Bruxelas quer usar IA para poupar até 71 mil milhões por ano na fatura de eletricidade
Comissão Europeia quer antecipar o impacto energético dos centros de dados, cuja procura de eletricidade poderá mais do que triplicar até 2030.
A Comissão Europeia está a preparar uma estratégia para colocar a inteligência artificial (IA) no centro da transformação do sistema energético europeu, com potencial para gerar poupanças anuais superiores a 71 mil milhões de euros na fatura elétrica dos consumidores.
Segundo um projeto de documento a que o jornal espanhol elEconomista teve acesso, Bruxelas considera que a digitalização e a inteligência artificial são hoje uma "necessidade" para reforçar a competitividade europeia, acelerar a transição energética e reduzir a dependência tecnológica da Europa face aos Estados Unidos e à China.
A proposta, designada "Strategic Roadmap for Digitalisation and AI in the Energy Sector", aposta na utilização de dados, algoritmos e modelos avançados de inteligência artificial para otimizar a operação das redes elétricas, melhorar a integração das energias renováveis e aumentar a flexibilidade da procura.
As estimativas da Comissão apontam para uma redução potencial superior a 71 mil milhões de euros por ano nos custos elétricos suportados pelos consumidores europeus. Ao mesmo tempo, Bruxelas calcula que a digitalização poderá reduzir entre 11 mil milhões e 29 mil milhões de euros as necessidades de investimento anuais no sistema energético até 2030.
A Comissão Europeia defende que não basta construir mais infraestruturas elétricas, sendo necessário recorrer a soluções digitais para otimizar ativos existentes, acelerar a resposta a incidentes, integrar mais renováveis e aumentar a flexibilidade do sistema.
O documento recorda que a Europa necessitará de investir mais de 1,2 biliões de euros em redes elétricas entre 2024 e 2040, dos quais cerca de 730 mil milhões em distribuição e 430 mil milhões em transporte. A digitalização poderá ajudar a extrair mais capacidade das infraestruturas existentes e reduzir parte deste esforço financeiro.
Centros de dados tornam-se desafio para o sistema elétrico
A estratégia surge numa altura em que a eletrificação da economia e a expansão da inteligência artificial estão a impulsionar o consumo de eletricidade.
A Comissão recorda que os centros de dados representam atualmente cerca de 2% do consumo elétrico da União Europeia, mas estima que a capacidade instalada possa aumentar de cerca de 10 gigawatts (GW) em 2024 para 35 GW em 2030.
Perante este crescimento, Bruxelas pretende promover acordos entre administrações públicas, operadores de centros de dados e empresas energéticas para coordenar o planeamento das redes, o fornecimento de energia limpa e a localização de novos projetos.
O objetivo é evitar congestionamentos e garantir que a expansão da inteligência artificial não se transforma numa nova fonte de pressão sobre o sistema elétrico europeu.
O plano prevê ainda a criação de um Espaço Comum Europeu de Dados Energéticos, incluindo um "Energy Data Lab" destinado a apoiar o desenvolvimento de modelos europeus de IA para otimizar e simular o funcionamento do sistema energético. Segundo a Comissão, estes modelos, treinados com dados operacionais, meteorológicos e de mercado, poderão melhorar a gestão de congestionamentos, a deteção de falhas e o planeamento de investimentos.
Mais de 200 milhões para investigação
Citando o relatório Draghi sobre competitividade, o documento alerta para o atraso europeu nesta área, apontando que, em 2024, os Estados Unidos desenvolveram 40 grandes modelos fundacionais de inteligência artificial, a China 15 e a União Europeia apenas três.
Para apoiar esta estratégia, a Comissão Europeia prevê mobilizar mais de 200 milhões de euros nos próximos dois anos para investigação e inovação em soluções digitais e de inteligência artificial aplicadas à energia.
O plano inclui ainda medidas de reforço da cibersegurança das infraestruturas energéticas e a criação de uma academia europeia para reforçar as competências digitais dos operadores de redes de distribuição.