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Portugal entre o sucesso das exportações e a ameaça do investimento

Os economistas que contribuem para o Massa Monetária analisaram o crescimento de 2015. O investimento soçobrou e as exportações resistiram, o que aumenta a complexidade das previsões para 2016. A meta do Governo está ameaçada.

Bruno Simão
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 01 de Março de 2016 às 12:24
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As exportações continuaram a brilhar, mas o investimento pregou uma partida, e a economia ficou mais dependente do consumo privado e público. Estes são traços essenciais do desempenho no final de 2015 que vieram aumentar os riscos sobre a economia nacional em 2016, e levam os economistas que contribuem para a "Reacção dos Economistas" do Massa Monetária a avisarem que está ameaçada a meta de crescimento de 1,8% inscrita no Orçamento do Estado.

"O crescimento anual médio em 2015 ficou-se pelos 1,5%, acima do registo de 2014 (0,9%) mas longe da fasquia dos 2% que os dados do 1º semestre poderiam sustentar sem o abrandamento do 2º semestre", escrevem os economistas do Católica Lisbon Forecasting Lab - NECEP, o núcleo de previsão económica da Universidade Católica, que veêm no abrandamento do investimento "o principal sinal de preocupação" e avisam que "a ausência de uma recuperação robusta e constante neste agregado sinaliza as debilidades do crescimento potencial da economia".

A debilidade do investimento é sublinhada pelos restantes especialistas, com destaque para Paula Carvalho, do BPI, e José Miguel Moreira, do Montepio, que encontram no desempenho das exportações o principal sinal positivo de 2015, especialmente por terem resistido aos abrandamento de vários parceiros comerciais, com Angola à cabeça.

Portugal entra assim em 2016 num contexto de incerteza elevada, tanto no plano externo, como interno. Ninguém coloca em causa que, após a queda quase 7% no PIB português entre 2011 e 2013, a economia registe em 2016 o terceiro ano de crescimento. Mas além da fragilidade da retoma – confirmando-se as previsões mais optimistas para este ano, Portugal recuperará em três anos apenas 60% do que perdeu nos três anos anteriores – os economistas destacam os perigos da falta de investimento.


Pontos fortes da economia portuguesa



1. Exportações 29% acima do valor de 2010

"Não obstante a nova queda das exportações líquidas em 2015, a recuperação económica tem continuado a ser sustentada pelas exportações, que terminaram o ano passado 29.3% acima dos níveis pré-programa de ajustamento (2010)", analisa José Miguel Moreira, sublinhando um dos principais pontos fortes da economia nacional.


O desempenho das exportações "que se fortaleceu não obstante o pior comportamento de alguns parceiros comerciais importantes – como Angola" é também destacado por Paula Carvalho.

2. Consumo privado não impede menos endividamento

A economista chefe do BPI, sublinha ainda como evolução positiva o facto da "estabilização do consumo privado" – que cresceu 2,7% em 2015, depois de aumentar 2,3% em 2014 – ser "um dos pilares da recuperação económica, sem com isso pôr em causa a trajectória de desalavancagem das famílias, que aliás tem sido feita mais depressa do que a das empresas.


3. Balança comercial positiva pelo terceiro ano

Finalmente, os economistas da Universidade Católica evidenciam que o dinamismo das exportações, embora sem "entusiasmos excessivos", permitiu compensar os efeitos do crescimento das importações motivado por mais procura interna, de tal forma que, "a balança de bens e serviços voltou a melhorar no 4º trimestre (correspondeu a 1.4% do respectivo PIB nominal) e fechou o ano em terreno positivo (0,8%), o que acontece pelo terceiro ano consecutivo (1,0% em 2013 e 0,4% em 2014)", analisam.


Pontos fracos e ameaças da economia portuguesa

1. Investimento soçobra


Um ponto de apreensão que atravessa as várias análises publicadas na "Reacção dos Economistas" do Massa Monetária é a evolução do investimento que, como lembra Paula Carvalho, pode pôr "em causa a reposição e expansão da capacidade produtiva, logo, a criação de emprego" a longo prazo.

A economista-chefe do BPI destaca que "o comportamento da formação bruta de capital fixo – investimento excluindo a componente de variação de stocks – (…) registou uma significativa desaceleração nos últimos seis meses do ano, tendo mesmo caído em termos homólogos no 4º trimestre". Para a economista, "a análise desta componente da procura agregada é ainda mais preocupante quando analisada ao detalhe, pois esta evolução ocorreu num contexto de recuperação do investimento em construção, ficando a dever-se em exclusivo à queda do investimento em Maquinaria e Equipamento".

Os economistas da Universidade Católica consideram mesmo que "o principal sinal de preocupação é oriundo do investimento" que admitem que a evolução possa "reflectir um certo interregno na evolução deste agregado devido ao ambiente de incerteza política".


2. Actividade suportada pela procura interna


"A actividade económica em 2015 foi apenas suportada pela procura interna", reflectindo a aceleração do consumo privado (2,6% em 2015, após os 2,2% de 2014) e do consumo público (0,8% em 2015, o que constitui o primeiro acréscimo desde 2010), nota José Miguel Moreira, economista do Montepio, dando conta de um aumento do contributo da procura interna para o crescimento da economia que atingiu "2,5 pontos percentuais em 2015 (2,2 pontos percentuais em 2014), devido ao crescimento mais intenso das despesas de consumo final, uma vez que o investimento desacelerou".

Perante esta evolução Filipe Garcia, da IMF – Mercados Financeiros avisa que "basta que o consumo interno fraqueje, o que pode acontecer por questões de confiança, rendimento e crédito disponível, e as previsões do OE 2016 ficam em risco".


3. Meta de crescimento de 1,8% em risco


No Orçamento do Estado que está a ser debatido na Assembleia da República o Governo prevê um crescimento da economia de 1,8%, no que é uma hipótese central para garantir a criação de emprego e as receitas necessárias para garantir um défice público de 2,2% do PIB. A meta de crescimento está em risco, conclui-se das várias análises.

José Miguel Moreira, economista do Montepio, explica por que aponta agora para um crescimento de 1,7% em 2016, ligeiramente abaixo da previsão do Governo de 1,8% inscrita no Orçamento do Estado, e inferior aos 2% para que apontava há umas semanas: "o efeito de ‘carry-over’ negativo resultante dos dados do PIB aquém do esperado no final de 2015, mas também um enquadramento internacional menos favorável e uma maior pressão dos mercados financeiros sobre a dívida portuguesa", estão a pesar.

Também Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, considera que a previsão de crescimento do Governo – coincidente com a sua – está sob pressão negativa: "a tendência de desaceleração da taxa de crescimento homóloga do PIB no 2º semestre bem como a quebra do investimento, aliados ao sentimento global mais negativo em inícios de 2016, aumentam os riscos negativos da nossa projecção de crescimento do PIB para este ano de 1.8%", escreve na análise publicada no Massa Monetária. Filipe Garcia, da casa de investimentos IMF, diz mesmo não esperar um crescimento acima de 1,5%, sublinhando os riscos da maior dependência da procura interna.

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