Em Entre-os-Rios há ainda vidas em suspenso 25 anos depois da queda da ponte
25 anos depois da queda da ponte de Entre-os-Rios, que causou 59 mortes, mais de 20 familiares das pessoas que perderam a vida naquela tragédia rodoviária ainda precisam de apoio psicológico e psiquiátrico.
A ponte de Entre-os-Rios caiu em 4 de março de 2001 causando a morte a 59 pessoas, mas, 25 anos depois, ainda há familiares das vítimas que não conseguiram retomar a vida com normalidade.
"Infelizmente temos situações que se agravaram com doenças graves e vidas que foram totalmente destabilizadas e que nunca mais foram recuperadas", disse à Lusa Augusto Moreira, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios, que está a preparar um programa evocativo dos 25 anos da queda da ponte Hintze Ribeiro.
Augusto Moreira calcula que, atualmente, mais de 20 familiares das pessoas que perderam a vida naquela tragédia rodoviária ainda precisam de apoio psicológico e psiquiátrico.
"Há muitos casos de pessoas que não são capazes de mexer num quarto de um familiar", diz Augusto Moreira, acrescentando que há algumas famílias que ainda vão uma vez por mês rezar um terço no monumento.
Para o presidente da associação dos familiares, o facto de as vítimas serem quase todas do mesmo local - freguesia de Raiva - ajudou a ultrapassar a dor.
"Houve uma união muito forte entre as pessoas, que trabalharam sempre muito juntas. Cada um de nós vivia a sua dor e transmitia e animava o outro. O isolamento não era útil. E nós conseguimos uma grande união, porque as nossas reuniões muitas vezes eram com a maioria dos familiares, com 200, 300 pessoas", observou.
Augusto Moreira refere que uma das mágoas que os familiares guardam é o facto de ninguém ter sido responsabilizado criminalmente, porque os arguidos do caso da queda da ponte, quatro engenheiros da ex-Junta Autónoma de Estradas e outros dois de uma empresa projetista, foram todos absolvidos.
Os seis técnicos estavam acusados dos crimes de negligência e violação das regras técnicas, mas o tribunal entendeu que, aquando das inspeções realizadas pela ex-JAE à ponte, não havia ainda regras técnicas que enquadrassem a atuação dos peritos.
"Naturalmente que essa parte de não responsabilização criminal foi das mais duras para nós, familiares. Na altura, passados quatro ou cinco anos, quando foi arquivado o processo, foi um processo doloroso", disse.
A decisão absolutória veio a ser confirmada pelo Tribunal da Relação e a associação entendeu não recorrer para uma instância superior ou aos tribunais europeus.
"Entendemos que também tínhamos que fazer o nosso luto e que não poderíamos andar aqui sempre numa expectativa. Claro que isso é uma marca que ficará sempre na nossa vida", afirmou.
A ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, distrito do Porto, e Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, colapsou na noite de 4 de março de 2001, arrastando para as águas do rio Douro um autocarro onde seguiam 53 passageiros e três automóveis com seis pessoas. Não houve sobreviventes.
No plano político, o então ministro do Equipamento, Jorge Coelho, demitiu-se de imediato, afirmando: "A culpa não pode morrer solteira".
O Estado acabou por pagar 50 mil euros a cada família enlutada, com um adicional entre 10 e 20 mil euros para cada herdeiro, em função do grau de parentesco.
Inquéritos promovidos pelo Governo e pela Assembleia da República atribuíram o colapso da ponte a uma "conjugação de fatores", entre os quais a extração de inertes a montante de Entre-os-Rios.
No plano judicial, não houve condenados.
No dia 4 de maio de 2002, o então primeiro-ministro Durão Barroso inaugurava a nova travessia do rio Douro que substituiria a ponte original, pouco mais de um ano depois da tragédia.
A obra foi lançada e construída em tempo recorde, como assinalou na ocasião o autarca de Penafiel, que então cumpria os primeiros meses como presidente daquele município do distrito do Porto.
Em 2003, foi inaugurado um monumento em memória das vítimas mortais, em Castelo de Paiva, da autoria do arquiteto Henrique Coelho, designado "Anjo de Portugal", que tem na sua base inscritos os nomes das 59 pessoas que morreram no colapso da ponte.
Arranca hoje programa evocativo do 25.º aniversário da tragédia
A Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios vai realizar este sábado, 24 de janeiro, uma gala solidária que marca o início do programa evocativo do 25.º aniversário da queda da ponte Hintze Ribeiro, que causou a morte a 59 pessoas.
O programa, que se estende até 22 de março, inclui um conjunto de iniciativas que pretendem honrar a memória das vítimas, reforçar a solidariedade com as famílias e promover a reflexão coletiva sobre o acontecimento e os seus impactos.
"Entendemos que tínhamos que deixar uma pequena marca relativamente a estes 25 anos e, no fundo, relembrar [a tragédia], porque nós percebemos que os jovens ouvem falar, mas não têm conhecimento e muitas vezes alguns deles já nem sabem que há 25 anos surgiu um acidente que dizimou bastantes vidas", disse à Lusa o presidente da associação, Augusto Moreira.
A gala solidária, que irá decorrer no salão polivalente da Escola Secundária de Castelo de Paiva, conta com a presença de várias entidades, bem como dos presidentes dos municípios de onde eram naturais várias das vítimas da tragédia: Castelo de Paiva, Cinfães, Penafiel e Gondomar.
"Será um momento de reflexão, convidando as pessoas a refletir e, no fundo, a partilhar esta união que existiu entre os familiares. Eu acredito seriamente que alguém vai chorar, que alguém se vai emocionar", disse Augusto Moreira.
Outro dos momentos altos serão as cerimónias oficiais, no dia 4 de março, que incluem uma missa de homenagem às vítimas, o lançamento de flores à hora do acidente, junto ao rio Douro, e a inauguração do memorial (25 anos) nas freguesias envolvidas, com descerramento e breve momento de evocação.
"Este memorial é simbólico. Vai ser colocado em todas as freguesias onde houve vítimas, para também a freguesia não esquecer esse facto. O memorial terá o 'Anjo de Portugal' e uma placa com os nomes das pessoas dessa freguesia que perderam a vida no acidente", explicou o presidente da associação.
O programa evocativo inclui ainda a 9 de fevereiro o aniversário do Centro de Acolhimento que foi criado na sequência da tragédia, e no dia 20 do mesmo mês um seminário dedicado ao estudo da tragédia, com reflexão sobre o papel dos meios de comunicação, que contará com a presença de jornalistas que acompanharam o acontecimento e especialistas em comunicação, proteção civil e gestão de crises.
Para encerrar as comemorações, está prevista uma caminhada solidária junto ao rio Douro a 22 de março.
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