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Empresas lusas em Angola: os sinais estavam todos lá

De "um ano difícil" antecipado para 2015, Angola passou a um pedido de ajuda ao FMI. As empresas portuguesas investiram, esperaram por melhores dias e desesperaram nos últimos 16 meses. Construção, bebidas e TI foram os sectores mais afectados.

Isabel Aveiro ia@negocios.pt 07 de Abril de 2016 às 13:50
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"Preferia que o problema de Angola não existisse", disse este Verão Fernando Ulrich, ainda longe da data do fim do prazo dado pelo BCE para a redução da exposição ao mercado angolano. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, terá as suas razões para ter afirmado, há um ano, esperar "não ter necessidade de voltar a Angola nos próximos anos", mas a verdade é que o "desespero" do empresariado português com a situação daquele mercado transcende o sistema financeiro.

O ano de 2015 começou com sinais claros que a queda do preço do petróleo desde meados de 2014 iria trazer consequências significativas à economia do segundo maior produtor do continente africano.

"Nós sabemos que a nossa economia tem como base o petróleo. Deveremos aguardar que o primeiro trimestre traga sinais completamente diferentes e que mantenha uma tendência crescente no preço do petróleo", disse a 2 de Janeiro de 2015 o ministro dos Petróleos angolano, Botelho de Vasconcelos. Já na altura, o governante angolano reconheceu que a descida continuada dos preços nos mercados de referência desde o Verão de 2014 estava a ter um impacto na economia angolana e que a situação era "preocupante".


Exportar a austeridade

"Na medida das nossas possibilidades, estamos dispostos a ajudar naquilo que for possível. Nós temos experiência do que é a austeridade e, portanto, reconhecemos que é preciso ajuda", prontificou-se 10 dias mais tarde Rui Machete. Mal sabia o então ministro dos Negócios Estrangeiros português o que a afirmação tinha de premonitório – um ano antes de ser conhecido o pedido de ajuda de Angola ao FMI.

"A economia tem destas coisas, os ciclos fazem parte da vida, e talvez seja bom para incutir uma perspectiva de que ninguém está sempre bem nem sempre mal. A economia tem ciclos e há variáveis externas que impactam terrivelmente a nossa vida, quer em Portugal quer em Angola", defendia um mês depois Paulo Varela à Lusa. O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIPA) destacava na entrevista à agência a "ironia" de a austeridade decretada em Angola acontecer depois da saída de Portugal do programa de ajustamento financeiro.

Sem ironia, mas com alguma capacidade de resistência e encaixe, alguns membros da comunidade portuguesa de 150 mil expatriados via, no arranque do ano passado, a situação de Angola – já com dificuldades de liquidez e movimentação de capitais - como um "período de alguma anormalidade" mas não "inédito em Angola".

Doze meses depois, a situação tinha-se agravado e o humor azedado, à velocidade da desvalorização cambial da moeda angolana. "Uma coisa é uma desvalorização de 2% a 3% que se consegue amortecer, outra coisa é uma desvalorização desta grandeza (15%)", desabafava Pedro Fraga, CEO da F3M, ao Negócios, em Janeiro passado. Eram mais as vozes que agora falavam em pagamentos por receber e salários por pagar em Angola, incluindo o Governo português.

Numa resposta ao PCP, à qual a Lusa teve acesso, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, reconhecia, a 6 de Janeiro passado, que "é certo que no actual contexto existem cidadãos nacionais (e também de outras nacionalidades) que vivem e trabalham em Angola e que se vêem confrontados com salários em atraso e/ou se deparam com dificuldades na realização de transferências de salários para Portugal".

Uma situação para a qual a comunidade internacional já estava alertada: a revista britânica The Economist, num relatório divulgado aos investidores a 11 de Junho último, afirmava haver "uma forte probabilidade de o Estado [angolano] ir novamente começar a atrasar-se nos pagamentos aos fornecedores". 

Nesse mês do Verão de 2015, Portugal já sabia que mais de três mil cidadãos seus iriam abandonar o território angolano, porque em muitos casos era a alternativa ao incumprimento de pagamento de salários aos expatriados. Em declarações ao Jornal de Notícias, Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção, previa que "muitos mais trabalhadores" se seguiriam àquele êxodo.

"Como resultado de alguma dificuldade momentânea de alguns pagamentos, há trabalhadores portugueses que estão a regressar a Portugal, alegando isto mesmo", admitia três meses depois o embaixador de Angola em Portugal, José Marcos Barrica, à Lusa.

O custo de vida de Angola, especialmente Luanda, não é aliás complacente com imigrantes cujo salário é a única fonte de rendimento, especialmente se estiver em atraso há vários meses, como explicaram vários portugueses à Lusa. A capital angolana é a cidade mais cara do mundo para um trabalhador estrangeiro.

Um pacote de leite comprado por um expatriado em Luanda tem um custo de 2,76 euros, contra 75 cêntimos em Lisboa. Um menu do Mcdonald’s que em Portugal se paga com uma nota de cinco euros, custa três vezes mais na capital angolana, onde a renda de um apartamento T2 pode ascender a 5.792 euros.

Hoje, o problema do abastecimento tornou-se numa questão bastante mais difícil, segundo a Lusa, mas a ministra do Comércio, Rosa Pacavira, garantiu em final de Fevereiro passado que "não há escassez" de alimentos essenciais.

PME Angola: dos 500 aos 6 milhões

Cada vez mais ciente que o "exercício de austeridade" angolano estava a transformar-se na dor de cabeça das exportadoras, sobretudo agro-alimentares, construtoras e fornecedoras de bens e serviços em Angola, o anterior Governo de Passos Coelho anunciava há um ano medidas de apoio à iniciativa privada nacional.

"Não ignoramos o que se está a passar em Angola e o Governo tem procurado inteirar-se dos constrangimentos que têm resultado para as empresas, quer para as que exportam para Angola, quer para as que estão a produzir em Angola", avança a 1 de Abril de 2015, Passos Coelho, na Assembleia da República.

Pires de Lima, então ministro da Economia, avança que vai haver uma linha de apoio de 500 milhões de euros para "ajudar as empresas com exposição importante em Angola a gerirem a sua tesouraria e fundo de maneio neste período importante". A medida seria aprovada em Conselho de Ministros de 2 de Abril.

Na assinatura do protocolo para a operacionalização da linha de crédito para PME com presença em Angola, a 24 de Abril de 2015, Pires de Lima garantia o mecanismo era "o terceiro instrumento", resultado da diplomacia com Angola, depois de ter sido travada quer a implementação do decreto que impunha quotas às exportações portuguesas do sector alimentar e de bebidas, quer a aplicação de um imposto especial sobre as transferências de dinheiro para fora do país africano.

Em Lisboa, Angola mantinha-se "uma aposta estratégica" para Portugal, na visão do anterior titular da pasta da Economia. Mas em Luanda, as PME desesperavam. Os empresários ouvidos pelo Negócios acreditavam, contudo, que a linha de crédito de 500 milhões de euros anunciada pelo Governo iria ajudar a aliviar os problemas de tesouraria.

"Há mais de 300 empresas que estão a recorrer a esta linha de crédito e nós no Governo, em concreto no Ministério da Economia, estamos atentos porque se for necessário ampliar esses 500 milhões assim o faremos, ou proporemos em Conselho de Ministros", dizia António Pires de Lima, a 22 de Junho. A linha derrapa para Julho.

Mas, devido à falta de procura, noticiou no passado dia 4 de Abril a TSF, a linha foi reduzida para 100 milhões de euros. E, no total, foram utilizados perto de seis milhões de euros até hoje, o que dá uma taxa de execução de 6%. As pequenas empresas, com 18 trabalhadores em média, foram os principais beneficiários da medida.

cotacao As nossas empresas estão a passar momentos críticos, mas foram para lá numa visão de longo prazo e estão à espera que isto passe. O problema é saber se irão aguentar. Reis Campos Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas a 23 de Fevereiro

Construção: Soares da Costa, Mota, Somague

Afectada directamente pelos sucessivos cortes de investimento público angolano em infra-estruturas e abrandamento da economia em geral, a construção portuguesa reage. É, afinal, a Angola que vai buscar metade dos 9,8 mil milhões da facturação que realiza externamente. "As nossas empresas estão a passar momentos críticos, mas foram para lá numa visão de longo prazo e estão à espera que isto passe. O problema é saber se irão aguentar", explicou Reis Campos, Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, a 23 de Fevereiro.

Há um ano, o sector chega mesmo a solicitar a Pires de Lima uma outra linha de crédito de apoio à tesouraria e fundo de maneio especificamente para as empresas do sector, também de 500 milhões de euros - correspondente "a cerca de 25% da actividade anual das empresas portuguesas de construção em Angola".

"Um trabalhador em Portugal ganha 545 euros, em média, e em Angola 2.500 euros", disse recentemente o presidente do Sindicato da Construção Civil, Albano Ribeiro. E, segundo o mesmo responsável, já em finais de 2015 havia 80 mil que iriam terminar aquele ano com atrasos.

"Há 200 mil trabalhadores portugueses a trabalhar na fileira da construção em Angola e cerca de 40% têm entre dois e seis meses de salários em atraso", referia o dirigente sindical.

cotacao 

Para salvar 4.000 [trabalhadores] vamos ter de sacrificar 500Joaquim Fitas CEO da Soares da Costa

Numa das situações mais graves nos últimos dois anos, a Soares da Costa decidiu realizar o despedimento colectivo de 500 trabalhadores. "Infelizmente, a pior notícia aconteceu. Na segunda-feira o presidente executivo da Soares da Costa, Joaquim Fitas, ligou-me a dizer que, entre esta sexta-feira e a próxima terça, vai chegar de Angola o dinheiro para avançar com o despedimento colectivo de 500 trabalhadores, que envolve mais de 15 milhões de euros", afirmou Albano Ribeiro em declarações à agência Lusa.

A crise económica e financeira instalada em Portugal e em Angola, o principal mercado do grupo, "continua a ter repercussões nefastas para a Soares da Costa", justificou a administração no final de 2015. A Soares da Costa tinha então cerca de 4.300 trabalhadores, dos quais mais de 800 em Portugal e quase 3.500 nos restantes mercados (Brasil, Angola e Moçambique). "Para salvar quatro mil vamos ter de sacrificar 500", disse o CEO, Joaquim Fitas, ao Negócios.


Na Somague, foi também a quebra de actividade em Angola, Brasil e Moçambique que justificou a necessidade de "ajustar à nova realidade". Leia-se reestruturação seguida de redução de 273 postos de trabalho.

No grupo Mota-Engil, a situação de Angola começou por ser olhada pela administração com "cautela normal", que a companhia tem "sempre em qualquer negócio e mercado", mas "com grande tranquilidade". Gonçalo Moura Martins, presidente executivo da Mota-Engil, reiterava em Fevereiro de 2015 o "compromisso sério e perene [com Angola]" e dois meses mais tarde recusava "qualquer impacto" da queda do petróleo.

Até Setembro passado mantinha que não sentira, até àquela data, "sinais de deterioração nos recebimentos em Angola, com as facturas a serem pagas numa base recorrente", apesar "do agravamento do ambiente macroeconómico do país".

Mas em Novembro ficou a saber-se que o volume de negócios da Mota Engil em África caiu 29,5% nos primeiros nove meses de 2015, para 593 milhões de euros, "devido principalmente à menor actividade no Malawi e em Angola". Esta semana, a empresa revelou que, em 2015, África deixou de ser o principal mercado da Mota Engil, ao registar uma quebra do volume de negócios de mais de 21%, 835 milhões de euros num ano. Pelo meio, a construtora retirou a Mota Engil África da praça de Amesterdão, onde tinha sido cotada há menos de um ano.

cotacao Há 200 mil trabalhadores portugueses a trabalhar na fileira da construção em Angola e cerca de 40% têm entre dois e seis meses de salários em atraso. Albano ribeiro Presidente do Sindicato da Construção Civil [final de 2015]

Bebidas: Unicer, Central de Cervejas, Sumol+Compal

"Temos alguma renitência principalmente dos importadores de Portugal, que trazem Sagres, Super Bock e outras bebidas, que querem de facto continuar com grandes volumes de importação para Angola desse tipo de bebidas, mas temos estipuladas quotas de importação de bebidas, então vão sujeitar-se a estes mecanismos". Foi assim que Rosa Pacavira defendeu no Parlamento angolano, no âmbito das discussões na especialidade da revisão do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2015, a introdução de quotas à importação de alguns produtos alimentares, em Março de 2015.

 

O projecto de legislação acabou por não avançar. Mas o sector das bebidas, um dos segmentos que mais e melhor se destacava na balança comercial Portugal-Angola, no sentido exportador do termo, teve que enfrentar a retracção do seu principal mercado, o que alterou a estratégia das três maiores fabricantes.

No caso da Unicer, dona da Super Bock, a crise angolana justificou a reestruturação da empresa, com o encerramento de uma unidade (em Santarém) e a redução de 140 postos de trabalho. "A Unicer vai proceder ao reajuste da sua estrutura, face à retracção de alguns mercados, nomeadamente Angola, onde a empresa realiza uma boa parte dos seus negócios fora de Portugal", indicou em finais de 2015, em comunicado da empresa.

Manuel Violas, um dos accionistas e presidente da Unicer, defendia em Novembro de 2015 que os despedimentos anunciados se deviam à crise no mercado angolano, "que devido às circunstâncias desapareceu praticamente" - e "não sabemos quando poderá retomar".

Antes, em Julho, a empresa perdera já outro trabalhador: João Abecasis, até então CEO da empresa. "A minha saída tem a ver com o facto de eu ter uma visão estratégica diferente do accionista para o futuro da empresa", afirmava ao Diário Económico. "Temos visões estratégicas diferentes para a empresa" e "visões diferentes sobre o novo projecto que estava a ser desenhado. Pelo que chegou a altura de nos separarmos", disse Manuel Violas.

Na rival Central de Cervejas, o peso que o mercado angolano tinha nas vendas internacionais da fabricante da Sagres acabou, afirmou Pinto Magalhães em Maio de 2015, por provocar uma revisão da estratégia internacional da Central de Cervejas para esse ano, consolidando um alargamento de mercados.

O director de relações corporativas da SCC assumia, naquela data, que a fabricante da Sagres e dona da marca de águas Luso, registara até final de Abril, uma "variação negativa" das vendas de cerveja no mercado angolano, face aos primeiros quatro meses e 2014.

Finalmente, no caso da Sumol+Compl, a opção foi aliar-se aos franceses da Castel. O negócio, formalizado no último dia de Dezembro, consistiu na venda de 49,9% do capital social da S+C Marcas, dona, por sua vez, de 90% da Sumol+Compal Internacional. 

Nos primeiros nove meses de 2015, a companhia investiu 18,8 milhões de euros – "a grande maioria realizou-se em Angola na implementação do projecto da fábrica Bom Jesus para a produção e embalamento de sumos, néctares e refrigerantes", que iniciara produção dos sumos Um Bongo e Compal no terceiro trimestre daquele ano.

Contudo, a companhia chegara a avisar em Setembro anterior que Angola, o "principal mercado externo" da S+C, podia vir a ser "condicionada pelo abrandamento da actividade económica e pela escassez de divisas".

Exportações: Leite, carne de porco, sapatos

A diminuição do consumo do mercado angolano não afectou só as fabricantes de bebidas e não foi de resolução imediata para todos. Aliás, ainda hoje se sentem os seus efeitos em Portugal.

 

"O fim das quotas leiteiras, o embargo russo, o abrandamento do desenvolvimento da China e de mercados emergentes como Angola e Venezuela, além da redução do consumo interno do leite, em contraponto com um aumento de produção", foram factores apresentados pelo actual Governo para as dificuldades dos produtores do sector. Luís Vieira chamou-lhe a "tempestade perfeita". Os produtores protestaram.

Já no caso da suinicultura, a mesma conjuntura de abrandamento de alguns mercados emergentes, nomeadamente produtores de petróleo, ocasionou o mesmo resultado. Em meados de Dezembro, o ministro da Agricultura português, Capoulas Santos, criou um gabinete de crise para os sectores do leite e da suinicultura para "encontrar um ponto de equilíbrio que se traduza num preço justo, tanto para os produtores, como para os consumidores".

Já com os números de 2015 fechados, o sector do calçado registou uma queda de 15%, para 24 milhões de euros, no mercado angolano. "O ano que terminou foi particularmente exigente para as empresas de calçado, com o registo de perdas importantes, mas esperadas face à conjuntura actual", em países como Angola e Rússia (menos 52% para 21 milhões de euros). Ainda assim, o saldo das vendas para 152 países foi positivo.

O caso Sonae: Continente vs Nos

Ainda há duas semanas, Ângelo Paupério, co-presidente executivo da Sonae SGPS (juntamente com Paulo Azevedo), afirmava que o grupo "não tem qualquer compromisso no país" (Angola) com excepção da presença da Nos.

A afirmação acaba por resumir o que foi a estranha situação de a Sonae e a empresária Isabel dos Santos estarem a negociar uma parceria nas telecomunicações (Nos, detida em 50% pela ZOPT, joint-venture da Sonae e de Isabel dos Santos) enquanto se desfazia uma aliança entre ambos para a distribuição (Continente em Angola).

Os primeiros sinais que a aliança entre Isabel dos Santos e a Sonae para a distribuição não iria ver a luz do dia, depois da companhia portuguesa estar há anos à espera dessa parceria para abrir hipermercados Continente em Angola, surgiram há um ano, com a alegada fuga de quadros da SGPS para a empresa angolana.

Mas a confirmação veio em Setembro de 2015. Isabel dos Santos optou por se separar da Sonae e lançar sozinha o projecto de construção e gestão de uma rede de hipermercados em Angola. Para tal, criou uma empresa, a Contidis, e lançou a Candando, marca dos novos hipermercados que vai lançar no seu país, inspirados no Continente.

Miguel Almeida, CEO da Nos, que em Agosto tinha recusado envolver a operadora nas questões da distribuidora da mesma casa-mãe, a Sonae SGPS, defendeu já este ano que o problema de Angola era conjuntural e não estrutural, mesmo que se prolongue, acreditando que a Zap (operadora de TV de Isabel dos Santos e na qual a Nos também participa), tem "solidez" para o ultrapassar.

cotacao Angola tem um peso importante, mas se há uma coisa que aprendemos com a crise em Portugal foi que não podemos estar muito expostos a nenhum país em particular. Paulo salvado CEO da Novabase

 

Telecom e TI: PT, Novabase e Glintt

Noutra operadora de telecomunicações, contudo, a relação ainda pode estar longe de estar resolvida. A Oi, que tem a Pharol como maior accionista com 27,5% do capital, disse no final de Março passado que não "há novidades" no processo da venda da Unitel, que tem Isabel dos Santos como accionista. O activo da Unitel está avaliado em 5,5 mil milhões de reais (1,3 mil milhões de euros), nas contas da Oi, e é o centro de um conflito que vem desde Setembro de 2014.

Quem já decidiu diminuir o risco angolano nas suas contas foi a Novabase. A tecnológica vai reduzir a sua exposição a mercados emergentes com mais volatilidade, como os africanos, nomeadamente Angola, para manter a trajectória ascendente nos negócios internacionais, que em 2015 ultrapassaram pela primeira vez os 100 milhões de euros em volume de negócios.

"Angola tem um peso importante, mas se há uma coisa que aprendemos com a crise em Portugal foi que não podemos estar muito expostos a nenhum país em particular. É natural que haja algum atraso de pagamentos e de alguns projectos. Obviamente vamos tomar medidas de maior prudência nos projectos que fazemos", avisara já em Fevereiro de 2015 Paulo Salvado, CEO da empresa.

A Glintt reconheceu, logo em Maio de 2015, que o abrandamento da actividade internacional da companhia sentida no primeiro trimestre daquele ano tinha sido influenciado pelo "contexto económico do mercado angolano". A queda dos preços do petróleo condicionou a "capacidade de investimento dos clientes angolanos" a que se somou a "introdução de medidas de carácter fiscal com impacto na actividade de entidades estrangeiras a operar naquele mercado".

No final do ano, Angola acabou por ser parte da justificação das perdas anuais de 46 milhões, tendo sido constituídas provisões relativas à sua subsidiária naquele país, com um impacto negativo de 5,8 milhões. 

Aviação: TAP e Samsonite

No transporte aéreo, houve várias mudanças que condicionaram a estratégia da TAP – mudança de governo, privatizações e reversões. Mas, na estratégia, Angola já foi mencionada pelos novos accionistas.

"A aceleração dos planos de expansão nos Estados Unidos está ligada ao arrefecimento económico que se está a verificar em alguns dos principais mercados internacionais da TAP, como o Brasil ou Angola, e à consequente necessidade de diversificar os mercados onde a companhia opera, de forma a reduzir a exposição ao abrandamento sentido nesses países", disseram os novos accionistas, da Atlantic Gateway, em Janeiro deste ano.

Quem ainda não pôde aviar a mala foi a Modarte. A empresa portuguesa tinha planos para explorar a licença da fabricante de malas Samsonite em Angola, com o investimento de um milhão de euros numa rede retalhista, mas o abrandamento da economia angolana adiou a parceria para outras calendas. "E não prevemos que seja para breve. No arranque de 2015 já se faziam sentir [dificuldades], aconselhámo-nos com agentes do mundo da finança e da energia e disseram-nos que não seria uma crise passageira. Pusemos um travão e veio a verificar-se que fizemos bem", resumiu o gestor da empresa em Janeiro passado.

Restauração: Ibersol e Casa do Marquês

Igual destino teve o projecto angolano da Casa do Marquês. "Tínhamos tudo aprovado e pronto a avançar em Luanda, inclusive com os engenheiros, mas mandámos parar para estudar melhor a situação", explicou ao Negócios José Eduardo, ex-futebolista do Sporting e líder da empresa.

A cotada Ibersol, que representa marcas de restauração como a Pizza Hut e a Burger King, chegou a avisar o mercado, em Agosto passado, dos efeitos do risco cambial em Angola nas contas da empresa. Naquele país, alertava, era previsível "manter-se a desvalorização da moeda e um aumento da inflação" que deveriam "determinar impactos negativos ao nível dos resultados financeiros do grupo e do consumo naquele mercado".

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