O que pensa o homem que faz frente a Mario Draghi
Há duas coisas de que Jens Weidmann foge como o diabo da cruz: ficar refém dos políticos, enfraquecendo a independência do banco central; e permitir que a disciplina orçamental na Zona Euro seja desrespeitada. Ceder numa ou noutra frente constitui uma ameaça à estabilidade e sobrevivência da união monetária, ou pelo menos da união monetária em que a Alemanha aceitou participar, defende o governador alemão que, na quinta-feira, discursou em Lisboa na capela que o Banco de Portugal transformou num notável auditório, iniciando o discurso com um reconhecimento da oportunidade histórica que o acaso lhe proporcionou: "É a primeira vez que prego a ortodoxia alemã numa igreja", ironizou.
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Em Lisboa, Weidmann falou menos de política monetária, e mais dos desequilíbrios institucionais acumulados com a crise da Zona Euro, e que resultam de muita solidariedade e estímulos e para poucos cuidados com o enfraquecimento da disciplina orçamental e da independência do BCE. Esta é uma mensagem que tem levado a várias capitais europeias.
Uma análise às suas últimas intervenções revela um homem que se opõe a todos os programas de compra de dívida do BCE, isto apesar das intervenções do banco central terem, segundo muitos especialistas, salvo a Zona Euro. Weidmann apresenta vários argumentos: não há risco de deflação na Europa, o banco central não pode financiar ou resolver problemas de solvência de Estados-membros; as baixas taxas de juro incentivam o laxismo orçamental dos ministros das Finanças e promovem bolhas nos mercados; e igualmente perigoso no seu entender: demasiada dívida pública no balanço do banco central limitará a sua capacidade de retirar estímulos no futuro. Numa recente entrevista ao jornal Der Tagesspiegel expôs os riscos: "Não podemos permitir que o Eurosistema fique refém dos políticos. Nós os banqueiros centrais precisamos de conseguir sair das políticas monetárias expansionistas quando o tempo chegar, nem que isso signifique causar incómodos aos políticos porque tal aumentará a factura juros".
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Da união de estabilidade à união de transferências
No final de 2014 a Comissão Europeia convidou a França a alterar o seu orçamento por não cumprir com as regras europeias de redução de défice público. A reacção não se fez esperar: "A Comissão não tem absolutamente poder nenhum para rejeitar, chumbar ou censurar um orçamento. Aqui como em outros países, a soberania pertence ao parlamento francês", afirmou Michel Sapin. As palavras do ministro das Finanças francês ficaram a ecoar na cabeça de Weidmann, de tal formaque as citou em Lisboa passados 12 meses, isto depois de já o ter feito em discursos em Paris e na Alemanha, em Setembro e Novembro.
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Para o banqueiro central, a posição francesa é o exemplo de um preocupante desequilíbrio institucional criado na Zona Euro nos últimos anos, que resulta de se terem mutualizado de responsabilidades – por via de compras de dívida pública pelo BCE e vários programas de resgate – sem se terem centralizado as decisões de política económica, que continuam na esfera nacional.
"É uma ilusão separar responsabilidades e controlo sem comprometer a estabilidade da união monetária. E não há volta a dar: a combinação de soberania nacional e solidariedade comum pode colocar em risco a estabilidade da nossa união monetária", uma vez que "permitir que o fardo orçamental nacional seja transferido para a comunidade de todos os outros Estados irá enfraquecer os incentivos para políticas orçamentais saudáveis no longo prazo", defendeu em Lisboa, num discurso que seguiu de perto o guião que levou a Paris
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Este desequilíbrio, defendeu Weidmann já pelo menos por três vezes este ano, ameaça destruir a "união de estabilidade" desejada pelos alemães, para dar lugar a uma "união de transferências" orçamentais entre países. Um risco agravado pelo facto das regras orçamentais europeias não estarem a ser cumpridas com a complacência de Bruxelas. Uma evolução nesse sentido é inaceitável, entende, defendendo a criação de uma autoridade orçamental europeia e penalizações para os países mais endividados, com destaque para a imposição de rácios de capital mais elevados para os bancos com dívida pública, e em particular com dívida pública mais arriscada.
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