Cavaco Silva: "Ninguém está imune à crise"
O Presidente da República apelou ao novo governo e aos portugueses para darem o seu contributo no sentido de revitalizar o País. "Cada um de nós é chamado a dar o seu contributo", disse Cavaco Silva, sublinhando que "não podemos falhar". Veja aqui o vídeo.
Cavaco Silva referiu várias vezes o grande sacrifício que é pedido aos cidadãos – “provavelmente os maiores sacrifícios desde que foi instaurada a democracia” – e referiu que competirá ao novo Executivo e aos dirigentes dos dois partidos assgurar que a coligação governativa tenha solidez, consistência e durabilidade”.
“Pode o novo Governo contar com a cooperação da Presidência da República”, afirmou, deixando também o seu agradecimento a José Sócrates: “Ao primeiro-ministro cessante, que presidiu ao Governo de Portugal durante seis anos, expresso público reconhecimento pelos serviços prestados e desejo-lhe os maiores sucessos profissionais e pessoais”.
O Presidente sublinhou também que não deve o novo Governo, pelo facto de ter maioria no Parlamento, afastar-se da busca de compromissos alargados a outras forças políticas. “Espera-se atitude construtiva e responsável. Para que interesse nacional seja colocado acima dos interesses partidários”, disse, apelando ao diálogo e concertação com os agentes económicos e sociais.
“Há também que adoptar uma atitude firme no combate à corrupção e à promiscuidade entre o interesse privado e público. (...) O desempenho de funções públicas e selecção dos altos responsáveis da Administraçao tem de ser pautados por critérios de competência e mérito”, destacou.
“É igualmente essencial uma relação renovada entre o poder e os cidadãos, uma relação de proximidade e respeito e de maior independência recíproca”, declarou Cavaco Silva.
"Estado tem de estar mais próximo dos que verdadeiramente precisam"
O Presidente salientou que “os cidadãos têm de se libertar de uma histórica dependência face ao Estado”, adiantando também que “o Estado tem de estar mais próximo daqueles que verdadeiramente precisam, não dos que dispõem de canais privilegiados de acesso aos políticos”.
Cavaco Silva relembrou que, nos últimos anos, “a economia portuguesa apresentou um crescimento económico débil que nos afastou da União Europeia”. Lembrou a perda de competitividade do tecido empresarial, o agravamento dos níveis de endividamento e o desemprego, que “tem vindo a aumentar de forma acentuada e persistente, atingindo hoje níveis alarmantes”.
“O Governo só poderá ter sucesso se agir com determinação e persistência. É essencial que fique claro que o cumprimento deste programa [delineado pela UE/FMI para três anos] tem custos, exigindo muitos sacrificios”, declarou, acrescentar estar “firmememte convicto de que o cumprimento escrupuloso é o caminho que melhor segue o interesse nacional”.
“Se Portugal falhar o cumprimento de aspectos-chave do acordo, poderá ficar sujeito a restrições de financiamento ainda mais graves do que as actuais”, alertou.
No entanto, sublinhou que “importa ter presente que as tarefas deste Governo não se esgotam com o mero cumprimento do acordo UE-FMI”, mas apelou a que se atenuem os “elevados custos sociais das medidas que tiverem de ser tomadas”.
O Presidente da República reiterou que “a condição-chave para o sucesso reside na redução significativa do desequilíbrio externo”. “Torna-se assim fundamental reconquistar a confiança dos mercado. (...) Há que enraizar critérios de competitividade externa nas empresas, privilegiar a aquisiçao de produtos nacionais e criar hábitos de poupança”.
Além disso, há que “apostar seriamente na melhoria do sistema judicial (...) e aproveitar as vantagens comparativas nos chamados sectores tradicionais”, como o turismo, agricultura e bem-estar.
“Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que produzimos e a endividar-nos perante o estrangeiro”, advertiu Cavaco Silva.
Assim, “o Governo que agora assume funções tem responsabilidades acrescidas. (...) As exigências impostas não têm paralelo. Não podemos falhar, sob pena de a situação se tornar irreversível e insustentável”, acrescentou o Presidente português na tomada de posse do Executivo de Pedro Passos Coelho.
Cavaco Silva referiu que manterá, “como sempre”, uma “atitude de isenção e imparcialidade”.
“Não há motivos para deixar de fazer o que deve ser feito, a começar pelos compromissos que assumimos perante as instituições internacionais. A altura é de agir, de actuar com rapidez e de imediato. É isso que os portugueses querem no novo governo”, afirmou, acrescentando que “o momento é de muito trabalho, de acção ponderada, de diálogo político e social”.
“Ninguém está imune à crise. Cada um de nós está chamado a dar o seu contributo. Cada português tem uma quota de responsabilidade no futuro do seu país”, declarou Cavaco Silva, reafirmando que “todos temos de começar já hoje a trabalhar em conjunto”.
Nas suas palavras finais, o Presidente declarou que “em nome de Portugal, desejo ao Governo os maiores sucessos”.