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Turquia e as redes sociais: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço

A Turquia tem vindo a bloquear o acesso às rede sociais em alturas especificas, inclusivamente na tentativa de golpe de Estado de sexta-feira. Mas o presidente acabou por usar as mesmas redes sociais para travar a tentativa de o retirarem do poder.

turquia golpe estado julho 2016 manifestação erdogan
turquia golpe estado julho 2016 manifestação erdogan Reuters
18 de Julho de 2016 às 13:54

Há um provérbio que diz: "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço". E o mesmo poder-se-ia aplicar ao que aconteceu na sexta-feira na Turquia, quando o presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, usou as redes sociais para tentar travar a tentativa de golpe de Estado que estava em curso.

Mas para se perceber a questão, é preciso ter em linha de conta que há vários relatos, ao longo dos últimos anos, que apontam para a restrição à liberdade de imprensa na Turquia. Além disso, em Março, foi noticiado que a Turquia terá imposto restrições aos média, tendo os cidadãos turcos apontado, de acordo com o jornal The Independent, que o acesso às redes sociais era limitado após ter ocorrido uma explosão na capital Ancara.

Já em Abril do ano passado, depois da divulgação de imagens de um procurador turco a ser feito refém por parte de militares de extrema-esquerda, as autoridades turcas baniram o acesso ao Youtube e ao Twitter.

E na última sexta-feira, na altura em que decorria uma tentativa de golpe de Estado, a realidade não terá sido muito diferente. O Turkey Blocks, uma conta de Twitter que faz com regularidade controlos para verificar se os sites estão a ser bloqueados no país, citado pelo TechCrunch, revelou que, durante a noite, o Facebook, o Twitter e o Youtube não estavam a responder. Porém, o Instagram e o Vimeo estavam disponíveis. O acesso foi restabelecido cerca de uma hora e meia depois, segundo a agência Dyn Research, citada pelo TechCrunch.

Confirmed: Twitter, Facebook & YouTube blocked in #Turkey at 10:50PM after apparent military uprising in #Turkey pic.twitter.com/J9ER5yOGYP

Mas os acontecimentos da passada sexta-feira, mostram uma diferença face ao passado. Erdogan usou a arma que muitas vezes manda trancar a sete chaves: As redes sociais. O presidente turco estava de férias aquando da tentativa de derrubar o seu Governo. Uma facção militar tomou de assalto os meios de comunicação social públicos e depois também os privados. E o presidente precisava de falar à população. E falou. Por FaceTime, ou seja, por vídeochamada.

No vídeo, em conversa com uma pivô da CNN turca citada pelo Financial Times, Tayyip Erdogan sublinhou que "iam ultrapassar" a tentativa de golpe de Estado e apelou à população: "vão para as ruas e dêem-lhes [aos militares] a vossa resposta". E os turcos deram. Saíram à rua e a tentativa de golpe de Estado falhou, mas não sem sangue derramado.

A utilização das redes sociais não ficou por aqui. O jornal britânico acrescenta que o líder turco, após esta conversa, escreveu uma mensagem no Twitter, para os seus mais de 8,6 milhões de seguidores, e no Facebook. Os seus assessores socorreram-se ainda do sistema de mensagens WhatsApp para estarem em contacto uns com os outros no sentido de tentarem retomar o controlo da situação. Mas as redes sociais foram "misturadas" com métodos tradicionais. Erdogan contactou também os imãs das mesquitas locais em Ancara e Istambul para chamarem os cidadãos para as ruas.

Controlar a internet

Mohamed A. El-Erian, colunista da Bloomberg, aponta, num artigo de opinião, que a facção rebelde dos militares que terá levado a cabo esta tentativa de golpe de Estado, "pensou em implementar a cartilha clássica para tomadas militares". Cartilha essa que se pauta pelo encerramento de rotas de transportes fundamentais, tentativas de proteger o parlamento e os gabinetes presidenciais, tentativas de capturar oficiais de elevada patente e tomar de assalto os meios de comunicação públicos ou privados.

"O objectivo era o convencional: ao negarem aos cidadãos o acesso a fontes alternativas de notícias, os rebeldes eram capazes de controlar a narrativa, ditando a informação que saía e a sua interpretação", escreve o colunista.

Mas, dado que o golpe de Estado não foi bem-sucedido, El-Erian aponta a falha dos golpistas: "falharam na actualização da cartilha dos golpes para ter em conta as realidades das redes sociais e da tecnologia móvel". "Em resultado disto, a sua tentativa para controlar a informação disponível para os cidadãos comuns foi apenas parcial e a mensagem dos militares foi rapidamente apagada pelas notícias nacionais e internacionais, que têm um poder de ampliação [das mensagens] muito maior. Então a vantagem que os militares tinham inicialmente, obtida através do elemento surpresa, rapidamente desapareceu".

O colunista termina a sua análise escrevendo que: para a história vai ficar que os militares turcos e os seus seguidores "falharam em compreender como as redes sociais mudaram as dinâmicas tradicionais dos golpes de Estado". "Contribuíram para evitar um desfecho que, no mínimo, teria criado uma grande incerteza num dos maiores países europeus e membro da NATO. Isso teria ainda outro desenvolvimento que ‘a opinião dos especialistas’, quer públicos quer privados, não previram. Agora o desafio para a Turquia é assegurar que o legado do golpe falhado vai reforçar a democracia do país e as suas instituições legítimas".

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