A menos de 24 horas das eleições britânicas continua tudo em aberto
Continua a ser impossível prever quem sairá vencedor das legislativas britânicas que se realizam esta quinta-feira. O empate técnico apontado pelas sondagens indicia uma corrida apertada até final e o vencedor poderá mesmo só ser conhecido na sexta-feira.
Tendo em conta as últimas sondagens, conhecer o nome do próximo primeiro-ministro não será possível antes desta quinta-feira, 7 de Maio, já depois das 21 horas em Portugal. No entanto, o impasse poderá mesmo prolongar-se para lá de sexta-feira, altura em que estarão contabilizados todos os boletins de voto. Podendo as negociações, tendo em vista a formação de um governo, arrastar-se ao longo da próxima semana ou semanas.
A menos de 24 horas das eleições de amanhã, os estudos de opinião conhecidos esta quinta-feira, 6 de Maio, confirmam a tendência de empate técnico. A sondagem divulgada esta manhã pelo YouGov mantém o Partido Conservador do actual primeiro-ministro, David Cameron, e o Partido Trabalhista, liderado por Ed Miliband, completamente empatados com 34% das intenções de voto.
Também conhecidas esta quarta-feira, as sondagens do TNS e do britânico The Guardian confirmam a tendência de empate técnico. A do TNS atribui aos "tories" 33% e ao "labour" 32%, enquanto a do britânico The Guardian dá uma ligeira vantagem ao partido de Cameron (34%) face ao do seu principal rival (32,49%).
Em todas as sondagens, o nacionalista UKIP de Nigel Farage surge na terceira posição, sempre com menos de 15%, depois os Liberais Democratas do actual vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, que actualmente compõem a coligação de governo com os "tories" sempre abaixo dos 10% e, por fim, os Verdes com intenções de voto na casa dos 5%.
País conservador, mas não imune à mudança
A convicção de que nenhum partido conseguirá formar um governo de maioria, com pelo menos 326 assentos parlamentares, parece já uma certeza. O que garante protagonismo aos partidos pequenos. Mas se historicamente o Reino Unido não tem tradição de governos minoritários, com o último exemplo a datar de um Executivo trabalhista eleito em 1974 mas derrubado após três meses, também a formação de coligações é pouco habitual.
Desde o início do século XX, o Reino Unido conheceu apenas quatro governos de coligação, o último dos quais está ainda no poder. Em 2010, apesar de um sistema eleitoral que favorece não só os partidos tradicionais mas também a formação de maiorias parlamentares unipartidárias, os conservadores, que saíram vencedores desse acto eleitoral, não conseguiram uma maioria e viram-se na contingência de ter de negociar um acordo de governo com os Liberais.
Todavia, o desgaste dos maiores partidos britânicos perante a incapacidade de resposta aos desafios apresentados pelas crescentes diversidades étnicas, sociais e culturais, uma situação agravada pelas políticas de austeridade adoptadas na sequência da crise financeira, designadamente os cortes feitos no sistema nacional de saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), levaram a uma erosão do sistema partidário.
A consequência mais imediata poderá ser a entrada de novas formações partidárias em Westminster, como é o caso do UKIP, e o fortalecimento dos partidos nacionalistas escocês e galês. E a chegada do multipartidarismo ao Reino Unido.
Tendo em conta que independentemente da dimensão demográfica de cada círculo eleitoral poder variar bastante, haver direito à eleição de apenas um parlamentar, olhar para as percentagens das sondagens pode ser um exercício enganador. O UKIP que venceu as eleições europeias de 25 de Maio do ano passado, deverá ter acima de 10% dos votos, mas poderá não ir além dos dois assentos parlamentares.
Já os nacionalistas escoceses do SNP, que perderam há oito meses o referendo sobre a independência do Reino Unido, apesar da baixa percentagem dos votos poderão passar dos seis lugares alcançados em 2010 para mais de 50. E assim assumir um papel decisivo em eventuais negociações para a formação de um governo maioritário ou mesmo garantindo um hipotético acordo de incidência parlamentar com os trabalhistas.
Tendo em conta a sondagem desta quarta-feira do The Guardian, a única coligação que permitirá alcançar uma maioria seria entre o "labour", os Liberais e o SNP, com 349 assentos. A primeira-ministra escocesa e líder do SNP, Nicola Sturgeon, já disse estar disponível para negociar um acordo com Miliband, tendo assegurado que não apoiará, em caso algum, um novo Executivo liderado por Cameron.
Perante um eventual governo de David Cameron, Sturgeon irá continuar a lutar pela independência escocesa, mas com Miliband no poder, o SNP poderia negociar a transferência de mais poderes para Edimburgo. Mais difícil seria conciliar no poder o SNP com os Liberais Democratas. O partido de Nick Clegg dificilmente estará disponível para delegar novos poderes para a Escócia para além dos já negociados após o referendo do ano passado.
Os Liberais poderão acabar por ter a palavra final na resolução do provável impasse. Enquanto partido "radical do centro", podem coligar-se com os o "labour" ou com renovar uma coligação com os "tories". Mas esta segunda hipótese não deve permitir alcançar uma maioria em Westminster. E se Clegg já disse estar aberto a uma coligação com Cameron, apesar do referendo sobre a permanência na União Europeia (UE) por este prometido, o seu partido, profundamente pró-europeu, poderá não aceitar uma coligação que também inclua o eurocéptico UKIP.
Mas perante a indefinição e a probabilidade de um "hung parliament" (parlamento sem maioria de nenhum partido), Nick Clegg adiantou entretanto que irá aguardar pelos resultados finais e dar tempo ao líder do partido mais votado para tentar formar governo. Ou seja, continuam todas as opções em aberto.