Deixar de ser co-piloto numa multinacional para ser piloto por conta própria em Portugal
Pequenos pormenores que um dia fizeram um clique. João Paulo Girbal não queria adiar mais a sua vida. Tinha uma carreira internacional bem sucedida, ganhava bem, mas havia outras prioridades. Um dia acordou, num dos muitos hotéis por onde tinha de...
João Paulo Girbal |
Quando lhe perguntam a profissão, João Paulo Girbal ri-se, mas prontamente diz: "sou empresário". Deixou uma carreira de topo na Microsoft para avançar com projectos seus. As ideias são muitas e já começou a pô-las em prática.
Pequenos pormenores que um dia fizeram um clique. João Paulo Girbal não queria adiar mais a sua vida. Tinha uma carreira internacional bem sucedida, ganhava bem, mas havia outras prioridades. Um dia acordou, num dos muitos hotéis por onde tinha de pernoitar devido à sua responsabilidade sobre 14 países, e não sabia onde estava. Numa outra vez, esteve duas semanas sem ir a casa, e o filho, hoje com 11 anos, escreveu-lhe uma carta. E foi o filho a principal razão para o regresso a Portugal de uma carreira na Microsoft nos Estados Unidos. E é agora uma motivação para assentar em Portugal. A Microsoft, onde esteve 16 anos, ficou para trás.
João Paulo Girbal escolheu ser empresário. Os projectos já estavam na cabeça. E, quando ainda estava nos Estados Unidos da América, começou a percorrer Portugal para ver as pistas de aviação que existiam. Este ano tornou-se dono, em sociedade com David Ferreira (outro ex-gestor de tecnologias), da Aerolazer, proprietária do Campo de Voo de Benavente, e da ETT, outra empresa do grupo que tem a representação e manutenção de ultra-leves. Não esconde que este primeiro negócio surgiu de um gosto especial pela aviação. Desenhar a entrada neste negócio começou, assume agora, há dois anos. Mas garante que não estava a preparar a saída da Microsoft. Começou a tirar o "brevet" para ultra-leves era ainda gestor da Microsoft, mas não dispunha de tempo para concluir as aulas. Hoje, além de empresário, está também a tirar o "brevet" de ultra-leve na sua própria escola. É um dos 18 formandos da escola da Aerolazer. O que também lhe permite perceber as necessidades e as melhorias que podem ser introduzidas. João Paulo Girbal também já sabia que esta actividade, que tem alguns adeptos em Portugal, estava de uma maneira geral desorganizada. Profissionalismo é que a aviação de lazer precisa.
E novos modelos de negócio, quer para os cursos, quer para a aquisição ou aluguer de ultra-leves. Quem experimenta, adere, garante João Paulo Girbal, que sabe do que fala. E o preço? "A aviação de lazer não é barata, mas é menos cara que o golfe", aponta, acreditando que "com meia dúzia de alterações que temos pensadas e que vamos introduzir, conseguimos baixar os preços". É também uma actividade com possibilidade de expansão para fora de Portugal. Espanha e África são a extensão natural. Não há limites para os projectos. Cursos de simulador de voo de computadores, expansão dos hidroaviões em Portugal, etc, etc. "Pode demorar tudo um bocadinho", também "depende de termos parceiros".
O equilíbrio operacional já foi conseguido, mas João Paulo Girbal esconde os valores de investimentos. Garante que foram todos feitos com capitais próprios e que a segunda fase de expansão não vai necessitar de recursos externos.
A aviação de lazer não é o único projecto de João Paulo Girbal, mas é do que fala com maior prazer. Os outros, também, estão numa fase mais embrionária. As energias renováveis serão o próximo passo e onde não entrará apenas como investidor. "Sou engenheiro electrotécnico e sempre tive interesse por esta área", por isso, "terei um papel mais interveniente". Também aqui entrará por aquisição de participações em empresas já existentes, para as expandir. Na aviação, a opção também foi a aquisição. A Aerolazer e a ETT estavam em dificuldade. João Paulo Girbal e David Ferreira garantiram esse balão de oxigénio.
Para breve poderá estar o anúncio da entrada de João Paulo Girbal nas energias renováveis. Há muitas oportunidades na micro-geração para os segmentos residencial, PME e condomínios. Se a compra pode passar por alguma das empresas que hoje instalam, unicamente, painéis solares, João Paulo Girbal quer funcionar como cola. Micro-geração não é só solar, é também biomassa, eólica.
Tornar-se empresário não foi difícil, embora admita que aos portugueses não é incutido o espírito de empreendedorismo. O problema é mesmo a burocracia, diz. Mas não está arrependido. Admite que sempre quis criar alguma coisa. João Paulo Girbal hoje já não tem de fazer a mala todas as semanas, para andar de país em país. Quanto muito descola-se dentro do país. E dentro em breve, quando passar no exame do INAC, poderá fazê-lo de ultra-leve. E ele próprio como piloto.
| Aprender numa multinacional a ser patrão João Paulo Girbal completou, recentemente, 48 anos. E foi chegado este momento que decidiu deixar a carreira de gestor na multinacional Microsoft para se dedicar aos negócios próprios. Em Portugal. "Hoje digo que sou empresário" quando é questionado sobre a sua profissão. "Vejo-me como empresário, mas já me via antes, só que tinha um patrão". Dirigir a subsidiária da Microsoft em Portugal foi quase como ser patrão. "O que conseguimos construir, o que trouxemos para Portugal, os projectos que fizémos foram iniciativa nossa". De tal forma, que foi escolhido para ir trabalhar para Seattle, o quartel-general da Microsoft. Regressou, mais tarde, a Portugal, mas com responsabilidade sobre 14 países. Saia domingo ou segunda-feira para correr a Europa e regressar ao país sexta-feira. "Uma pessoa que decida fazer este tipo de carreira de Portugal acrescenta seis horas de viagem à sua semana de trabalho", lembra João Paulo Girbal, que percebeu que a vida tinha outras prioridades. Deixou a Microsoft, onde trabalhou 16 anos, e o mundo das multinacionais onde sempre "viveu". Antes da Microsoft esteve na NCR, na Digital e na Informix. |
Três novas apostas
Aviação de lazer, energias renováveis e serviços a empresas são as três áreas para as quais João Paulo Girbal tem baterias apontadas. A primeira é a única que está já concretizada, mas as outras estão a ser preparadas ao pormenor.
Aviação de lazer
"É um investimento interesseiro". João Paulo Girbal aliou um gosto pessoal ao negócio.
João Paulo Girbal associou-se a David Ferreira e, depois, a Luís Malheiros - três ex-gestores de tecnologias - para avançar no primeiro negócio. "Para não começar do zero, fomos procurar o que mais se assemelhava com o que pensávamos ser o melhor". Encontraram o campo de voo de Benavente, detido pela Aerolazer, que, além do campo, tem formação de pilotos de ultra-leves. Esta é a actividade que os sócios querem fazer crescer. Os alunos de hoje, serão os compradores [de aparelhos] de amanhã. A Aerolazer tem, hoje, 18 formandos, mas a capa-cidade é para 50 alunos. "Temos a maior taxa de sucesso, cerca de 96%, nos exames do INAC". Quando os alunos quiserem comprar ultra-leves, a ETT, outra empresa adquirida, representa cinco marcas, às quais garante manutenção. O modelo de negócio está a mudar e a aviação de lazer a crescer.
Energias renováveis
Já foram detectadas empresas a comprar, que acuarão na micro-geração em todas as áreas.
As energias renováveis estão na moda, mas ainda vão estar mais. João Paulo Girbal, engenheiro electrotéc- nico, sempre demonstrou interesse por esta área. Anda, na cidade, de motorizada eléctrica, com 90 quilos de bateria, mas que cada quatro quilómetros custa um cêntimo. Mas tem interesse nas energias renováveis, também, pelo negócio. "É óbvio que o petróleo vai acabar e este empurrão nas energias alternativas tem de ter continuidade e apresenta oportunidades de negócio interessantes". Portugal fez os investimentos em mega infra-estruturas. Chegou a hora de fazer nas micro-estruturas, no mercado residencial e PME, onde está "a ser feito de forma desconexa". A micro-geração é uma área onde são possíveis retornos de 16-17% ao ano. João Paulo Girbal já detectou empresas onde pretende investir, para expandir a todas as áreas de micro-geração (solar, biomassa, eólica, etc).
Serviços de mediação
É um conceito pouco explorado. A mediação de conflitos de empresas é um negócio futuro.
Todas as empresas vivem conflitos, com trabalhadores ou com terceiros. A solução na mediação de conflitos é, na maior parte dos casos, pôr advogados ao barulho. Mas João Paulo Girbal acredita que pode haver outras alternativas. E por isso pretende criar, de raiz, uma empresa para mediação de conflitos.
O negócio deverá arrancar até ao final do ano. Os conflitos são "energia negativa" nas empresas e, por isso, resolvê-los de forma tranquila permite às companhias reduzirem custos e aumentar a produtividade dos trabalhadores. A ideia é criar uma empresa para consultoria e acompanhamento destes conflitos. Uma coisa é certa: "os conflitos vão continuar a existir", por isso, "o que queremos é ajudar a lidar com eles", diz João Paulo Girbal.