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A Índia não se conforma quando um galã cai em desgraça

Em frente ao portão da prisão central de Chanchalguda, na região de Hyderabad, no Sul da Índia, as manifestações de apoio sucedem-se desde que, na noite do passado dia 9 de Janeiro, aquelas instalações passaram a encarcerar Ramalinga Raju, fundador da quarta maior tecnológica do país.

Elisabete de Sá esa@negocios.pt 16 de Janeiro de 2009 às 11:01
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Em frente ao portão da prisão central de Chanchalguda, na região de Hyderabad, no Sul da Índia, as manifestações de apoio sucedem-se desde que, na noite do passado dia 9 de Janeiro, aquelas instalações passaram a encarcerar Ramalinga Raju, fundador da quarta maior tecnológica do país.

Entre orações e rosas, o papel de vilão parece assentar-lhe mal, mesmo depois de ter deixado a Índia em choque, ao confessar que dos cerca de 829 milhões de euros declarados no balanço da empresa, mais de 735 nunca existiram. As reservas, até então generosas, estavam também inflacionadas. Durante anos, admitiu o gestor, as contas da Satyam Computer Services foram manipuladas. Os lucros, inflacionados.

A 7 de Janeiro, Ramalinga confessou ser o autor do maior escândalo empresarial que a Índia alguma vez viveu. O gestor, de 54 anos, demitiu-se do cargo de "chairman" e pediu desculpa a accionistas, administradores e funcionários. Numa carta enviada ao conselho de administração, manifestou "profundo pesar" e pediu "sinceras desculpas".

As acções da empresa caíram a pique. Dois dias depois, Ramalinga Raju e o seu irmão Rama, ex-director da Satyam, foram detidos, enfrentando acusações de conspiração criminal e falsificação.

O governo de Nova Deli, que entretanto destituiu todo o conselho de administração da empresa, entregou já a três gestores de renome a missão de restituir "a credibilidade à empresa, a confiança aos clientes e a moral aos funcionários". São quase 53 mil as pessoas ao serviço da Satyam em mais de 65 países. E que, de um dia para o outro, viram a empresa onde trabalham a ser comparada com a Enron, a gigante americana que em 2001 declarou falência, arrastando consigo o emprego e as pensões de mais de 20 mil funcionários.

Para já, a empresa tem desmentido todos os rumores que dão conta de que 10 mil funcionários iriam ser dispensados e que nos cofres não existiria dinheiro para pagar os salários de Janeiro. A nova administração diz que precisará de três meses para refazer as contas e apurar a dimensão do buraco contabilístico criado por Ramalinga.

Até lá, para sobreviver, terá que recorrer à banca, pois o governo indiano já anunciou que não irá accionar qualquer plano de salvamento. Trata-se, como salientou o próprio ministro da Economia, de dar um sinal ao mercado. Casos como este não serão tolerados. Os ex-gestores da Satyam e os seus auditores externos, a PricewaterhouseCoopers (PwC), terão que responder perante as autoridades federais que estão a conduzir as investigações.

Pela primeira vez, a Índia debate-se agora com a fragilidade de um sistema societário construído em cima de "escassos direitos accionistas, deficitária protecção dos investidores e fraca independência nos conselhos de administração", enumera, entre outras questões, Sharmila Gopinath, directora da Asian Corporate Governance Association.

Mas o mais difícil de aceitar parece ser mesmo o choque de ver cair um homem que, nos últimos anos, dentro e fora do país, acumulou prémios e títulos pela sua excelência na gestão. Em 2007, foi eleito o melhor empreendedor indiano pela Ernst & Young e, em 2008, recebeu o disputado Golden Peacock Global Award for Excellence in Corporate Governance, o maior galardão empresarial da Índia, atribuído pelo Council of Institute of Directors. Anunciada a fraude, o prémio foi já retirado à Satyam. Na Índia, nas empresas, como em Bollywood, não se perdoa que o galã seja, afinal, o vilão da história.

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