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Lagarde ilustra desafios dos banqueiros centrais com descobrimentos portugueses

Directora-geral do FMI elogia Portugal e ilustra os novos desafios que se colocam à política monetária com as descobertas dos marinheiros portugueses do século XV.

Bloomberg
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 25 de Maio de 2014 às 20:52
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A crise tirou os bancos centrais da sua zona de confronto. Mudou-lhes os mandatos, desafiou-lhes a independência e reforçou a importância da coordenação entre países e regiões. Estas são novas águas para os banqueiros que, tal como os marinheiros dos descobrimentos portugueses, têm pela frente o desafio de navegar mares que desconhecem. A comparação é de Christine Lagarde, a directora-geral do FMI, que na noite domingo discursou na abertura do primeiro Fórum do BCE sobre Banca Central dedicado ao tema "Política Monetária numa paisagem financeira em mudança".

 

À responsável máxima do Fundo coube o discurso de abertura do encontro organizado em Sintra e, logo na introdução, afirmou que  "Portugal não podia ser um melhor local para esta reflexão", seja pela experiência recente, seja pela de há cinco séculos. "Estar nesta costa, na fronteira da Europa perante o vasto Atlântico, naturalmente faz-nos querer explorar. Tal como deverá ter acontecido no século XV, quando os bravos aventureiros como o Vasco da Gama se terão perguntado o que está pela frente – monstro ou maravilha", afirmou Lagarde.

 

"Hoje novamente, Portugal olha para frente. Está a completar com sucesso o seu programa de reformas económicas com determinação e um esforço significativo dos portugueses. Agora, passado o trabalho urgente de combate ao incêndio, começa a virar a esquina da crise e a construir sobre o ganhos que conseguiu", continuou, acrescentando que também ela pretende "olhar para frente", ou seja, "para o futuro da política monetária depois da crise", agora que a economia começa a estabilizar num "novo normal" que ninguém ainda conhece muito bem. "Como navegamos estes mares?", perguntou.

 

Lagarde elege três desafios

 

A directora do FMI identificou três temas centrais no novo mundo da política monetária: "a evolução do mandato da política monetária", "a independência da política monetária, dado um mandato mais abrangente para os banqueiros centrais" e, finalmente, os desafios colocados pelas "crescentes interligações financeiras" no mundo, com especial impacto nas economias emergentes e nas pequenas economias abertas.

 

Lagarde não tem dúvidas que, daqui para a frente, não bastará aos bancos centrais preocuparem-se com a estabilidade de preços. Terão de ajudar também a garantir a estabilidade financeira, seja directamente através da política monetária, seja assumindo novas funções como supervisores e até definidores das regras prudenciais (por exemplo rácios de capital) que se aplicam aos bancos.

 

"Precisamos de continuar a lutar por enquadramentos prudenciais melhores de forma a não sobrecarregar a política monetária. Mas onde as políticas macroprudenciais falharem, a política monetária terá um papel mais importante que no passado a manter a estabilidade financeira", defendeu.

 

Estes novos desafios, continuou Lagarde, não devem, contudo, tornar mais confuso o mandato das autoridades monetárias que tem de se manter claro, definido em relação a um objectivo mensurável, e possibilitando que as autoridades monetárias o consigam entregar sem margem para dúvidas.

 

A história já mostrou que isto é possível para a estabilidade de preços, mas o mesmo será muito difícil para estabilidade financeira, um conceito ambíguo e difícil de medir, e que muitas vezes envolve avaliações políticas pouco compatíveis com a independência atribuída aos bancos centrais. É por isso importante que os bancos mantenham a política monetária centrada em torno de objectivos claros de inflação. A estabilidade financeira, quando fizer parte das funções banco central, deve funcionar de forma paralela e independente da política monetária, defendeu.

 

"Precisamos de uma estrutura institucional que proteja o objectivo da estabilidade de preços. Noutras palavras, uma estrutura que garanta que a política monetária continuará a focar-se na estabilidade de preços, e que ainda se pode basear nos seus três pilares [objectivos mensurável, claro e ao alcance das autoridades], e que seja operado de forma independente", afirmou.

 

Finalmente, Lagarde reforçou a importância da "cooperação na política monetária internacional" no pós-crise, de forma a evitar efeitos negativos de decisões de uma economia nas restantes, uma área em que o FMI poderá ajudar.

 

"Se as políticas forem vistas apenas de uma perspectiva nacional, podemos acabar num mundo de intervençõs 'adhoc', menos equilibradas, e potencialmente exportando instabilidade financeira", afirmou, considerando que "este seria um mundo de grandes perdas de bens estar em muitos países".

 

A directora-geral do Fundo aconselhou ainda todas as economias a procurarem manter fundamentais económicos saudáveis e, no caso das economias emergentes e outras pequenas economias abertas, recomendou a "utilização de todo o conjunto de instrumentos à disposição", incluindo controlos de capitais e intervenções cambiais quando necessário.

 

O encontro do BCE decorre até terça-feira e contará com a intervenção de um vasto conjunto de académicos e banqueiros centrais, de Mario Draghi e Stanley Fischer, passando por Otmar Issing, Paul Krugman e outros.  

 

(Notícia actualizada às 21h21 com mais declarações de Christine Lagarde)

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