Irão: "Neste momento não há ganhadores", diz Ângelo Correia
Especialista em Médio Oriente e ex-cônsul honorário do reino haxemita da Jordânia em Portugal, Ângelo Correia afirma que o fecho de Ormuz tornou o conflito no Irão num problema mundial.
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O especialista em Médio Oriente Ângelo Correia considera, em entrevista Lusa, que até ao momento não há ganhadores no conflito no Irão e este tornou a questão num problema mundial com o fecho de Ormuz. Sobre o estado atual do conflito que envolve o Irão, os Estados Unidos e Israel, o também ex-cônsul honorário do reino haxemita da Jordânia em Portugal faz duas leituras.
"A primeira tem a ver com a relação que se estabelece entre os objetivos que cada grande contendor tem e as consequências que daí advieram" e "assim podemos dizer que na maior parte dos casos os objetivos que cada um propôs não foram atingidos", refere o também antigo presidente da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa.
Israel "tem um papel importante porque é não só um detonador de todo o conflito, mas, em segundo lugar, é também um grande orientador da política norte-americana. Esta não é autónoma, é decorrente dos interesses estratégicos de Israel que, em alguns casos, coincidem com os objetivos estratégicos dos Estados Unidos", prossegue Ângelo Correia.
Por isso, "Israel não conseguiu a mudança de regime que, obviamente, era a mais importante e condicionadora de tudo o resto", aponta o especialista, nem "ainda extinguir o potencial nuclear do Irão".
"Consegue em grande parte a destruição do potencial da defesa aérea do Irão, bem como dos seus lançadores, contudo, esta última numa escala mais reduzida do que pretenderia", considera.
No caso dos Estados Unidos, "os seus objetivos coincidem praticamente com os objetivos de Israel, se bem que pode ter objetivos mais escondidos, menos expressos, relativamente ao controlo daquela zona política e, sobretudo, também a alguma intervenção na área do petróleo", sublinha.
No que respeita o Irão, "o seu objetivo é um: sobreviver", enfatiza o especialista em Médio Oriente. Na sua análise, "o Irão está muito mais reduzido em poder", mas "resiste, tem a resiliência, porque acima de tudo é dirigido por uma estrutura, se quiser, matriciada em duas entidades importantes". Ou seja, "a instituição religiosa iraniana, mesclada em grande parte com a Guarda Revolucionária islâmica".
Ângelo Correia insiste que o Irão "resiste, tem condições ainda para resistir" e "há potenciais que ainda não foram exibidos e tem um fator que foi relativamente subestimado desde o início, que era a faculdade ou o poder de fechar o estreito de Ormuz".
Por essas razões, "eu acho que estamos confrontados com uma situação em que não há ganhadores neste momento", remata.
"O cerne da questão transferiu-se em duas dimensões: primeiro, uma certa internacionalização do Golfo, o que talvez não fosse esperado", diz.
O Irão "foi criticado por ter estendido o conflito para os países do Golfo que não eram verdadeiramente contendores do Irão, mas tornam-se contendores do Irão por essa razão", aponta.
Segundo, relativamente ao Irão, "é a faculdade que tem de, com meios mais escassos, mais reduzidos, a sua marinha estar a fazer uma ação que torna o conflito não só com uma dimensão e dos contendores, não só como uma dimensão regional no Médio Oriente, mas que tem, pelo contrário, uma dimensão mundial", enquadra.
Ou seja, "por razão do fecho do Estreito de Ormuz, o Irão transformou a questão num problema mundial", sublinha Ângelo Correia.
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