Governo manda rever diques do Mondego para adaptá-los aos novos fenómenos climáticos
O Governo vai avançar com uma revisão técnica do sistema de defesa contra cheias do Baixo Mondego, assumindo que o modelo concebido no final dos anos 70 já não está plenamente ajustado à realidade climática atual.
A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou a publicação de um despacho a solicitar à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) que “revisite o projeto” dos diques e avalie a sua adaptação às condições de hoje. “Temos fenómenos climáticos muito diferentes dos anos 70. Temos que nos adaptar às alterações climáticas”, afirmou.
PUB
O despacho determina a revisão do projeto físico das infraestruturas, a avaliação do modelo de vigilância e prevenção de cheias e a análise do modelo de governança da bacia do Mondego. “Os tempos de hoje são muito diferentes do passado”, sublinhou a governante, garantindo que o Ministério está “já a trabalhar no pós-crise”.
Durante o pico do episódio extremo, o caudal do Mondego aproximou-se dos 2.000 metros cúbicos por segundo, valor para o qual o sistema foi dimensionado. A retirada preventiva de populações foi decidida quando o caudal ultrapassou os 1.800 metros cúbicos por segundo. “Foi uma decisão importantíssima”, afirmou a ministra. Após o rompimento de um dique, foi também ordenado o corte imediato da A1. “Se não tivéssemos tomado aquela decisão de imediato, poderia ter sido um desastre complicado.”
PUB
No plano da energia, Maria da Graça Carvalho reconheceu que persistem consumidores ainda sem eletricidade. “Neste momento, cerca de 7 mil”, disse, recordando que “começámos com 1.110.000 casos”.
Apesar da redução para menos de 2% do total inicial, a ministra destacou o impacto humano da situação: “São poucos, mas cada um é um caso dramático de pessoas que estão há duas semanas e mais sem acesso à eletricidade.” Admitiu ainda que “percebemos a complexidade e a dificuldade que há em fazer esta reparação”, sublinhando que “a E-Redes tem cumprido aquilo que nos prometeu” e que os últimos casos são os mais difíceis, por envolverem infraestruturas mais isoladas ou de acesso complexo.
A ministra manifestou a expectativa de que a normalização total ocorra nos próximos dias, embora reconhecendo que os trabalhos finais são os mais exigentes do ponto de vista técnico e logístico.
PUB
Foi desta forma que o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, resumiu a estratégia adotada na gestão das albufeiras durante o episódio extremo.
"Passámos por uma situação ímpar", afirmou, referindo-se à sucessão de sete tempestades que atingiram o país. Segundo explicou, foram libertados preventivamente cerca de 750 hectómetros cúbicos de água — volume equivalente ao consumo anual de água dos portugueses — para criar capacidade de encaixe nas barragens antes da chegada dos picos de precipitação.
PUB
O responsável detalhou que, no caso do Mondego, a gestão das barragens da Aguieira e das Fronhas foi determinante para conter os caudais a jusante. “Se essa água chegasse toda a Coimbra, ficava completamente inundada”, afirmou, estimando que a soma dos contributos dos vários afluentes poderia ter ultrapassado os 3.000 metros cúbicos por segundo.
Pimenta Machado sublinhou ainda a articulação com Espanha na gestão do Tejo e o papel das grandes barragens na contenção dos picos, defendendo que a resposta assentou numa combinação de antecipação, coordenação institucional e gestão dinâmica das infraestruturas.
A revisão agora determinada pelo Governo abre um novo ciclo de avaliação técnica sobre a robustez das principais infraestruturas hidráulicas do país, num contexto em que a intensidade e a frequência dos fenómenos extremos colocam pressão acrescida sobre sistemas desenhados há mais de quatro décadas.
PUB
Saber mais sobre...
Saber mais Alterações climáticas águas passadas Fenómenos climáticos Ambiente Graça Carvalho Agência Portuguesa do Ambiente Aguieira Coimbra Espanha Rio TejoMais lidas
O Negócios recomenda