Um fiscalista brilhante, um português do mundo
Manuel Anselmo Torres faleceu na semana passada. Amigos recordam-no como um homem bom e uma inteligência viva
Manuel Anselmo Torres | Missa de sétimo dia do advogado realiza-se hoje pelas 17H00 na Igreja de Santa Isabel.
De vez em quando Manuel Anselmo Torres metia-se no avião e desaparecia do escritório, como aconteceu em 2010 quando decidiu fazer uma visita inesperada à Expo em Xangai. Outras vezes incluía o escritório nas suas expedições, como quando em Abril surpreendeu o seu pupilo Francisco Geraldes Simões com uma viagem pedagógica a Washington para assistir à leitura de sentenças fiscais pelo Supremo Tribunal norte-americano. No passado dia 1 de Outubro, Manuel Torres faleceu depois de ter sido consumido por uma doença prolongada, tendo deixado aos amigos impressões marcantes da sua personalidade curiosa, do espírito original, da inteligência viva.
O amigo e também fiscalista João Taborda da Gama descreve-o como um "original em tudo" - nas alegações judiciais, nas aulas perante os alunos, nas conversas privadas, na forma de estar - atribuindo esta diferença ao facto de ter sido "um homem do mundo".
Embora tenha feito a sua formação académica principal em Portugal, Manuel Torres passou parte da infância na Alemanha, por imperativos profissionais da família, e quando regressa é inscrito no colégio alemão. A licenciatura que tirou sem brilho nem distinção na Faculdade de Direito de Lisboa, anestesiado pelos métodos de ensino que ali encontra, seria complementada com estudos nos Estados Unidos e em Londres, uma experiência internacional que o ajudou a "ver as coisas com uma perspectiva maior", muito para lá da visão paroquial do "nosso mundo relativo".
Foi precisamente esta "originalidade", um dos qualificativos mais repetidos pelos amigos ouvidos pelo Negócios, que seduziu Francisco Geraldes Simões, quando há quatro anos se cruzou com Manuel Torres na pós-graduação de fiscalidade na Universidade Católica. "Fiquei completamente surpreendido. Era um professor muito exigente e ao mesmo tempo de uma originalidade enorme". Francisco recorda-lhe a rapidez de raciocínio e a grande facilidade de expressão: "Não era do tipo de professores que enquanto o aluno formulava a ideia já estava a pensar na resposta. Ouvia tudo o que dizíamos até ao fim, e tudo era mesmo tudo", o que até se tornava por vezes embaraçoso, confessa. Com dois anos de experiência na Deloitte e uma carreira de consultor pela frente, Francisco não hesitou em oferecer-se como estagiário no escritório, onde permaneceu até hoje e onde permanecerá como sócio, a tentar continuar o legado de quem considera ter sido um verdadeiro mestre.
Integridade e intransigência
Manuel Anselmo Torres era um advogado discreto, mas um dos mais proeminentes na sua área. Estreou--se na área da consultoria fiscal na PWC, fundou o departamento fiscal da PLMJ, mas acabaria por optar por "um percurso solitário", nas palavras de João Gama, através da criação de uma "boutique fiscal" própria. Era advogado de alguns dos maiores grupos nacionais, era contratado amiúde para segundas opiniões e estava sempre disponível para trocas de impressões.
A sua reputação foi construída à custa da sua qualidade técnica, da sua extrema discrição, mas também da sua integridade - outra característica que é referida amiúde. "Em tudo o que fazia, não ia para lá dos limites da lei. Não fazia planeamentos fiscais abusivos e em tudo tinha conta, peso e medida", recorda João Gama. "O Manuel era um homem de bem - cumpridor e, por isso, intransigente para os outros, quanto aos valores éticos", acrescenta o advogado Rui Barreira, outro amigo de afectos e cúmplice intelectual.
Nas suas posições públicas, era frontal, como atesta o artigo que escreveu há poucas semanas para o Negócios sobre a reforma do IRC. "Não lhe passava pela cabeça elogiar uma nova política só porque ela beneficiaria os seus clientes", sustenta João Gama. O trabalho era também ditado pela exigência e até pela intransigência, "não sucumbia à tentação de deixar passar uma coisa só porque sim", quando era para fazer, "fazia-se com pés e cabeça", garante Francisco Simões.
Durante os três anos em que foi sendo consumido pela doença, Manuel Torres nunca deixou de ir ao escritório, não abandonou as aulas. Francisco recorda que ainda dez dias antes de morrer estiveram juntos no escritório à volta de umas alegações e a fazer o que o seu amigo Rui Barreira costuma chamar de "espremer o azeite das pedras". No fim, fecharam o envelope, com saliva - "dizia que não podíamos usar cola, que temos de lamber o envelope para sentirmos que o trabalho vem lá de dentro" - e foram juntos entregar o trabalho aos Correios.
Rui Barreira, que o conheceu há muitos anos num jogo do Benfica mas depressa encontrou outras afinidades, diz que perdeu um companheiro de tertúlia e um confidente. No estilo, compara-o a Saldanha Sanches: "O Manuel era um homem bom, um homem de bem e um sábio. É curioso que tendo tido percursos de vida tão diferentes, perspectivas filosóficas não coincidentes, modos de ser diferenciados, o Manuel e o Saldanha Sanches eram semelhantes nessas características". O mesmo Saldanha Sanches que sobre ele dizia que era a excepção que confirmava a regra: o aluno preguiçoso e negligente que se fez um profissional brilhante.