O caçador de nevoeiro
Nas favelas de Lima, no Peru, há um homem decidido a levar água a quem vive sem ela. Para isso, instalou redes que "capturam" as micro-gotas do nevoeiro. É o mesmo que "vindimar as nuvens", diz.
Globalmente, 1 em cada 10 pessoas não tem acesso a água de rede. Abel Cruz é um empreendedor peruano e está a tentar encontrar uma solução para este problema, usando redes para "caçar" nevoeiro.
A ideia, diz Abel à BBC News, é "vindimar as nuvens".
Para isso, instalou redes de nevoeiro que capturam as micro-gotas suspensas no ar. Estas ficam presas à malha da rede e descem até às tubagens, que percorrem até ao tanque ali instalado, nos arredores de Lima – capital do Peru.
E o sucesso é grande: "conseguimos 200 a 400 litros de água por dia, de cada rede", explica Abel Cruz, que diz que as pessoas não conseguiam ver esta água que estava mesmo defronte dos seus olhos.
"Estamos a mudar a vida de cerca de 6.500 pessoas neste preciso momento", sublinha Abel, que lidera o grupo "Peruanos Sem Água". Com efeito, as 60 redes que instalou nesta região de Lima fornecem água gratuita a 250 famílias, que a usam nas suas colheitas.
A água obtida é, assim, usada essencialmente na agricultura de pequena escala. Isto porque ainda não se pode beber. Mas lá se chegará – é essa a convicção de Abel Cruz, que já tem planos para começar a tratá-la de modo a torná-la potável.
"Estamos a dar meios de subsistência às pessoas mais pobres, para poderem ter as suas hortas urbanas", diz, com um ar visivelmente feliz.
Abel cresceu numa favela e sabe o que é esperar que haja finalmente acesso a água canalizada. Pesquisou na Internet e pôs-se em contacto com especialistas em redes de captura de nevoeiro, tendo posteriormente conseguido angariar fundos para centenas destas redes no Peru.
A agricultura com recurso a água proveniente do nevoeiro é um projecto ainda numa fase muito incipiente, que conta com 15 projectos em todo o mundo. E as redes de captura de nevoeiro exigem condições climatéricas muito específicas: nevoeiro consistente e vento fraco, além de terras onde colocar as redes.
Nos locais onde estes projectos têm sido implementados, os fundos chegam sobretudo através de doações. O sector privado não demonstrou ainda grande interesse, já que considera que são projectos temporários, uma vez que a água canalizada acabará por chegar a todo o lado. Mas centenas de milhares de pessoas dos arredores de Lima vivem há décadas sem água de companhia e a água que obtêm é a que lhes é levada em camiões – e que lhes permite ter o que beber. Com o projecto de Abel Cruz, já há quem veja mais esperança no futuro.