os recados e os elogios do Fundo Monetário Internacional

Na 6ª avaliação pós-programa de ajustamento, o FMI deixou uma série de elogios ao desempenho da economia, reconhecendo avanços na acção do Governo. Contudo, fez recomendações e avisos que considera fulcrais para o crescimento futuro.

Pontos positivos
Crescimento e emprego
O crescimento que gera emprego ganhou força. A previsão para a taxa de desemprego é de 7,8%, a mais baixa desde 2008.

Investimento a crescer
O FMI prevê um crescimento de 8,1% para o investimento, bem acima dos 5,9% inscritos pelo Governo no Orçamento.

Défice dentro da meta
O défice orçamental do ano passado deverá ter ficado melhor do que a meta (o FMI estima 1,2%) e este ano o objectivo do Governo de 1,1% deverá ser cumprido.

Dívida desce mais
Com a ajuda de um superavit orçamental mais elevado, e mais estrutural, bem como com os reembolsos antecipados ao próprio FMI, o peso da dívida no PIB deverá cair mais depressa do que o inicialmente previsto.

Banca com mais capital
O sistema financeiro está mais capitalizado e mais estável, o que dá mais confiança aos investidores. O risco de uma nova crise bancária é agora considerado baixo.

BCE menos relevante
A dependência de Portugal do programa de compra de dívida pública do BCE é menor do que a de outros países.


Pontos negativos
Potencial fraco
O potencial de crescimento da economia é baixo, pelo que o ritmo actual de aumento do PIB não se vai manter nos próximos anos sem uma subida "substancial" do investimento.

Dívida pública alta
Apesar dos progressos na diminuição da dívida pública, que deverá ter fechado 2017 em torno dos 126% do PIB, o valor continua demasiado elevado, o que torna o país vulnerável.

Mais capital
Com o reforço regulatório em curso, a banca pode precisar de reforçar ainda mais os seus capitais.

Malparado pesa
Apesar das melhorias, o peso do crédito malparado na banca permanece elevado, limitando o financiamento de novos projectos de investimento.

Risco no imobiliário
As autoridades devem acompanhar de perto a evolução do mercado imobiliário, já que os preços subiram cerca de 20% desde 2013, quando na Zona Euro aumentaram 7%.

Flexibilidade laboral
O Fundo pede ao Governo que mantenha as medidas implementadas na era da troika e que aumente a flexibilidade no mercado de trabalho, para reduzir a segmentação.

 




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