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WorldCom diz que práticas contabilísticas «esconderam» 4 mil milhões; acções deslizam (act4)

A WorldCom anunciou que irá registar prejuízos relativos a 2001 e no primeiro trimestre de 2002, depois de ter descoberto que inflaccionou os seus resultados, não tendo registado 3,9 mil milhões de dólares em despesas. As acções da empresa estavam suspens

26 de Junho de 2002 às 15:55

(actualiza com mais informação e reúne notícias)

A WorldCom anunciou que irá registar prejuízos relativos a 2001 e no primeiro trimestre de 2002, depois de ter descoberto que inflaccionou os seus resultados, não tendo registado 3,9 mil milhões de dólares (3,95 mil milhões de euros) em despesas. A empresa demitiu o administrador financeiro, ou CFO.

O Departamento de Justiça norte-americano iniciou uma investigação criminal às práticas contabilísticas da empresa, noticiou hoje o «Washington Post» na sua edição electrónica. A Arthur Andersen, a auditora da WorldCom na altura da fraude, anunciou que não tinha conhecimento das despesas escondidas.

O anúncio da segunda maior operadora de chamadas de longa distância norte-americana poderá constituir a maior fraude contabilística de sempre e dificultará o acesso da WorldCom, com uma dívida de 30 mil milhões de dólares (30,35 mil milhões de euros), a novas linhas de crédito, com os investidores a recearem a falência da empresa.

As acções da WorldCom afundaram um máximo de 77% na Alemanha, estando suspensas no inicio da sessão no Nasdaq, perdendo mais de mil milhões de dólares (1,01 mil milhões de euros) em termos de capitalização bolsista.

A Nasdaq solicitou mais informação à WorldCom para que a empresa volte a negociar. Em Frankfurt a empresa negociava agora com uma queda menor de cerca de 60%.

A WorldCom já estava sob investigação por parte da Securities Exchange Commission (SEC) devido a algumas da suas práticas contabilísticas e às condições suspeitas em que o seu antigo presidente Bernard Ebbers, que foi demitido em Abril, contraiu um empréstimo.

A SEC anunciou que solicitou à WorldCom um relatório detalhado relativo às despesas não declaradas de 3,9 mil milhões de dólares.

WorldCom dispensa 17 mil funcionários

A empresa prepara-se para reduzir 17 mil postos de trabalho, ou cerca de 28% da sua força laboral, a partir da próxima sexta-feira. A WorldCom notificou a SEC que a descoberta ocorreu após uma auditoria interna às contas da operadora.

O administrador financeiro, ou CFO, da WorldCom, Scott Sullivan, começou a trabalhar para a empresa em 1992, depois da companhia ter adquirido a Advanced Telecommunications. Ebbers, o antigo presidente, atribuiu a Sullivan o mérito de ter conseguido superar a oferta da British Telecommunications sobre a MCI Communications em 1997.

«O facto de terem despedido o CFO indica que onde há fumo, há provavelmente fogo», afirmou Michael Mahoney, um gestor de activos da EGM Capital, citado pela agência Bloomberg.

«Scott era um dos CFOs que mais impacto e talento tinha em termos de conhecimento da própria empresa», afirma a mesma fonte.

Auditoria revela despesas escondidas

A WorldCom afirmou que a auditoria interna descobriu que as despesas que deviam ter sido registadas na sua demonstração de resultados foram, ao invés, declarados como despesas de capital. Esta prática inflacciona os resultados porque as despesas de capital podem ser registadas ao longo do tempo, em vez de serem registadas na altura em que a custo ocorreu.

Sem estas transferências, que ocorreram em 2001 e no primeiro trimestre deste ano, o «cash flow» seria reduzido em 6,34 mil milhões de dólares (6,4 mil milhões de euros) em 2001 e 1,39 mil milhões de dólares (1,4 mil milhões de euros) no primeiro trimestre de 2002.

Excluindo estas transferências, a empresa teria registado prejuízos quer em 2001 quer já em 2002.

Investigação da SEC começou em Março

A WorldCom afirmou em Março que a SEC havia requerido informação sobre a sua contabilidade e os empréstimos concedidos a Ebbers. Os empréstimos ascendiam a 408,2 milhões de dólares (411,47 milhões de euros) em Maio, de acordo com um comunicado de então da empresa.

A Arthur Andersen foi a auditora da WorldCom até Maio, quando a empresa foi substituída pela KPMG. A Andersen afirmou em comunicado que o seu trabalho com a WorldCom seguia os procedimentos impostos pela SEC «em todas as alturas».

O CFO da WorldCom «reteve» informação acerca dos custos da empresa, alegou a Andersen, que no início deste mês foi considerada culpada de impedir um inquérito por parte da SEC às contas da eléctrica norta-americana Enron.

Scott Sullivan «também não consultou a Andersen quanto ao tratamento contabilístico», acrescentou a auditora em comunicado.

A quinta maior auditora mundial reuniu-se com o comité de auditoria da WorldCom e com a sua nova administração e alertou a companhia para o facto de que «não se podia fiar» nas demonstrações financeiras de 2001, segundo um comunicado da empresa.

A WorldCom irá reduzir os postos de trabalho através da eliminação de algumas das suas operações, da não renovação de contratos e através de despedimentos, de acordo com o comunicado da WorldCom.

Com estas medidas, a operadora americana estima uma redução de custos de 900 milhões de dólares (906,3 milhões de euros). A empresa emprega 61.800 funcionários.

Andersen nega conhecimento de fraude contabilística da WorldCom

A Arthur Andersen vê-se novamente envolvida num escândalo financeiro, após a WorldCom ter anunciado que inflacionou os resultados por ter escondido um valor de 3,95 mil milhões de euros em despesas que a auditora norte-americana nega ter tido conhecimento.

A auditora norte-americana teria que avalizar as contas apresentadas pela empresa ao mercado, sendo que os especialistas consideram difícil esta operação não ter tido a conivência da auditora, especialmente após o seu envolvimento na fraude contabilística da eléctrica norte-americana Enron.

A Andersen justifica a sua posição afirmando que o «administrador financeiro da WorldCom reteve informação sobre os custos, dos auditores da empresa».

A empresa acrescenta que «o nosso trabalho seguiu os parâmetros profissionais exigidos pela Securities Exchange Comission (SEC)», o regulador do mercado de capitais norte-americano.

«Dizer que falta um montante perto de 4 mil milhões de dólares (4,01 mil milhões de euros) traduz falta de credibilidade», avançou à Bloomberg Dennis Beresford, professor de contabilidade na Universidade de Georgia.

Para o mesmo responsável, a análise das despesas «é um elemento fundamental na contabilidade».

Os analistas de mercado estimam que a empresa teria «escondido» este montante total nas despesas, permitindo-lhes reduzir os custos ao longo dos anos e aumentar os resultados líquidos.

A operadora de telecomunicações norte-americana avança que estas despesas foram contabilizadas na rubrica de despesas de capital em vez de despesas ordinárias da actividade.

A auditora, que colaborava com a empresa até Maio deste ano, por seu lado, referiu hoje em comunicado que não lhe foi divulgado pela WorldCom que as despesas teriam sido contabilizadas como despesas de capital.

A WorldCom argumentou que «substituiu a tempo» a Arthur Andersen pela KPMG.

Empresas europeias afastam-se dos modelos contabilísticos dos EUA

Com estes escândalos financeiros nos EUA as companhias europeias descartam agora a hipótese de aproximar as suas práticas contabilísticas às suas congéneres norte-americanas.

Há cerca de dois anos a União Europeia iniciou um estudo de modo a convergir as práticas contabilísticas da Europa com a utilizada nos Estados Unidos, considerada nessa altura mais rigorosa e credível.

Depois da Enron e agora da WorldCom esta hipótese está agora afastada. «Acontecimentos como os da Enron e da WorldCom levantam dúvidas acerca do modelo utilizado nos Estados Unidos, não acha?», perguntou um director de um banco de investimento, citado pela Bloomberg.

Euro sobe e aproxima-se da paridade

O efeito WordCom atingiu também o mercado de divisas, com o euro a subir 1,07% para os 0,9900 dólares, depois de ter atingido um máximo desde Fevereiro de 2000 nos 0,9942 dólares.

Os analistas consideram que o euro deverá atingir em breve a paridade e consolidar acima desse valor até ao final do ano.

Nos mercados accionistas o pânico de manhã foi amenizado, com as Bolsas europeias a aliviarem dos mínimos depois de uma abertura mais calma que o esperado em Wall Street.

Por Ricardo Domingos e Bárbara Leite

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